Listen | Crítica do Filme | CinemAqui

Listen | Sem respostas simples


Talvez seja um exagero simplificar a situação ao redor de Listen, longa de estreia na direção da atriz portuguesa Ana Rocha. E por mais que pareça que o roteiro escrito por ela em parceria como Paula Alvarez Vaccaro e Aaron Brookner pareça fazer isso, existe ali algo além do óbvio.

A história não foge de acompanhar essa família de portugueses que tentam a vida na Inglaterra, mas acabam presos a uma rede judicial que permite que a assistência social do país simplesmente tire seus filhos da guarda deles. O governo não é o vilão, muito menos os pais. O problema é muito mais complexo e não tem vilões e mocinhos.

O filme da diretora portuguesa consegue enxergar isso e vai construindo essa trama dolorosa e que a cada passo vai chegando mais perto de uma tragédia que é ao mesmo tempo visceral, emocional e triste. Algo de degradante e que faz o espectador julgar certas ações dos pais antes de entender o quanto isso pode ser um peso grande demais para quem está do lado de cá da tela. A criança no beco esperando pela mãe enquanto ela rouba comida pode ser difícil demais de virar o olhar, mas é preciso enxergar a verdade entender de entender o que ela significa.

Uma situação tão delicada que Ana Rocha não julga com simplicidade, mas sim com a violência de arrancar os filhos dos braços de seus pais sem uma explicação que seja coerente o suficiente. Se é que alguma naquela situação seria.

Ana Rocha não desvia o olhar de seu elenco e faz com que o casal de pais, vividos por Lúcia Moniz e Ruben Garcia sejam poderosos e carreguem a dor de seus personagens com personalidade e segurança. A câmera de Rocha não esconde seus desesperos e emoções, muito menos encontra uma resposta fácil para a pergunta que não quer calar durante todo o filme: Alguém está certo?

O “listen” do título conversa, tanto com o problema de audição da filha, quanto com a incapacidade do casal de serem ouvidos. Suas palavras quase nem conseguem se encontrar, quanto mais se fazerem ser ouvidas por um sistema quebrado e que não escolhe suas vítimas. Existe um misto de azar, com uma vontade de destruir àqueles que estão à sua margem.

Por não fugir dessa simplicidade é fácil aceitar o quanto Listen é movido por um vilão comum, o governo e seus representantes, mas o roteiro não vende isso sem antes fazer com que o espectador pense a respeito do quanto isso poderia simplesmente soar mais simples do que realmente é.

Não ser ouvido dentro desse mundo é o mesmo que ser ignorado e esquecido. Mas a voz vem, mesmo sendo tarde demais, o que coloca Listen em um lugar comum de um tipo de filme que sabe o quanto é importante não polir a realidade para mostrar a seus espectadores o quanto ela pode ser dura.

O filme português não é simples. Não traz respostas simples e muito menos procura por elas. Termina com um final feliz que não é feliz. É um soco no estômago tão forte que irá partir o coração de todos.


“Listen” (Por/UK, 2020); escrito por Paula Alvarez Vaccaro, Aaron Brookner e Ana Rocha; dirigido por Ana Rocha com Lúcia Moniz, Sophina Myles, Ruben Garcia, Kiran Sonia Sawar, James Felner e Brian Bovell


O filme faz parte da cobertura da 45° Mostra de Cinema de São Paulo

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