Jogo de Poder

por Vinicius Carlos Vieira em 01 de Abril de 2011

Não é exagero dizer que, alguns anos atrás o diretor Doug Liman mudou o jeito de se olhar para os thrillers de espionagem, seus espiões e agentes secretos, seu A Identidade Bourne reverberou até na mais clássica das franquias do gênero e mesmo o novo James Bond teve que se curvar a isso. É verdade também que, depois disso, Liman deu duas bolas fora com o fraco Sr e Sra Smith (que só ficou famoso pelo romance entre os protagonistas na vida real) e com o desajeitado Jumper, por isso mesmo que Jogo de Poder acaba sendo um ponto importante para mostrar o que se poderá esperar desse diretor.

O interessante disso, é que esse seu novo filme parece, justamente, destoar tanto dessa sua faceta cheia de adrenalina quanto de sua anterior, onde dirigiu as duas interessantes comédias Swingers – Curtindo a Noite e Vamos Nessa (duas boas dicas para uma passada nas locadoras). Jogo de Poder é, por definição, um thriller, com pitadas de espionagem e até políticas, mas exala um certo drama familiar que acerta em cheio quem for ao cinema à procura de algo minimamente diferente e corajoso, principalmente levando-se em conta o tema.

Nele, Naomi Watts é uma agente da CIA e Sean Penn é seu marido, um ex-embaixador que vive de pequenos trabalhos e consultorias, até que, em um desses momentos, acaba fazendo um serviço para a própria CIA em busca de evidências de uma grande venda de componentes radioativos de um país africano para o Iraque, o que, nas entrelinhas, serviria de estopim para a invasão no país. O problema é que, como todo mundo sabe, nada foi encontrado, nem provado e mesmo assim o governo foi em frente com seu planejamento.

A história então transcorre daí até o momento em que, diante de uma matéria escrita por ele sobre os erros do governo, o nome dela é exposto e a vida dos dois vai por água abaixo, tendo que enfrentar não só as acusações contra ambos, como a opinião pública e popular que resolve ir na mesma via.

É através dessa história real que Liman e o roteiro de Jaz e John-Henry Butterworth, maquilam esse discurso pertinente sobre um assunto que, mesmo com quase uma década tendo se passado, ainda parece fresco e vivo. Sem tomar nenhum cuidado excessivo, Jogo de Poder pinta esse retrato pouco simpático do EUA e coloca o dedo na ferida de um governo que preferiu criar suas próprias verdades a aceitar as reais.

Mas talvez, esse caráter necessário do filme tenha prejudicado um pouco o real esforço de Liman em criar um filme mais interessante, e até um pouco mais contundente, que se aproximasse mais do esporro moral que o personagem de Sean Penn aplica em uma jornalista dentro de um restaurante em certo momento do filme, e menos o caminho “chapa branca” e limpinho com que ele parece preferir tomar.

Ainda que seja óbvio que isso só se dê pelo cuidado com que ele tem em relação, principalmente, à personagem de Watts, que acaba diante de sentimentos totalmente opostos (já que se vê sendo traída pelo país que sempre serviu mais do que tudo na vida), não perde o foco de que, caso tomasse mais o lado do marido (mais espalhafatoso, digamos assim) ele poderia enterrar sua personagem em uma omissão que a deixaria simplista e sem graça.

Por outro lado, Liman se descobre tremendamente confortável quando coloca frente a frente, não só esses dois personagens (que, para variar dão um show a parte, sutis e sem um pingo de necessidade de se sobressaírem entre eles, o que ajuda muito nas atuações alheias), mas todos à sua volta, como se criasse armadilhas narrativas que ficassem a espera desses momentos em que o casal se deixa escapar dessa espécie de disfarce que precisam manter. São exatamente nesses momentos que Jogo de Poder acaba mostrando que, por mais que seja sobre essa família, é também sobre um exorcismo que os Estados Unidos já parecem mais que prontos a receberem.

E se durante um jantar com amigos o personagem de Penn é incisivo o suficiente para que, por um lado isso possa até parecer uma espécie de antiamericanismo de sua parte (não é a toa que, momentos antes, ele é pego pela câmera de Liman sob um monumento de homenagem a agente mortos da CIA, e faz ser impossível não perceber uma certa ironia), é por que , sem dúvidas, ele não está ali para defender nada a não ser a verdade, seja ela vinda de onde for. O que, talvez, seja o que Jogo de Poder mais tente fazer: mostrar que nada deveria ser mais importante que a verdade.

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Fair Game (EUA/ EAU, 2010), escrito por Jez Butterworth e John-Henry Butterworth, a partir dos livros de Joseph Wilson e Valerie Plame, dirigido por Doug Liman, com Naomi Watts, Michael Kelly, Sean Penn, Noah Emmerich e David Andrews.

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1 Comment

  1. Eu gostei muito deste filme. E realmente as atuações de ambos atores, como sempre, estão ótimas!
    Triste mesmo é saber q é baseado em fatos reais e que esse absurdo realmente ocorreu com uma pessoa de verdade…

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