Judas e o Messias Negro | Verdadeiro, doloroso e obrigatório


Baseado em fatos reais, Judas e o Messias Negro tem, mais do que isso, ainda essa impressão de ela realmente saiu diretamente das páginas da Bíblia para tentar entender o mundo dos anos 60 nos Estados Unidos e ter o mesmo fim do pessoal do livro cristão.

A história escrita pelo próprio diretor e parceria com Will Berson é simples, e talvez seja essa simplicidade o que mais faz do filme uma experiência tão poderosa. Mostra a jornada desse ladrão de carros sem muita capacidade de ir além disso, mas que acaba sendo a pessoa que destrói um movimento inteiro de resistência na Chicago de 1968 que lutava contra o racismo e pela igualdade.

O filme logo de cara recria um pedaço da entrevista (também real) que mostra esse Bill O´Neal (Lakeith Stanfield) contando parte de sua história durante os anos 80. O´Neal acaba se tornando um informante do FBI infiltrado no Partido dos Panteras Negras, comandado regionalmente por Fred Hampton (Daniel Kaluuya), mas com intenções bem claras de unir as diversas forças da cidade sob uma mesma bandeira de igualdade contra o sistema opressor, racista e explorador.

Parece mesmo coisa tirada da Bíblia e o final você sabe onde irá chegar. Se o Judas original não estava infiltrado, apenas cedeu à tentação das moedas de outro, aqui você acompanha o caminho desse Judas, tanto pela possibilidade de se tornar alguém que ele sonha em ser, quanto enquanto luta pela encruzilha moral de ter que fugir da influência de Hampton. Uma encruzilha moral que espreme o personagem e cria uma tragédia anunciada de onde ele não consegue escapar. Judas ganhou 30 moedas de prata, O´Neal algumas centenas de dólares e um posto de gasolina no meio de lugar nenhum. Ambos destruíram a esperança e ambos não conseguiram lidar com a culpa.

O roteiro de Shaka King (diretor) e Will Berson é firme em todos esses elementos e não deixa nunca de entender o lado de O´Neal. Seu protagonismo é dolorido, já que o espectador não fica nem um segundo sequer sem julgá-lo. Suas ações vão sutilmente destruindo a vida das pessoas ligadas ao movimento de Hampton enquanto o próprio vai cada vez mais tendo seus esforços estraçalhados pelos verdadeiros vilões dessa história.

Na entrevista posterior O´Neal aponta isso, do quanto ele realmente lutou por alguma coisa. Uma meia verdade que talvez tenha o ajudado a viver com o peso da culpa. E por mais que as ações finais possam ter arranhado essa ideia, Hamptom talvez tenha morrido acreditando nisso, na ideia da união independente dos pecados e erros.

Judas e o Messias Negro não é sobre Hampton, mas é sua presenca gigantesca que parece puxar o filme para ele. Diferentemente do que a Academia achou (indicando os dois na mesma categoria de Melhor Ator Coadjuvante), Stanfield é o protagonista e Kaluuya (que venceu!), mesmo quase com o mesmo tempo de tela, é só o coadjuvante. Talvez “só” seja um exagero, já que sua figura é gigantesca, suas palavras são poderosas e seus objetivos beiram uma pureza tão impecável que é impossível não torcer por esse líder.

A direção de King sabe disso e nunca coloca os dois em lugares trocados, O´Neal pode ser o protagonista do filme, mas nunca chega nem perto disso em cenas enquanto Hampton está no mesmo ambiente que ele. A câmera de King procura sempre o líder dos Panteras Negras como se estivesse de frente a alguém tão grande dentro do movimento anti-racista americano como um Malcolm X ou Martin Luther King. A razão de ele não ter se tornado tão grande quantos os dois, não está no trabalho estético de King, mas sim na sua morte prematura. O que o diretor faz é tentar compensar essa vida curta criando para ele um filme impecável.

King não filma um longa desde 2013 e de lá para cá esteva na TV, mas a capacidade técnica e estética de seu trabalho em Judas e o Messias Negro é algo impressionante. Mesmo com pouco anos de experiência o cineasta parece montar suas cenas com um cuidado tão grande que em certos momentos é fácil imaginar um diretor com décadas de filmes nas costas. Existe ali uma simplicidade só possível diante de um controle de composições complexo e objetivo.

Os maiores cineastas demoram dezenas de filmes para entender o quanto uma dinâmica entre plano e contra-plano talvez seja o jeito mais eficiente de contar certas histórias, King parece descobrir isso em seu segundo filme. Não existem estripulias e grandes movimentos de câmera, apenas cenas certeiras que sabem a emoção que irá passar.

Ajuda também esse trabalho impecável de King a presença de sua “dupla de protagonistas”. Lakeith Stenfield luta o tempo inteiro entre a fragilidade desse cara que sabe o estrago que está fazendo e o quanto continua sendo oprimido pelo FBI, mesmo “do lado deles” enquanto aceita se tornar uma peça importante para a luta de Hampton. A dicotomia que Stanfield encontrar e o olhar com que abre o filme, na tal entrevista para o documentário nos anos 80, é de uma dor indescritível.

Do outro lado, Kaluuya é uma força da natureza. Mesmo pequeno de estatura, o ator faz seu Hampton tomar de assalto qualquer lugar onde entra e diminui qualquer um que chega perto dele. Parte raiva, parte um charme quase delicado, o personagem é uma daquelas construções tão impecáveis que faz ser difícil se despedir dela no final.

E o final todo mundo sabe, é ele o “Messias Negro” do filme e a câmera de King prefere deixar seus momentos derradeiros perdidos em uma profundidade de campo curta e focada no olhar de sua esposa, Deborah Johnson (Dominique Fishback, também ótima). Nem a câmera do diretor consegue olhar diretamente para esse final trágico.

A realidade de Judas e o Messias Negro é aquela realidade que vem antes do fim dos sonhos. O filme da Shaka King, assim com a história daquele outro messias, tem isso em comum. Ambas também têm em comum a ideia de que parece mesmo que ninguém aprendeu nada com nenhuma delas.


“Judas and the Black Messiah” (EUA, 2021); escrito por Will Berson, Shaka King, Kenneth Lucas e Keith Lucas; dirigido por Shaka King; com Daniel Kaluuya, Lakeith Stanfield, Jesse Plemons, Dominique Fishback e Martin Sheen


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