Laranjas Sangrentas | Os melhores momentos da derrocada da sociedade


Nem só de drama social vive a Mostra. Laranjas Sangrentas é uma comédia com drama social, olha só. Mas não é só isso. Ela é bem-humorada porque é absurda e não quer finais felizes, mas finais pensantes. Nisso estamos todos de acordo.

Essa é uma mescla de personagens que se cruzam… blá-blá-blá… mas mais importante que isso são os temas variados. De política ao politicamente correto passando por drama senil e as maravilhas dos hormônios na puberdade, este segundo longa de Jean-Christophe Meurisse constrói dois momentos tarantinescos icônicos sem ser um plágio. É mais uma releitura da linguagem. Até divisão de tela é usado no momento certo. Ambos os momentos giram em torno de um personagem que aparece no filme apenas para isso. Ele é instrumental e invisível, representa “o monstro”.

Uma cena é praticamente a mesma de Pulp Fiction, quando o líder de uma gangue é currado. Nesse, o líder é um ministro da França, mas isso apenas coloca o ser currado sob outra perspectiva. Em algum momento nos faz lembrar do episódio piloto de Black Mirror, talvez.

A segunda cena é a mais catártica, hilária e fantasiosa. Uma licença poética das feministas que defendem vingança violenta contra homens violentos. Aliás, quem defende isso nem os chamam de homens. Animais, mesmo. Dou todo o apoio. Pela maior dor e sofrimento possível, por favor. A cena é imperdível, apesar de perder as estribeiras do real, fugindo um pouco desse tecido levemente desproporcional que é o filme.

No meio de algumas loucuras o que mais sobressai no filme é um frescor de linguagem e diálogos soltos, cotidianos, que nos fazem pertencer à discussão. O roteirista Jean-Christophe não está interessado em defender lados, mas pincelar um pouco de contemporaneidade dos lados. Há representação para todo mundo nesse caos que estamos vivendo. Um caos divertidos para alguns (eu incluso) e trágicos para a maioria. Se você faz parte da maioria, não desanime. Vai piorar. Venha assistir TV e curtir os melhores momentos da derrocada da sociedade.


Oranges Sanguines” (France, 2021), escrito por Yohann Gloaguen, Jean-Christophe Meurisse e Amélie Philippe, dirigido por Jean-Christophe Meurisse, com Blanche Gardin, Denis Podalydès e Christophe Paou.


O filme faz parte da cobertura da 45° Mostra de Cinema de São Paulo

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