Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | Não emociona, mas fecha com chave de ouro


Falar do impacto cultural que a saga de Harry Potter causou no mundo talvez já nem seja mais algo a ser discutido (ou colocado à prova), tampouco o cuidado com que cada um dos oitos filmes ganharam vida nas telas dos cinemas. O caso talvez então seja tentar entender como esse último filme, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 consegue fechar toda essa saga com tanta propriedade.

É lógico que, antes de qualquer coisa, essa unidade se dá pelo primoroso trabalho da autora inglesa J.K. Rowling (sem levar em conta a qualidade de seu trabalho literário) ao conseguir criar essa história uniforme, que em nenhum momento sequer parece estar contado nada a não ser a história desse bruxinho que descobre ser uma espécie de “escolhido” (ao melhor estilo Neo de Matrix) para matar o grande vilão Lorde Voldemort. Nesse sentido é impossível fugir da responsabilidade do roteirista Steve Kloves, que antes de mergulhar nesse mundo fantástico já tinha sido indicado ao Oscar por seu roteiro de Garotos Incríveis e também escrito o bacana Susie e os Baker Boys.

Nesse quesito, é indubitável perceber que é Kloves quem consegue dar esse sentido ao material, já que adaptou sete dos oitos filmes e, com isso, conseguiu manter essa unidade dramática que mais dá força a esse final épico onde Harry volta à Hogwarts para enfrentar a derradeira batalha com Voldemort que, mais do que nunca, controla todo mundo da magia. É Kloves quem vem conseguindo, desde o primeiro, não se deixar levar pela repetição de estrutura, por mais que a história em si cavalgue sempre no sentido de contar a história de um ano na vida dessa escola em cada livro.

Essa liberdade estrutural é que permite que, aos poucos, o lado “escolar” da história de Harry Potter possa ir dando lugar a um rumo adulto, onde, principalmente o trio Harry, Rony e Hermione consigam se preparar para esse filme final, onde não se deixam ser nem a sombra daqueles três meninos inseguros chegando à escola.

Curiosamente, o outro pilar que sustenta o final dessa saga no cinema é justamente a direção de David Yates, que estreou à frente da franquia, justamente em A Ordem da Phoenix, o único que não foi escrito por Kloves. É correto lembrar que boa parte do sucesso dos filmes vem justamente da escolha de seus diretores e, principalmente, do modo (digamos) sério que a série passou a ser encarado após o segundo filme com a entrada do mexicano Alfonso Cuaron, que, sem sombra de dúvida fez com que O Prisioneiro de Azkaban se tornasse o ponto de partida para o clima que viria a seguir (já que a diferença entre os dois primeiros filmes dirigidos por Chris Columbos é da água para o vinho, deixando para trás o quadribol e as rusgas entre “casas” e alunos para entrar de cabeça na verdadeira mítica da história).

Porém, é Yates quem tem a oportunidade de alinhavar tudo isso ao ganhar a possibilidade de comandar os quatro últimos filmes (já que não é novidade que o último livro foi dividido em dois). É fácil perceber o quanto foi exatamente isso que possibilitou que Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 seja tão acertado, já que ele vem sendo tramado há três filmes. Mais ainda, é principalmente a possibilidade de dividir esse último livro em dois (que pode até ter sido por razões monetárias, mas acabou ultrapassando isso) que lhe permite fechar a história do jeito que ela merece.

É a existência de Relíquias da Morte – parte 1 que possibilita que agora o espectador dê de cara com essa batalha final, já que todas peças já foram colocadas no tabuleiro e Yates então se permite apenas fazer agora os movimentos certos. Mais ainda, é a mão leve do diretor que faz com que figuras como Severus Snape (em uma atuação sensacional de Alan Rickman) e Lúcio Malfoy (Jason Isaacs) consigam passar pela transformação de personalidade que seus personagens lhes permitem até chegar nesse derradeiro momento.

Isaacs, aos poucos, vai perdendo aquela imagem imponente e, cada vez mais próximo de Voldemort, parece perder a força e se tornar um capacho débil que culmina no olhar sem força na direção de seu filho, Draco, ao, praticamente, mendigar que esse fique ao seu lado no final da batalha, mesmo tendo a certeza de que não é essa a vontade de seu filho, o que possibilita que todas entendam que, no final das contas, tudo era movido pela covardia de tentar permanecer no lado vencedor, o que, por outro lado é, justamente, o ponto de partida de Yates para fechar essa saga, principalmente pela história lhe possibilitar o personagem vivido por Alan Rickman.

