Kóblic | Drama com Ricardo Darín mostra momento violento da ditadura argentina

Ambientado durante a ditadura militar argentina, Kóblic conta uma história dramática que flerta com o thriller e que, apesar de não ir tão longe quanto poderia, nos apresenta a personagens bem construídos que habitam um universo construído com cuidado. Como pano de fundo, a violência cruel e sem sentido do exército atuam como crítica social e como motor para a jornada percorrida pelo protagonista.

Vivido por Ricardo Darín, o personagem-título é um capitão da Marinha que tem a missão de pilotar os aviões de onde indivíduos considerados “indesejáveis” são jogados para sua morte. Até que certa vez, no meio de uma dessas tarefas, ele abandona a cabine e se recusa a continuar aquela insanidade. Kóblic, então, esconde-se em uma pequena cidade do interior, encontrando refúgio na fazenda de um velho amigo. Entretanto, não demora para que o delegado Velarde (Oscar Martínez) comece a desconfiar do misterioso novato e de sua crescente aproximação de Nancy (Inma Cuesta), companheira de um asqueroso comerciante local.

Os roteiristas Alejandro Ocon e (o também diretor) Sebastián Borensztein acertam em cheio ao não investir no melodrama e, assim, criam força e expectativa desde a excelente cena de abertura, que simplesmente traz Kóblic caminhando em direção à cabine de comando de um avião. Ainda não sabemos o que está prestes a acontecer, mas o semblante pesado do protagonista diz tudo. O talento de Darín, é claro, é fundamental para isso, e o experiente ator constrói o personagem-título como um homem atormentado por seu passado, mas que ainda tem a esperança e a força necessárias para seguir em frente por outros caminhos.

Da mesma forma, Inma Cuesta oferece uma bela performance como uma mulher fragilizada diante do companheiro abusivo e violento, mas que encontra em sua atração por Kóblic a força de que precisa para escapar daquilo. Mais uma vez, os cineastas acertam ao retratar a liberdade e a esperança que Nancy encontra em seu relacionamento com Kóblic sem torná-la uma donzela em perigo apenas aguardando a chegada do príncipe encantando, pois vemos Nancy tomando a iniciativa e participando ativamente da trama.

Fechando o trio principal, o Velarde de Oscar Martínez é um contraponto ao protagonista: enquanto Kóblic desertou assim que percebeu realmente a crueldade de suas ações, Velarde alimenta-se do poder e da autoridade, mesmo que logo percebamos que ele não passa de mais um pau-mandado dentro do exército ditador. Não é para menos que, se acompanhamos Kóblic cuidando de um cachorro ferido que se torna seu animal de estimação, mais tarde vemos Velarde atirando em um outro cão.

À medida em que o filme se aproxima do clímax, Ocon e Borensztein abandonam o ritmo cuidadoso em que haviam investido até então, passando a apresentar algumas reviravoltas e sequências que acontecem de forma acelerada e rasa demais para realmente nos envolvermos. Entretanto, felizmente, Kóblic recupera-se a tempo de encerrar a obra com um final interessante e melancólico.

Nos tempos conturbados em que vivemos, é particularmente positivo ver uma obra que fale abertamente sobre os absurdos advindos de ocasiões em que o poder sobe à cabeça de quem não deveria ter poder algum. Com seu importante retrato de uma época cruel da (recente) história latino-americana, Kóblic usa esse contexto para desenvolver um personagem complexo e para nos apresentar a um retrato da culpa, do arrependimento e de nossa vontade inerente de sempre continuar.


Kóblic (Argentina, 2016), escrito por Sebastián Borensztein e Alejandro Ocon, dirigido por Sebastián Borensztein, com Ricardo Darín, Inma Cuesta e Oscar Martínez.


Trailer – Koblic

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.