Má Educação | Um Crime Real


Má Educação é uma produção da HBO baseada em um artigo da New York Magazine chamado “The Bad Superintenent”, e talvez isso seja suficiente para entender sobre o que é o filme e o que esperar dele.

O filme é dirigido pelo jovem Cory Finley apenas em sua segundo trabalho, mas já com o jeitão de ser mais um daqueles representantes de uma geração de cineastas que busca um olhar delicado e suburbano, percebendo que há algo meio fora do lugar. Má Educação é então sobre personagens fazendo coisas que não deveriam ser feitas por gente que parece estar sob o verniz moral dessas cidadezinhas americanas com suas “high schools” e “proms”. Quase uma sutil quebra de expectativa, mesmo sendo algo aparentemente mais comum, tanto nos Estados Unidos, quanto em qualquer lugar do mundo.

Na história, Hugh Jackman é Frank Tassone, superintendente educacional do distrito de Roslyn. Sua figura indefectível não deixa espaço para falhas e seus feitos colocaram a região no mapa das melhores escolas dos Estados Unidos. Todos adoram Tassone, e essa figura é criada à tamanha perfeição por Finley e o roteiro de Mike Makowsky que é impossível não esperar pela queda do pedestal.

Tudo começa a dar errado quando uma de suas funcionárias, Pam Gluckin (Allison Janney), é pega em um esquema de desvio de verbas que acaba com a carreira dela. E talvez aí esteja uma das melhores armas de Má Educação, o modo como cria essa situação onde, mesmo diante do desastre, o Doutor Tassone não perde o controle da situação e parece manejar tudo para um bem maior.

Jackman some por trás desse tipo meio esquisito, não para um lado caricato, mas quase psicótico, como se tamanha perfeição, charme e capacidade de convencimento não possam existir. Talvez o filme até se debruce um pouco demais sobre o personagem, perdendo um pouco do ritmo da história, mas ainda assim é impressionante ver o esforço na criação desse personagem acima de qualquer suspeita, mas aos poucos, falho. Sua quebra surge lenta, mas nunca sem entender a humanidade desse personagem. Suas motivações beiram uma sinceridade maquiavélica que não permite que sua excentricidade o coloque como uma piada, mas sim como alguém distorcido pelos próprios valores morais deturpados.

Janney rouba a cena junto com Jackman e ver os dois em cena vale o filme, mas sua personagem nunca opta por essa sinceridade maluca, ela sabe o que está fazendo, não esconde seus pecados e nem foge de suas decisões. Pam é alguém que não soube lidar com a tentação, Tassone é um monstro, mas não deixa nunca de ser humano.

O perfil falho do protagonista se estende para sua vida pessoal, onde trai o marido e até mente para todos a respeito de seu relacionamento. Tudo no protagonista é digno de quebrar diante de qualquer choque com a realidade. Finley fica confortável com essas camadas do personagem, não pega atalhos para vilanizá-lo, apenas o observa e deixa o verdadeiro Tassone surgir quando é empurrado até seu limite. Tanto apaixonado, quanto obscuro e sem culpa.

A direção de Finley ainda cria um clima que coloca Tassone quase sempre como o centro da atenção estética, mas quase de um jeito distorcido, como se as composições do resto do elenco em cena obedecessem uma estrutura adulterada pela presença de Tassone.

E Má Educação é justamente sobre isso. Ainda que acompanhe de longe a investigação da aluna vivida por Geraldine Viswanathan, é sobre o quanto a maldade do título pode ser simplesmente encarada como algo errado por alguém que tem intenções que seu ego não permite serem julgadas.

Os milhões de desvio fizeram o caso real ganhar o título de “maior roubo de uma escola pública dos Estados Unidos”. Má Educação é sobre essa história, mas mais do que isso é a respeito dos seres humanos que construíram essa história.


“Bad Education” (EUA, 2019); escrito por Mike Makowsky, a partir do artigo “The Bad Superintenent” de Robert Kolker; dirigido por Cory Finley; com Hugh Jackman, Ray Romano, Allison Janney, Annaleigh Ashford e Geraldine Viswanathan


Trailer do Filme: Má Educação

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