É Severus Snape, que agora se tornou diretor de Hogwarts, depois da morte de Dumbledore, e comanda os alunos em uma espécie de batalhão marchando pela entrada do castelo e até punindo-os com castigos físicos, quem carrega esse último filme para seu final, já que é a partir dele que Yates tem a oportunidade, desde que entrou na franquia, de se mover ao redor de um certo pragmatismo que escolheu para comandar esses últimos capítulos. É através de Snape que ele tem a possibilidade de viver dentro desses tons de cinza, já que desde o começo da saga o personagem de Rickman se mostra reticente com a maldade que parece lhe rodear, ainda que suas ações façam parte dela. A situação fica ainda mais delicada na mão de Yates, que, por saber da importância do personagem nesse momento final, pode explorá-lo ao máximo nessa sensação que, a cada aparição sua, deixa o espectador com mais dúvidas ainda a respeito de sua lealdade.

O ótimo trabalho de Rickman por toda série, só pode então ser coroado com essa “transformação” toda por As Relíquias da Morte – Parte 2 não precisar de mais surpresas, descobertas e correrias, já que essa parte já foi o cerne do filme anterior, o que então dá a Yates, agora, a possibilidade de tratar disso (Snape) como o ponto central da grande virada que dá a Harry Potter força para o último golpe. Que lhe mostra que, sem dúvida nenhuma, há esperanças.

Mas não se enganem, esse pragmatismo nada velado de Yates à frente da parte final dessa história é justamente o que mais chama a atenção e dá a ela a possibilidade de se sustentar mais do que apenas como uma fantasia infanto-juvenil. É essa característica que impede que toda fantasia intrínseca na história não se sobreponha sobre a história desse personagem em sua jornada. Do mesmo jeito que é deliciosamente interessante quando Yates tem a oportunidade de dialogar com esses momentos onde nem tudo segue o rumo esperado, como o trio de protagonistas decidindo o que fazer com a dupla de perseguidores desmaiados no filme anterior (como se discutissem diante de uma guerra, talvez prevendo isso) e agora com Dumbledore, em um flashback, onde quase é colocado em dúvida suas intenções com o garoto Harry Potter. Yates, nesses momentos, mostra que, mesmo em um luta do bem contra o mal, pura e simplesmente, nenhum lado consegue sobreviver sem um pouco de praticidade, doa a quem doer.

Por outro lado, mesmo diante de toda força da trama, nem Yates, muito menos Kloves, conseguem fugir de um punhado de soluções simplistas e convenientes que, em companhia de mais meia dúzia de diálogos que confundem obviedade e piadas descartáveis com uma certa inocência dos personagens (o que caberia melhor se fosse explorado mais a fundo), talvez não deixe que essa parte final supere a coragem narrativa do anterior e, mesmo sem se permitir ficar refém de esclarecimentos melodramáticos no meio da ação (algo que irritaria qualquer um) deixa uma pequena impressão de pontualidade entre as cenas de ação em âmbito geral.

Mas principalmente, no que para muitos são os momentos mais esperados da saga, onde os dois lados dessa guerra se enfrentam frente a frente, Yates não decepciona, principalmente por ter a sensibilidade de que, principalmente no caso de PotterHarry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 e Voldemort, nada pode ser encarado como em um melodrama de guerra normal. Se ele opta por não perder tempo (no bom sentido, já que não se afasta da linha central da história) acompanhando um bom número de personagens ¿famosos¿ tombando diante dessa luta, faz isso com uma classe imensa ao olhar para eles nos últimos momentos antes do ataque e só recorrer a suas figuras novamente depois disso para mostrar que em uma batalha desse porte, o resultado é sempre uma fileira de corpos.

Mesmo assim, é impressionante como Yates não cai em atalhos preguiçosos aumentando o som em explosões enquanto sua câmera anda pelo meio do campo de batalha, mas prefere a seriedade de deixar apenas seu espectador olhar triste, e praticamente em silêncio, para a arena de quadribol em chamas e essa escola, que todos aprenderam a conviver e procurar por seus segredos, entulhada de escombros, como ó último Álamo de uma resistência que, aparentemente já perdeu batalhas demais, mas não a guerra.

Ao final de tudo isso, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 não emociona, como muitos podem até esperar, mas sim fecha com chave de ouro essa história toda, com a propriedade de um universo que, mais do que nunca, mostra que faz muito sentido e faz todos olharem para trás e se surpreenderem com o tamanho de toda essa história, com as referências e, principalmente, com o rumo que tudo tomou. Do modo como, não só esse três pequenos magos, cresceram, mas sim como tudo saiu daquele lugar quase infantil, e lúdico, e chegou nesse enorme e poderoso desfecho que não vai decepcionar ninguém, e deixar saudades, seja fã ou não.


Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2 (EUA/GB, 2009), escrito por Seteve Kloves baseado no livro de J. K. Rowling , dirigido por David Yates, com Daniel Radcliff, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Phiennes e Alan Rickman .