Limiar | Uma mala de viagem rosa


Se você sabe que Limiar é sobre um cineasta em busca de lugares para filmar sua próxima produção, é porque leu o release. Caso contrário, se você não for um dos diretores, Rouzbeh Akbari ou Felix Kalmenson, você não tem qualquer pista para entender nada disso.

O que você tem é esse homem (Arsen Ohanjanyan) andando por aí. Os cenários são realmente lindos na Armênia, e os diretores fazem um trabalho maravilhoso de criar essas cenas fixas e poderosas, mas o resultado é insuportável. Não acontece absolutamente nada em Limiar, por mais que você tente arrancar isso de algum lugar naquela experiência vazia.

Limiar é existencial, pois caminha por aí em busca de um significado para aquelas cenas. Como se buscasse uma janela onde se apoiar para descansar enquanto cresce uma chatice enorme que não larga o filme. O limiar não vem de tentar entender o significado daquelas imagens, mas sim do limite de sua paciência antes de largar o filme e ir embora.

Nem o próprio personagem parece aguentar o tal próprio filme que está fazendo, larga a câmera lá ligada com seus personagens tocando uma canção monótona e vai fumar um cigarro, mas você, espectador, precisa continuar acompanhando essa falta completa de interesse.

Um filme bonito, lógico, um verdadeiro deleite para os olhos, mas sobre tudo isso, um amontado de imagens sem sentido, mas apresentadas com tamanha firmeza que faz qualquer um acreditar que há muita coisa por trás de tudo aquilo. Não há. Não se preocupe e não perca seu tempo. O único significado continua na cabeça dos realizadores e é de um egoísmo enorme jogar essa responsabilidade no colo de seus espectadores.

O resultado é algo quase sem diálogos, mas com menos ideias ainda. Que talvez passe pelo passado dos personagens e as perdas de um passado de guerras. Quem sabe até ele morra no final com um tiro, o que é ótimo para ele, assim não precisará ver o próprio filme.

Igual àquela mala de viagem rosa que aparece no meio do filme. E isso também não quer dizer nada, nem tente entender.


“Threshold”  (Can/Arm/Geo/Tur, 2020); escrito e dirigido por Rouzbeh Akbari e Felix Kalmenson; com Arsen Ohanjanyan


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