Juntos e misturados

Juntos e misturados (no original “Blended”) não é nada. Não é uma comédia, porque não faz rir. Não é um drama, porque não chega a emocionar. Tem algo de romance, tem algo de filme para família, tem algo de comédia pastelão americana, mas nunca “chega lá” em nenhuma característica. Ok, a não ser no preconceito, esse ele atinge em cheio, em todos os sentidos possíveis.

A “comédia romântica” Juntos e misturados é o novo filme estrelado pela dupla Adam Sandler e Drew Barrymore, que já trabalhou junta em Afinado no amor e Como se fosse a primeira vez. Aqui, Barrymore interpreta Lauren, uma organizadora de armários, mãe de dois meninos, divorciada de um homem pouco presente na criação dos filhos. Já Sandler vive Jim, um gerente de loja de esportes, viúvo, que cria três filhas sozinho. Ela não sabe como lidar com os filhos e suas “coisas de meninos”. Ele trata as filhas como garotos e não entende suas “coisas de meninas”. A equação básica da comédia romântica clichê – e baseada em estereótipos – está feita.

Mas é claro, as coisas não acontecem de maneira tão simples e perfeita. O filme inicia com um encontro às cegas entre Lauren e Jim, em que nada dá certo. Eles se encontram mais algumas vezes, por acaso, apenas para fortalecer a ideia de que não se dão bem. Em mais um acaso – há vários deles no filme – um amigo em comum cede uma semana de férias na África a ambos, sem que um saiba do outro. Resultado: as duas famílias se encontram de surpresa na entrada do hotel, na África, e têm de dividir o mesmo quarto. A partir daí, a convivência mostra a Lauren que Jim é tudo o que a família dela precisa, e Jim percebe que Lauren é a mãe que suas meninas necessitam. Porque não basta ser clichê, tem que ser meio machista também.

Apesar da previsibilidade, até aí a premissa quase parece bonitinha, quase lembra o filme-família Click (também com Sandler), quase dá para pensar em levar os filhos para assistir. Até que Lauren e Jim chegam à África e o preconceito chega a um novo nível. Agora o espectador é bombardeado com quilos e quilos de estereótipos raciais arriscadamente ofensivos. Logo na chegada do hotel, há um grupo de funcionários – todos negros – cantando músicas para celebrar o amor. Liderados por um Terry Crews afetado, vestindo roupas coloridas e mostrando os músculos a cada cinco minutos, o grupo pipoca em diversos momentos do filme para “instigar” as famílias a se unirem, se amarem, se entenderem e blá, blá, blá. E a vergonha alheia só aumenta.

A maior parte das piadas de Juntos e misturados se baseia justamente nos estereótipos raciais e de gênero, e elas não arrancam nenhuma risada do espectador. Nem mesmo um sorrisinho. Os momentos emocionantes têm potencial para funcionar, mas o clima ofensivo estabelecido durante toda a projeção não deixam que isso aconteça. É impossível esquecer que, para quem fez este filme, a África só tem negros cantando, as mulheres são sempre “mulherzinhas” e os homens só agem como “machos”. O fato de ser previsível passa a ser o menor dos problemas do filme.

O que torna o Juntos e misturados suportável é a química inegável de Drew Barrymore e Adam Sandler. Ela, que começa fraca no papel da “mulherzinha” Lauren, tem suas melhores cenas ao lado do intérprete de Jim, que faz um trabalho constantemente bom com seu personagem – ainda que seja uma repetição de praticamente todos os seus outros papeis. O casal tem momentos adoráveis e quase dá para torcer por eles durante o filme. Quase.

Juntos e misturados não chega lá em nada que se propõe. Com preconceitos no volume máximo, nada salva o filme de ser um desastre. Infelizmente, não chega a ser o tipo de filme ruim o suficiente a ponto de ser engraçado: dá mais vontade é de chorar com tamanha ignorância.


Blended” (EUA, 2014), escrito por Ivan Menchell e Clare Sera, dirigido por Frank Coraci, com Adam Sandler, Drew Barrymore, Kevin Nealon, Terry Crews, Emma Fuhrmann, Bella Thorne, Braxton Beckham, Alyvia Alyn Lind e Kyle Red Silverstein.


Trailer do filme “Juntos e Misturados” (Blended)