Liga da Justiça de Zack Snyder | AKA “Snyder Cut”


Não há razão real para existir esse “Zack Snyder´s Justice League”, ou como ficou popularmente conhecido: o “Snyder Cut”. O combustível para essa catástrofe é uma mistura de ego com vontade de vencer uma batalha contra um inimigo invisível que deixaria o Darkseid no chinelo.

O “primeiro” Liga da Justiça foi lançado em 2017, mas após um problema familiar do Zack Snyder (o suicídio da filha) e uma série de desentendimentos com a Warner, o próprio diretor abandonou o projeto, deixando a finalização dele para Joss Whedon, vindo diretamente dos dois primeiros filmes dos Vingadores. Mas esse é só o último capítulo desse primeiro ato.

Ao que tudo indica Snyder teria entregue um “primeiro corte” com quatro horas de duração e batido o pé a respeito da qualidade desse resultado, o que ia de encontro à opinião da própria Warner, que tinha convicção da falta de qualidade do filme e completa maluquice que seria colocar no cinema um filme de super-heróis de quatro horas. Eles estavam certos.

Após a saída de Snyder, sobrou para Whedon arrumar a casa com algumas poucas refilmagens e uma (aparente) obrigação contratual: Liga da Justiça deveria ter 120 minutos. O filme de Whedon tem precisamente duas horas de duração, com os créditos e tudo mais. Mas tudo fica em uma zona nebulosa entre a realidade e a lenda, o que importa é que o diretor original, diante da aparente falta do que fazer na vida, decidiu clamar pelo lançamento de sua versão junto de uma manada de fãs carentes de bom senso.

A falta dessa capacidade de se adaptar ao mundo ao seu redor, vem justamente do contrário a essa ideia, a obsessão por querer que a realidade se adapte àquilo que eles aceitam como certo. O que sai disso, por qualquer razão que seja, se torna o inimigo. Esse fenômeno ainda parece ligado a uma luta contra o século 21 e todas suas evoluções sócio-políticas, o que acaba não cabendo na Liga da Justiça, já que, entre outras coisas, o próprio Joss Whedon levou desse último trabalho uma série de acusações de assédio moral. Portanto, os babacas comuns acabaram indo contra o trabalho de um babaca oficial, o que geralmente não é o que acontece.

De qualquer jeito, essa minoria barulhenta (não se engane, é sim uma minoria), fez com que a Warner aceitasse a ideia de jogar fora algumas dezenas de milhões de dólares para que Snyder voltasse ao projeto. A ideia da Warner era usar esse “novo filme” para alavancar as assinaturas de seu serviço de streaming, o HBO Max. O filme então seria dividido em quatro capítulos de uma hora cada e se transformaria em uma série. Mas como as assinaturas do seu serviço de streaming foram ótimas nos últimos meses, o pessoal achou melhor arrancar logo esse troço como um band-aid. O filme foi lançado nos cinemas e na plataforma de uma vez só em todas suas delirantes e inúteis quatro horas de duração. Na verdade, quatro horas e dois minutos, porque todo minuto conta quando a dor é incalculável.

A primeira coisa que fica extremamente clara é que realmente você está frente a frente com um novo filme. Principalmente, um novo filme onde o montador não teve a possibilidade de cortar absolutamente nenhuma cena. Tudo está lá, mas nem tudo serve para estar lá. Chega a ser surpreendente pensar o quanto Snyder, Chris Terrio e Will Beal conseguiram escrever um texto tão cheio de sobras e momentos inúteis. Pior ainda, a completa falta de bom senso narrativo permitiu que esse monte de besteira fosse filmado.

É lógico que, visualmente falando, o filme vai ter sempre essa impressão poderosa de um olhar caprichado de Snyder. Seus filmes nunca pecam pela falta de beleza de suas cenas e sequências de ação, o problema é outro. Diante desse espetáculo visual, falta algo, quem sabe um significado ou até, sendo um pouco mais esotérico, falta alma. Snyder é um diretor frio, mesmo coberto por suas fotografias quentes e escuras. Como se não encontrasse o ponto de equilíbrio de seus trabalhos e tivesse que soterrar tudo por uma montanha de entulho visual.

Uma verdadeira bagunça com um CGI meia-boca e muito slow-motion. Não existe dúvida que se esse Liga da Justiça /Snyder Cut fosse todo colocado em sua velocidade normal, perderia, com certeza, mais de uma dezena de minutos de duração (e fico esperando algum maluco fazer isso para vir me dizer se estou errado ou certo).

Essa “nova história” beira o novelesco (no sentido daquelas que passam na TV, não dos livros). As cenas e sequências vão se intercalando de modo linear e sem muita intenção de criar um ritmo. Em certo momento, por exemplo, depois de infindáveis minutos de uma discussão entre os heróis sobre a Caixa Materna, o filme vai até a casa de Lois Lane para uma conversa altamente sem razão de existir com a famosa Martha (a do Clark, não a do Bruce). A conversa entre as duas se torna uma surpresa patética e sem sentido envolvendo um certo marciano antes de, simplesmente, voltar para Bat Caverna diretamente de onde eles tinham parado.

