Invasão a Londres | Sequência aposta em tiros e explosões… e só.

Um do grande paradigmas de Hollywood sempre disse respeito a quantidade de roteiristas: quanto mais mãos envolvidas em um texto, mais chances de você não entender como tinham tantas pessoas escrevendo aquilo. Ok… isso não é um paradigma, mas muita gente acha isso, e sequencias como esse Invasão a Londres são exemplos perfeitos de que na maioria das vezes isso é a mais pura verdade.

Tudo bem, em alguns casos é obrigatório levar em conta que é um filme de ação que não tem pretensão nenhuma de ser mais do que esquecível (e consegue!), mas ainda assim é cansativo demais se ver repetir uma quantidade enorme de erros que já se enraizaram no gênero. O problema não é não existir nada de novo ou surpreendente, mas sim não existir nada de interessante.

E aqui pode-se abrir um parenteses para salvar o trabalho do diretor iraniano Babak Najafi, que se comporta bem por trás das câmeras, escolhe planos abertos para valorizar suas sequencias de ação (indo contra a maré dos diretores de ação que não te deixam entender o que está acontecendo) e até se esforça esteticamente em duas sequências sem cortes e com cara de jogos de videogame. Melhor ainda, Najafi lida até bem demais com um roteiro que teima em explodir coisas que não fazem sentido (e nesse caso, os planos abertos funcionam melhor ainda).

As “coisas explodindo”, são justamente meia dúzia de ponto turísticos de Londres, onde a ação se dá. Nela, após a morte do primeiro ministro, todos líderes mundiais partem para a capital inglesa, mas caem na armadilha de um terrorista comerciante de armas. Resumidamente, como é fácil de imaginar, todo mundo é explodido e executado, a não ser um certo morador da Casa Branca e seu fiel chefe de segurança (Aaron Eckhart e Gerard Butler, respectivamente).

Mesma dupla que sobreviveu de uma ataque em Washington alguns anos atrás em Invasão à Casa Branca (não confunda com Jamie Foxx e Channing Tatum em O Ataque, que é bem mais divertido). Mas também isso não importa, já que o primeiro filme é simplesmente ignorado. Não existe referência e nem nada desenvolvido no original é usado, tudo começa da estaca zero, todos personagens são reapresentados e todas motivações são renovadas. Muito provavelmente, porque você deve ter esquecido dele assim como vai esquecer desse (ou até achava que o primeiro era o filme do Jamie Foxx).

De qualquer jeito, o que isso faz é arrastar demais um primeiro momento de filme, já que precisa posicionar tudo de novo, desde os vilões, em uma sequência com um drone até a família do personagem de Butler. E não se preocupe, se você chegar atrasado no cinema não vai perder muito coisa, já que tanto o filho do protagonista, como o currículo do vilão ainda serão repetidos a exaustão por um punhado de personagens.

Mas tudo isso ainda piora, já que Invasão a Londres se perde completamente em um mar de esteriótipos razos. Um problema que vai desde o vilão (genérico) até o protagonista (um pouco mais genérico ainda!). Na verdade, uma “generalização” niilista que é a cara dos Estados Unidos. O terrorista é um monstro, ainda que seja movido pela vingança da filha assassinada pelo governo dos Estados Unidos (curiosamente sendo de lá o único líder que sobrevive), e em sua volta surge uma batalhão de capangas com metralhadoras com uma quantidade digna de um filme do Chuck Norris.

Por outro lado é risível o quanto o roteiro coloca todos principais líderes do mundo ocidental diante de esquemas de segurança peculiares. Um deles está lá, sozinho em uma limosine apenas com seu motorista; o outro exala charme para sua esposa do alto da Abadia de Westminster sem absolutamente ninguém à sua volta; já o francês, bom ele está lá sentado em seu barquinho relaxando e nem um monte de explosões o tiram de seu sussego; já o espectador, bom, se não dormir diante disso tudo…

E para piorar tudo, Butler é simplesmente o retrato de um filme sem alma, sem interesse. Sem aprender com o mestre do gênero, Duro de Matar, em Invasão a Londres, seu protagonista é infalível, frio e não erra sequem um tiro. A impressão que fica é de um personagem tão “imortal” que é impossível torcer por ele, já que ele simplesmente não corre perigo e praticamente nem suja sua camisa. Em certo momento seu grande plano chega a ser fugir em direção a uma bola de fogo e cair uns quatro andares, somente para poder depois disso soltar uns gemidos, ficar em pé e apostar em alguma piadela.

Como se cada um dos quatro roteirista quisesse impor “seu momento” tudo na mesma sequencia. Mas também como se nenhum desses tivesse a capacidade de examinar todo esse desastre e perceber o quanto tudo não faz o menor sentido. Ou simplesmente mais um daqueles exemplos que mostram o quanto muitas vezes esse papo de “quanto mais pior” seja realmente verdade.


“London Has Fallen” (EUA, 2016), escrito por Chad St. John, Christian Gudegast, Katrin Benedikt e Creighton Rothenberger, dirigido por Babak Najafi, com Alon Aboutboul, Gerard Butler, Aaron Eckhart, Radha Mitchell, Angela Basset, Melissa Leo, Jackie Earle Haley e Morgan Freeman


Trailer – Invasão a Londre

https://www.youtube.com/watch?v=384Vqa9xhdY