Serial CinemAqui | La Casa de Papel: 4ª temporada é ainda mais desnecessária que a 3ª

A quarta temporada de La Casa de Papel é completamente desnecessária.

As duas primeiras temporadas de La Casa de Papel são um excelente exemplo de uma série bem mediana que poderia ser um filme excelente, mas a terceira e quarta temporada são um exemplo de ideias que nunca deveriam ter saído do papel. O melhor lugar que elas poderiam estar é bem quietinhas no fundo da gaveta de um produtor. E, como desgraça pouca é bobagem, ainda seremos presenteados com uma quinta temporada.

Na falta de motivação e criatividade pra construir novas continuações de uma história que já foi espremida até o bagaço em 15 episódios, bastou mostrar como a Tóquio é uma garota mimada e insatisfeita. Uma repetição do padrão das duas primeiras temporadas em que a mulher “desequilibrada emocionalmente” faz uma bobagem que prejudica a todos do grupo. Sempre ela, claro!

Isso tudo sem falar do potencial que a série tem pra acabar com os seus melhores personagens. Os criminosos profissionais agora dão espaço a meia dúzia de pessoas completamente fragilizadas emocionalmente que não conseguem construir uma relação estritamente profissional, mas, pelo menos, os roteiristas preferem matar os melhores personagens antes que eles também comecem a se perder nessa enrolação. Não que isso seja um ponto positivo.

Se você ainda não assistiu as duas primeiras temporadas, cuidado com os spoilers nos dois próximos parágrafos.

Voltando à série, Berlim é o maior exemplo de como não matar um personagem. Um sociopata extremamente elegante e com um código de conduta um tanto quanto estranho e que cativou até mesmo os que não gostavam tanto da série. O personagem faz tanta falta na continuação de La Casa de Papel que os roteiristas precisaram inventar uma desculpa para incluí-lo na história. Sempre utilizando os flashbacks – que merecem um comentário especial mais à frente.

Essa necessidade do Berlim talvez já fosse um grande motivo pra perceberem o erro que seria dar continuidade a esta série. Palermo, o personagem criado pra substituir essa sociopatia dentro do assalto, é um verdadeiro profeta do caos, mas não encanta e nem cativa o público. Daí a necessidade de sempre lembrar daquele que morreu ao final da segunda temporada.

Como se não fosse o suficiente tentar fazer uma continuação “sem” o personagem mais cativante, agora, eles têm a coragem de repetir o erro matando personagens que sustentam a trama. Isso me faz pensar como uma história pode ser tão ruim e, ainda assim, dar uma sensação de prazer às pessoas por estarem assistindo a um plano tão inteligente. O roteiro repete diversos padrões e erros, temporada após temporada, mas o público da série parece não se importar… nem os produtores.

Mas, como eu prometi, vamos falar sobre os flashbacks. Essa é a ferramenta mais importante de toda a série. Não precisamos nos preocupar quando vemos os ladrões encurralados. Logo aparecerá um flashback mostrando toda a genialidade do professor, as vezes do Berlim, pra jogar na nossa cara como tudo já havia sido planejado. Se os roteiristas não sabem mais o que fazer em La Casa de Papel, basta inventar um flashback qualquer mostrando como o professor é genial e já tinha previsto aquele cenário pra colocar tudo de cabeça pra baixo novamente.

Toda essa genialidade do professor é costurada, claro, por uma narração poética da Tóquio. Um texto digno do diário de uma garotinha de 11 anos apaixonada pelo membro mais estranho de uma boy band coreana. Essa narração talvez seja o segredo do sucesso da série entre o público adolescente. Gera identificação, né?

Acredite: tudo isso que eu já falei ainda não está nem perto de ser a pior parte da nova temporada de La Casa de Papel. O discurso feminista leve e sútil que fez muitas pessoas gostarem da Nairóbi e Tóquio – Empieza el matriarcado – agora dá lugar a um discurso militante que tenta abraçar todas as causas de maneira superficial e rasteira. Feminismo, homossexualidade, transsexualidade, violência de estado, violência sexual e tudo mais que couber na cartelinha dos assuntos progressistas. Seriam pautas interessantes, se fossem tratadas de um jeito mais coerente.

Na metade da quarta temporada, por exemplo, surge uma personagem trans. Muito bonito ver essa construção. Até você perceber que a Manila é interpretada por uma atriz cis. Será, realmente, que a Netflix não conseguiu encontrar uma única atriz trans pra esse papel? Pode até ser, mas eu acredito que foi comodismo mesmo de escolher Belen Cuesta, que já era conhecida por outra produção espanhola que fez sucesso na Netflix: Vis a Vis.

Ao escrever essa declaração de amor a La Casa de Papel, eu percebi que todas as críticas que tenho à série são, justamente, o que a faz ser tão querida por tantas pessoas. Uma série que pretende falar sobre tudo, mas não se aprofunda em nada. Um discurso forte que não se reflete na prática. Até mesmo os problemas de roteiro. Afinal, gostamos de ser enganados dentro da nossa burrice desde que a outra pessoa faça o mínimo de esforço pra soar inteligente. Nos poupa o trabalho de pensar um pouquinho mais. No fundo, La Casa de Papel é isso: completamente desnecessária, mas talvez não tão sem sentido.

PS: Eu poderia escrever um texto inteiro criticando o Gandia, mas prefiro citar Mano Brown: um passa fome metido a Charles Bronson.

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