Isso acontece, talvez porque nem o próprio Snyder tenha convicção de sua história. Primeiro, pois, Whedon e seu corte mostraram que ela poderia ser contada com a metade do tempo, segundo, pois talvez não entender o quanto o cinema lhe dá ferramentas para que toda essa exposição sem sentido seja mais econômica para a paciência do espectador. Parece que existe uma vontade sem precedentes de mostrar um monte de coisas que não precisariam estar ali. É lógico que a desculpa do visual pode contar bastante, absolutamente todos heróis acabam ganhando uma sequência sem função narrativa a não ser a de mostrar os efeitos especiais.

A entrevista de emprego do Flash não serve para absolutamente nada. O Aquaman resgatando um pescador é uma coisa ainda mais inútil. O Touchdown do Ciborgue, além de ser a mais clara demonstração de que o diretor não entende de futebol americano, está lá só pelo slow-motion.

Falando em “não entender de um assunto”, o que mais se sobressai nessas quatro horas de descontrole emocional e egolatria de Zack Snyder é sua incapacidade de entender os personagens que têm em mãos. Não estamos falando de versões, dessas os quadrinhos estão cheios e ninguém poderia reclamar, mas sim de fazer um esforço enorme para passar a imagem errada. O esforço de Snyder continua aquele mesmo de provar para o mundo que “seus” super-heróis são, na verdade, um produto focado no adulto violento e sem esperança de que o mundo tem jeito.

Sua Mulher-Maravilha simplesmente trucida uma dezena de terroristas, mancha as paredes de um museu com o sangue deles, destrói a fachada do prédio e mostra para a pequena garotinha que ela também pode ser uma psicopata com super-força se ela quiser. É difícil entender a necessidade do nível absurdo de violência que Snyder tenta imprimir em seu filme. O lúdico do “bem contra o mal” se torna algo como uma necessidade de decapitar o mal e posar como protetores da Terra por deixarem claro que podem trucidar um exército de criaturas com requintes de maldade.

Snyder quer um Superman vestido de preto, pois continua sem entender o quanto o personagem representa a luz e a possibilidade de empatia. Não basta a desculpa esfarrapada de que o “S” significa esperança, é preciso mostrar isso. Mesmo com todo CGI ruim que tirou o bigode de Henry Cavill nas refilmagens de Whedon, o corte original tinha claramente essa intenção, a de entender que o Superman tinha um significado para as crianças, por exemplo. Aquilo era esperança, aqui, seu Superman é só uma arma apontada para o vilão.

Falando em vilão, talvez ele seja quem mais se favorece com essas quatro horas de ausência de bom senso. Do Lobo da Estepe sem muito sentido na versão original, ele se torna um soldado em busca da redenção, tentando vencer a vergonha de ter falhado. Ganha uma fragilidade interessante, ao mesmo tempo que constrói bem melhor toda razão dele estar ali, em busca das Caixas Maternas. Mas isso não o impede de ter ficado com visual horrível. Bem verdade, todo pessoal de Apokolips (Darkseid e companhia) parece ainda estar em uma versão mais antiga de um console de videogame, enquanto o resto do filme já chegou na próxima geração.

Quando todo esse esforço estético acaba, Snyder ainda tem quase um quarto de filme para tentar emplacar uma vexatória tentativa de colocar o filme inteiro dentro de uma trama muito maior envolvendo viagens no tempo e Jared Leto tendo mais uma oportunidade de viver um Coringa sem a mínima inspiração e apelando para uma série de atalhos narrativos sem criatividade. O tal “pesadelo” era para ser só do Batman, mas acaba sendo de todos espectadores que precisam aguentar esse enorme diálogo expositivo desse “Batman de roupinha”. Porém, acordar disso é dar de cara com uma aleatoriedade vinda de Marte e uma obsessão por conquistar seus fãs não pelas razões corretas.

Snyder criou uma máquina de retroalimentação egocêntrica. Seus fãs bancaram sua ideia e os fãs de seus fãs, na esteira da possibilidade de estarem juntos em uma guerra, seja contra a Warner, contra Marvel ou até contra as próprias versões dos personagens nos quadrinhos, se viram representados. Não existe o interesse pela qualidade, mas sim pela experiência visual que cega o bom senso. Mas agora é tarde demais, todos já empregaram energia e tempo demais nessa luta contra um inimigo invisível e já passaram faz tempo daquele ponto sem retorno. Irão ter que conviver e celebrar o Snyder Cut mesmo que ele não tenha absolutamente nenhuma razão para existir que não seja suprir o ego de Zack Snyder e seu pelotão de parademônios voando por aí sem muita função dentro da trama.


“Zack Snyder´s Justice League” (EUA, 2021), escrito por Chris Terrio, Joss Whedon e Zack Snyder, dirigido por Zack Snyder, com Ben Affleck, Gal Gadot, Henry Cavill, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Ciarán Hinds, Amy Adams, Diane Lane, Connie Nilsen, Amber Heard, Billy Crudup, Jeremy Irons, Joe Morton e J.K. Simmons.