História de um Casamento | Impossível ignorar


Não existe nada mais emocionante e empolgante do que a verdade. O mundo real não precisa de subterfúgios para ser perfeito. História de um Casamento, novo filme de Noah Baumbach é verdadeiro até a última gota de lágrima.

É preciso cinco minutos de filme para você estar apaixonado pelos dois protagonistas, vividos por Scarlett Johansson e Adam Driver, o que vem depois não te afasta disso, mas sempre te faz pensar no quanto esse amor está sendo colocado em prova. História de um Casamento nunca é sobre o casamento, mas sim sobre o que fica para trás quando ele acaba. E o que fica para trás são esses cinco minutos apaixonantes.

Principalmente, pois não existe um lado certo, mas sim dois lados. Não existem vilões e nem mocinhos, muito menos um protagonista, somente uma história realista o suficiente para não te largar por um bom tempo depois de seu final. Não por qualquer tipo de questionamento, mas sim porque você irá pensar um pouco na sua vida.

O casal de protagonistas é igual a milhares de casais, seus problemas, agonias e dúvidas também. O filho no meio desse conflito é igual a outros milhões de filhos que se pegam no meio de uma separação. Assim como os advogados canalhas também podem ser encontrados em diversos fóruns pelo mundo. Nada te arranca daquela verdade, e isso é de cortar o coração.

Diferentemente, por exemplo, de Francis Ha, onde Baumbach se permite ter essa figura alegórica e excêntrica para descolar o espectador daquela realidade, em História de um Casamento, o que você tem é apenas aquilo que existe do lado de cá da tela.

Mas Baumbach não deixa seu filme ser real sem poder fazer ele soar real. A montagem frenética dos primeiros momentos do filme cria esse ritmo de paixão, mas quando o assunto é amor, tudo fica mais lento, contemplativo. A esposa conta seu lado da história andando de um lado para o outro, sem corte, quase fugindo da câmera, não por vergonha, mas por não estar confortável com o que sente. Como se não quisesse entender suas razões e enxergasse os problemas e defeitos daquela pessoa que tanto ama.

Mas História de um Casamento não abraça ela como protagonista, pelo contrário, ao não refletir esses momentos, apenas deixa que os lados se comportem como únicos. Não são mentiras contra verdades, mas sim verdades que se completam.

Por mais que a protagonista dê o primeiro passo para o fim da relação, é ele quem provoca tudo isso, são suas ações amontoadas que espremem ela diante do peso egoísta de uma vida desequilibrada. Mas ao olhá-lo sem reações diante do futuro previsível, tudo vira resistência, e quanto mais ele tenta se adaptar a essa nova realidade, mais fundo ele cai nesse poço onde sua verdade é testada.

É lógico que Baumbach enxerga o personagem de Adam Driver como a principal vítima da situação, mas faz isso sem tirar da equação a ideia disso ser quase como um karma diante de suas ações, e nunca por colocar sua ex-mulher como alguém prontificada a prejudicar, mas sim com uma caminhada para ela ser ela mesma. Não mais uma atriz à sombra de seu diretor, alguém com voz, uma estrela que decide o melhor jeito de carregar seu bebê de CGI. E isso pode parecer um detalhe bobo, mas leve em conta a mão pesada com que ela era dirigida por seu ex-marido, tanto dentro quanto fora dos palcos.

História de um Casamento pode ser sobre a liberdade dela, pela culpa dele ou, simplesmente, sobre o quanto ambos tentam construir uma nova vida para que o filho não seja a vítima de todo esse fim de relacionamento. Até porque, Baumbach nunca lida com um “fim de relacionamento”, mas sim como uma transformação. Uma mudança, não um término.

E isso é real, cru e racional. Talvez racional o suficiente para se tornar cruel, já que é impossível não ver História de um Casamento sem terminar o filme afetado por seus sentimentos, emoções e verdades.

Essa mudança se dá literalmente enquanto Baumbach controla uma chocante sequência onde os dois protagonistas se confrontam, com uma câmera que vai ficando cada vez mais perto, fechada e tentando entender a raiva dos dois. Sem o corte pela interrupção, mas sim pela construção desse momento único. É lógico que Baumbach só faz isso por saber o material humano que tem em mãos.

Johansson aproveita cada momento possível para criar essa personagem que surge hesitante, mas a cada passo chega mais perto da força que lhe é concedida por suas novas opções. Grande parte dessa força vem do envolvimento com sua advogada extravagante vivida por Laura Dern, que rouba qualquer cena onde participa. Não só pela verborragia, como também (mais uma vez no filme!), pela veracidade com a qual ela é enxergada. Não estamos falando de uma personagem imparcial, mas sim de uma advogada com o único objetivo de proteger sua cliente.

Do outro lado, Driver é esmagado pela própria mágoa, mas nunca pela culpa, o importante é garantir o futuro, nunca discutir o passado. Sua luta por entender seus sentimentos culmina com uma explosão de violência onde seu medo se mistura com a raiva de não entender o que deve ser feito. Seu personagem está perdido entre sentimentos e vontades. Quando ele aponta “estar cansado” para o filho, mesmo sangrando e quase desmaiando, é isso que ele está sentindo realmente: esgotamento.

Para completar o elenco, Ray Liotta surge como o advogado dele e completa esse lado nojento que permeia o fim da relação. Entre os personagens de Liotta e Dern, não existe o amor para conter a violência das palavras e as acusações, tudo é ferocidade e gana. Os limites ficam para trás, tudo é possível quando o objetivo é defender sua parte. E quando isso chega ao ápice, quem ganha é o espectador, vislumbrando o trabalho incrível desses dois gênios do cinema.

Baumbach sabe muito bem disso, deixa os quatro atores livres para trabalhos gigantescos e que deveriam ser lembrados em toda e qualquer premiação do cinema. Assim como o diretor também deveria sem recompensado com algumas indicações, já que não é todo mundo que consegue fazer um filme tão real, verdadeiro, emocionante e sensível. Um filme humano sobre seres humanos.


“Marriage Story” (EUA, 2019), escrito e dirigido por Noah Baumbach, com Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Ray Liotta, Julie Hagerty e Merritt Wever.


Trailer do Filme – História de Um Casamento

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