Jogos Vorazes | Pomposo demais para pouca história


É impossível não desconfiar que Jogos Vorazes chegue aos cinemas na esteira do sucesso da Saga Crepúsculo, afinal, os dois são trilogias juvenis com uma heroína jovem no centro, entretanto (por sorte), essas são as únicas semelhanças entre o Best seller de Suzanne Collins e os vampiros de Forks. Na verdade, Collins, vai beber em outra fonte, e longe disso ser um problema, já que, no que se propõe Jogos Vorazes até que nem faz tão feio assim.

À primeira vista, Jogos Vorazes é essa mistura da ideia do cult japonês Battle Royale com o divertido O Sobrevivente (a produção estrelada por Schwarzenegger e não o livro de Stephen King/Richard Bachman no qual o filme se “inspira”). Do segundo ele pega esse futuro onde os ricos são muito ricos e coloridos, enquanto os pobres servem como combustível para esse programa de TV onde somente um participante precisa sobreviver, do primeiro, ele coloca esse monte de jovens para se confrontar até que sobre apenas um.

Mas Jogos Vorazes sobrevive por fazer todas essas “homenagens”, mas com a preocupação de colocá-las dentro de um contexto próprio, esse país, Panem, controlado pela mão-de-ferro desse Presidente Snow (Donald Sutherland no automático), mas que, para lembrar todos de uma suposto revolução que ocorreu em algum lugar do passado, cria esses Jogos Vorazes, um campeonato anual em que cada distrito desse país cede um casal de jovens para “suprir” toda essa necessidade de violência, já que dos 24 jovens que entram nessa arena, apenas um deve sair vivo.

O filme então foca nessa jovem, Katniss Everdeem (Jennifer Lawrence), que acaba se oferecendo para o evento no lugar da irmã menor e acaba se tornando a mais valiosa nas bolsas de apostas, ainda que isso só crie um filme simpático com ela, já que todo resto parece antipático e sem ritmo.

Demorando demais para chegar ao ponto principal do filme, os tais Jogos, o espectador vai então em direção a uma enrolação pouco interessante, que parece não se preocupar em desenvolver absolutamente nada a não ser essa personagem forte, turrona até, que precisa se adaptar a esse jogo para poder sobreviver, mesmo que em grande parte do tempo ela só seja essa personificação da revolta que acaba conquistando todos que adoram um anti-herói. Talvez fosse interessante conhecer um pouco mais do protagonista, Peeta Mallark (Josh Hutcherson, de Minhas Mães e meu Pai), o que permitiria que o espectador acompanhasse com mais interesse uma pequena reviravolta do personagem no começo dos Jogos (o que não deixa então que ninguém se surpreenda com isso, e até aceite), mas a impressão é mesmo de um egoísmo em relação a ela.

E assim como não se aprofunda nesse Peeta, que pode estar fazendo o melhor para seu jogo, ou sendo sincero, ou mentido (dúvidas demais!), é pior ainda ver personagens como o do mentor dos dois, vivido por Woody Harrelson, ser apresentado como um decadente ex-vencedor dos Jogos Vorazes, mas que em pouco tempo se mostrar uma figura completamente dedicada aos dois, um erro que prejudica todo resto da relação dos personagens com ele. Assim como se esquece completamente de desenvolver a relação dessa espécie de estilista particular da dupla de jovens (vivido pelo cantor Lenny Kravitz) até que Katniss, ao se despedir dele, parece o fazer de um amigo íntimo e importante, mesmo que só tenha divido um par de cenas com ele.

Mas então o que acontece nessa grande parte de Jogos Vorazes antes dos jogos se iniciarem? Simples, nada de muito importante, já que, é verdade, o espectador saberá que os jogos estão lá, que ainda existem esses patrocinadores de cada competidor, e até esse narrador irritante de cabelo azul vivido por Staley Tucci, mas não vai fazer a mínima ideia das razões de um dos Distritos se revoltar quando Katniss aponta um símbolo com os dedos em direção a uma das câmeras, nem onde fica Panem, em que ano a história pode se passar e como tudo aquilo aconteceu, ainda que tudo isso não parece ser um mistério ou uma reviravolta para os filmes vindouros, mas sim algo corriqueiro, que só não consegue ser colocado dentro do roteiro escrito pelo próprio diretor Gary Ross em parceria com a própria autora Suzanne Collins e Billy Ray.

E essa falta de profundidade não deixa que Jogos Vorazes seja nada a não ser um filme sobre essa jovem que precisa sobreviver, já que não existe uma única crítica social ou vontade de revolucionar nada ao seu redor, já que sua única motivação é voltar para sua casa para cuidar da irmã, o que torna o grande vilão Presidente Snow uma figura imbecilizada que acaba combatendo um antagonista que está pouco se lixando de sua existência. Talvez tudo isso seja a preparação para uma história muito maior, mas ainda assim, o início dessa trilogia talvez merecesse então tentar fisgar não só os fãs do livro, mas sim o espectador normal, que acaba perdido em um contexto que não parece ser importante para o filme de Gary Ross.

Entretanto, Jogos Vorazes acaba funcionando já que a história é interessante demais para irritar (ainda que seus pontos positivos sejam exatamente aqueles extraídos dos filmes citados no começo do texto), mas, ainda assim, principalmente a direção de Gary Ross, acaba deixando a impressão de que tudo poderia ser bem melhor. Ross (que dirigiu o drama eqüino Seabiscuit), pesado e sem objetividade estética, alterna uma câmera mexida e grudada em seus atores (e que ainda deixa as lutas tremendamente embaralhadas), com grandes planos com menos personalidade ainda e que só mostram o quanto os efeitos especiais de Jogos Vorazes são ruins, com cenários digitalmente horrorosos e uma impressão de que tudo, principalmente quando chegam à tal Capital, foi feito, preguiçosamente, em frente a uma tela verde (já se foi o tempo em que o cinema se permite essa sensação).

Ross ainda não consegue ter a sensibilidade de permitir que Jogos Vorazes tenha a violência e a visceralidade que lhe seria permitido, tanto pela história quanto pelas possibilidades e então, não permite nem que o alce seja morto em uma caçada no começo do filme (que é substituído por pássaro azarado qualquer), muito menos que uma sequência tremendamente violenta, como no começo dos Jogos, possam ter o peso necessário. Felizmente, a trilha sonora de T-Bone Burnett e James Newton Howard (dois veteranos de Hollywood) têm a sensibilidade de suprimir a música tanto no início dos Jogos quanto na escolhas dos participantes, o que dá a força necessária para que as cenas acabem funcionando, mesmo que sem o apuro estético que ambas mereceriam.

Jogos Vorazes então acaba sendo pomposo demais para pouca história, o que permite que o público fique curioso com o andamento dessa história em um segundo filme, e só faz com que o espectador torça para que ele continue sem semelhanças com a “Saga Crepúsculo” e qualquer tipo de triângulo amoroso bobo que mova essa história (por mais que isso pareça impensável de acontecer, dado o andamento da trama), ao invés de explorar todo esse contexto político que essa história mereceria ter. Tomara.


“Hunger Games” (EUA, 2012) escrito por Gary Ross, Suzanne Collins e Billy Ray , a partir do livro de Suzanne Collins, dirigido por Gary Ross, com Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Stanley Tucci, Wes Bentley, Woody Harrelson, Donald Sutherland, Elizabeth Banks e Lenny Kravitz.