IO | Sensível e interessante… mas só bem no finalzinho


Talvez a gente tenha uma condescendência maior com grandes esforços. IO não é um bom filme, tem vários problemas que devem afastar o espectador logo de cara, e como é um lançamento da Netflix, muita gente acabe nem chegando ao seu final. Mas acredite, tem algo de muito interessante ali.

Muito provavelmente essa impressão venha, justamente, no finalzinho de tudo. Não porque qualquer peça se encaixe ou mistério se revele, mas sim, simplesmente, porque o longa de estreia de Jonathan Helpert é honesto consigo mesmo.

No filme, Margarett Qualley (da ótima série The Leftovers) é Sam, uma jovem que é uma das poucas pessoas que ficaram no Planeta Terra depois que uma catástrofe ambiental fez com que toda humanidade fosse embora para uma Colônia perto de uma lua de Júpiter (que batiza o filme). Sam é filha de um cientista que ficou para trás com sua família para provar que ainda seria possível viver por aqui.

Entre uma ida à “cidade contaminada” e outra, Sam recebe a visita Micah (Anthony Mackie), um outro sobrevivente que está em busca do pai dela, mas que, diante do anuncio do último foguete que deixará o Planeta, se torna seu companheiro nessa jornada.

Na verdade, essa “jornada” não acontece realmente, IO fica muito mais no terreno do questionamento existencial e moral, do que da ação. É ai que entra a honestidade. Escrito por três não muito experientes roteiristas, Clay Jeter, Charles Spano e Will Basanta, o filme tem claramente um interessante final no qual quer chegar, mais precisamente ainda, talvez até uma ótima frase que o fecha, mas chegar lá se torna um problema.

Primeiro, pois criar uma expectativa muito grande ao começar o filme com essa exploração desse mundo esquecido, com direito até a cena de suspense com oxigênio acabando. IO não é esse filme movido por um clímax. Depois disso, por fingir um mistério em volta do pai de Sam que não se concretiza e é resolvido sem muita surpresa. Por fim, por se permitir discutir pouco a grande questão que permeia o final e deveria rodear o filme.

IO não é a respeito de sobreviver, mas sim sobre viver. Sam não quer simplesmente esquecer tudo aquilo que não conheceu, sejam as ondas do mar ou uma obra de arte, somente porque é preciso deixar para trás tudo aquilo que sempre acreditou ser uma razão para ela permanecer viva e lutando por esse planeta. Sam quer ser ela mesma, ainda que isso signifique um possível fim.

Mas infelizmente, toda essa discussão acontece somente muito perto do final do terceiro ato de um filme que, no resto do tempo, é uma enrolação enorme. IO é chato, não sai do lugar, seus personagens tem diálogos preguiçosos e conclusões bobinhas. Até o romance que se forma entre eles é meio tirado de qualquer lugar, simplesmente para que ambos ocupem “corações rachados”. E se isso parece brega escrito, no meio da história é pior ainda.

O outro ponto importante de IO é seu obvio orçamento pequeno. Do mesmo jeito que isso poderia resultar em um filme quase confinado em um ambiente, onde essas questões profundas fossem colocadas em pauta, o caminho contrário, a exposição do mundo ao redor, acaba permitindo que tudo tenha uma cara de produção pobrinha. E em um filme onde é necessário embarcar no mundo dessa personagem, qualquer distração é um veneno para o espectador.

Mas também, mesmo com isso, IO nunca se esforça para estar perto dessa protagonista, pelo menos não o suficiente para você prever ou entender o que acontece no final. Na maioria do tempo ela parece até letárgica diante das decisões, para só então ter esse estouro de consciência que só será admirado por quem conseguir ficar acordado até o final.

IO então não é ruim, só não consegue entender que a parte que o faz ser interessante está muito no final, e para chegar lá, o espectador precisa querer fazê-lo. Mas acredite, quem chegar irá encontrar um final sensível e interessante.


“IO” (EUA, 2019), escrito por Clay JeterWill Basanta e Charle Spano, dirigido por Jonathan Helpert, com Margaret Qualley, Athont Mackie e Danny Huston


Trailer do Filme – IO