Host – Cuidado com quem Chama | #014 | 666 Filmes de Terror


Talvez poucos filmes representem tanto o ano de 2020 quanto Host. Em plena pandemia de Covid-19 o cineasta Rob Savage resolveu fazer uma brincadeira em suas redes sociais, convidando seus seguidores a acompanharem ele em uma investigação em seu sótão para entender alguns barulhos misteriosos. No final das contas o que tinha era um susto que fez todos pularem de suas cadeiras enquanto estavam entediados com seus dias de lockdown.

Foi a partir dessa ideia que Savage pensou que poderia estender a tensão e criar um filme com a essa estética “cada um em sua casa”, apenas através das telas dos computadores dos personagens. A ideia de um filme nesse formato não é dele, em 2014 Amizade Desfeita já tinha até apostado no terror para fazer algo semelhante. Mas o timming de Host é perfeito.

O filme foi bancado pelo serviço de streaming especializado em terror, Shudder, mas logo viralizou e foi parar nos quatro cantos da internet (além de, com certeza, ter ajudado o Shudder). Era o filme certo para o ano certo, aquele ano que vai ser lembrado pelas reuniões online, máscaras e cumprimentos com o cotovelo. Tudo isso está em Host, além de um monte de sustos, bastante mesmo, quantidade suficiente para nenhum fã do gênero reclamar.

A premissa é uma daquelas bobagens deliciosas que o amantes de terror adoram, um grupo de amigas que decide fazer uma sessão espírita através de uma reunião do Zoom, com direito a vela acesa e até uma médium. O problema é que em um momento uma delas faz uma brincadeira e abre espaço para a presença de um daqueles espíritos/demônios que o gênero adora, meio genérico, meio sem explicação, mais cheio de vontade de matar geral, abrir umas portas e ainda arrastar um pessoal por ai.

Savage não vai em nenhum lugar que alguém já não tenha ido, só faz isso ser novo, já que é através da tela estática da reunião, seja em um computador ou em um celular de uma das amigas. O primeiro acerto na mosca do diretor é conseguir criar essas composições onde as costas das personagens estão sempre livres para as aparições e sustos, nada de novo, mas que com certeza continua a funcionar, ainda mais em uma situação de vulnerabilidade em que, absolutamente todos espectadores passaram em 2020.

É fácil imaginar a quantidade de gente que olhou por sobre o ombro enquanto assistia Host na tela do computador e aumentou ainda os efeitos do trabalho de Savage. Parte dessa responsabilidade ainda pode, definitivamente, ser dividida entre a precisão do trabalho de montagem de Brenna Rangott e a entrega do elenco.

Rangott precisou modelar essas telas separadas em um filme conciso e ainda conseguir dar ritmo na troca de tela de um jeito que mantivesse a tensão e ainda usasse as próprias personagens como projeções dos sentimentos dos espectadores. O trabalho é tremendamente eficiente, mesmo que os sustos sejam óbvios. Algumas boas ideias e outros cortes bem feitos criam o clima necessário para Host ser tudo aquilo que pretende.

Já o esforço das atrizes completa essa experiência. É só levar em conta que grande parte dos momentos de tensão do filme são carregados através apenas da reação delas “a algo”, que você vai perceber o importante papel delas no competente resultado final do filme.

Savage ainda vai mais longe do que se poderia esperar, principalmente por estarmos falando de um filme inteiro feito dentro de um lockdown no Reino Unido. Do meio para frente, Host mergulha em um terror prático, cheio de aparições e até uma quantidade interessante de gore, tudo em uma velocidade que começa a acelerar até culminar em um uma sensação de incômodo real e perturbadora. Em parte, lógico, pela proximidade da tela, mas na maioria do tempo pela ideia suburbana de estarmos de frente com uma casa comum e com pessoas comuns, que é um pouco do que, por exemplo, fez de Atividade Paranormal um sucesso tão grande.

Host tem apenas 57 minutos de duração, afinal o Zoom não comporta reuniões de mais de uma hora, mas aquele medinho primitivo de andar no escuro pela sua casa, sozinho, somente com a luz da tela do computador, com certeza isso vai durar mais que 60 minutos.


“Host” (UK, 2020); escrito por Rob Savage, Gemma Hurley e Jed Shepherd; dirigido por Rob Savage; com Haley Bishop. Jemma Moore, Emma Louise Webb, Radina Drandova, Caroline Ward, Edward Linard e Seylan Baxter


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