Incontrolável

Talvez se alguém perguntar a algum cineasta qual é o melhor jeito de pegar uma trama pobre e óbvia e transformar em um blockbuster de ação, ele muito provavelmente responda que é só ler a cartilha que Tony Scott vem escrevendo há anos. Se o próprio tiver que responder a mesma pergunta, talvez até fique em silêncio, mesmo que, provavelmente, pense na mesma resposta do cineasta.

Scott vem então a cada filme seu fazendo mais do mesmo, rodando sua câmera ao redor dos personagens, fechando seus planos com zooms histéricos, deixando uma música melodramática estourar os alto-falantes do cinema a cada sequencia de ação e, no fim de tudo isso, divertindo todos que vão ao cinema atrás de seu nome. Incontrolável se mantém firme nessa fórmula e não decepciona.

Logo de cara, é óbvio que Scott faz tudo isso graças a um ótimo olho para suas escolhas. Levar para a tela a história de um trem desgovernado, carregado de componentes tóxicos, que vai a toda velocidade na direção de um monte de cidades povoadas já é dramático, ainda mais quando uma outra locomotiva, com dois caras normais que se tornam heróis, parte para ser a última esperança de todos. No resto do tempo, o que o cineasta faz é rodear tudo isso com o maior número de desastres iminentes possíveis, nem que tudo beire a falta de sentido.

A partir do momento que aquele trem vermelho e imponente roda naqueles trilhos, o que o roteiro de Mark Bomback (mesmo que escreveu Duro de Matar 4.0) faz é jogar um monte de coisas sobre esses trilhos, ora para serem atropeladas e dizimadas, ora para saírem de sua direção no último segundo. É claro que um vagão cheio de criancinhas e um cavalo, assim como os dois protagonistas, vão sair ilesos, do mesmo modo que todo resto vira pó. O que todo mise en scene histérico de Scott se encarrega é de levar seu espectador a acreditar que tudo isso talvez seja diferente, afundando-os totalmente em suas poltronas com a tensão de toda situação, ainda que completamente inevitável.

No resto do tempo, Scott até tenta ocupar (em vão) a heróica locomotiva azul com dois maquinistas cheios de problemas familiares para serem discutidos e a velha dinâmica do novato, no primeiro dia de trabalho (Chris Pine, sem saber muito o que fazer no papel) com o experiente funcionário no fim de carreira (Denzel Washington, em sua quinta parceria com Scott e repetindo o papel de cara comum que salva o dia de Assalto ao Metrô 123), tudo para dar a liga a toda situação, mas nada de muito drástico.

Mas todo e qualquer defeito narrativo é completamente esquecido e mascarado pelo ritmo frenético do diretor, ainda que o visual estourado de suas produções anteriores dê lugar a algo muito mais contido (talvez pela objetividade do texto e da trama), com o único objetivo de ocupar a mente de seus espectadores com essa explosão visual e esse ritmo acelerado, que fazem até com que uma simples conversa entre dois personagens se torne uma sequencia de ação. Que faz ser impossível sair do cinema com a impressão de não ter conseguido o que queria quando entrou na sala: um enorme trem desgovernado, alguns heróis para salvar o dia e muita ação que esvaziará os pacotes de pipoca.

Assista o Trailer do Filme Incontrolável.


Unstoppable (EUA, 2010), escrito por Mark Bomback, dirigido por Tony Scott, com Denzel Washington, Chris Pine, Rosario Dawson, Kevin Dunn e Kevin Corrigan


3 Comments

  1. Nossa, com essa crítica eu discordo totalmente!
    Achei o filme fraquíssimo e chato demais… Parecia uma sequência de “Velocidade Máxima” a 1ª no ônibus, a 2ª no navio e essa no trem… Péssimo!

  2. Pra mim, “Incontrolável” é quase um “remaker” de um filme que assisti há muito tempo atrás, mas que infelizmente não lembro o nome, nem consegui pesquisá-lo na net.
    Caso alguém souber que filme é esse, fico agradecido por informar.

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