Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 | Começo do fim


Bem no meio do ano que vem, ao lançamento da segunda parte de Harry Potter e as Relíquias da Morte, a franquia poderá “cantar parabéns” de dez anos, serão oito filmes e uma oportunidade de olhar para trás e não se arrepender de nenhum deles, principalmente em sua reta final nas mãos do inglês David Yates.

Não que quem tenha vindo antes dele fique para trás, ainda que os dois primeiros de Chris Columbos acabem se mostrando muito aquém do que veio depois, mas, mais que isso, Yates foi o único a ganhar carta branca para trabalhar um fim de tudo que estava fazendo. Alfonso Cuarón foi genial em seu Prisioneiro de Azkaban, e provavelmente foi o primeiro a mostrar que aquele bruxinho não precisava mais ser infantil, mas tinha a obrigação, e o peso, de trabalhar dentro daquele período de um ano na vida do personagem, Yates entrou logo depois, e talvez por não ter o nome dos anteriores, fez seu trabalho e ganhou de presente a oportunidade de pensar mais a frente e criar uma unidade indefectível.

De A ordem da Fênix para cá, Yates parece ter feito um filme só, mostrou seus personagens, preparou seu tabuleiro, e agora, nessa primeira parte, faz seu primeiro movimento. E ainda que no fim das contas, a ideia de separar o livro em dois filmes pareça ser uma última tentativa da Warner Bros. de ganhar uma grana em cima do ex-bruxinho (hoje sem o diminutivo), é o diretor quem olha para isso e vê a oportunidade de fazer um filmaço. Provavelmente do jeito que em nenhum outro momento da série alguém conseguiu.

Porém, não esse, mas sim o próximo, já que durante mais de duas horas o que ele faz é se divertir criando o cenário para uma batalha épica. É lógico que ele e o roteirista Steve Kloves (que só não participou do Ordem da Fênix) conseguiriam juntar tudo em um filme de três horas, mas isso os impediria de fazer, como fizeram nessa primeira parte, um filme conciso, sem pressa, que desenvolve seus conflitos e seus personagem sem atalhos e correrias, que dá tempo para Yates, em parceria com a direção de arte de Stuart Craig, se perderem (no bom sentido) em um visual mais uma vez embasbacante.

Se durante a maior parte do tempo, Harry, Rony e Hermione (se você não sabe de quem eu estou falando, o melhor seria ir até a locadora e fazer uma maratona) estão em fuga das forças malignas do lorde Voldemort e com isso vão “pulando” (tem um termo mágico que eu não lembro) de lugar em lugar, em imensidões vazias que os minimizam e demonstram o quanto são pequenos dentro daquele mundo todo, mesmo sendo praticamente, suas únicas esperanças. É só o trio entrar em algum lugar para que ele ganhe vida em sombras em detalhes. Não criando um mundo, mas dando continuidade àquele que tem sido montado.

E não só isso, o capricho é tão grande, que, desde o começo, quando Yates mostra que, a primeira vista, Voldemort agora é uma força clara, com seus Comensais da Morte tramando o próximo passo para tomar o controle de tudo e matar Harry Potter, tudo mais parece sob essa sombra escura, como se tudo ainda fosse aquele lugar cheio de magia, mas afogado, sufocado, por essa maldade. É impressionante como a trama só passa por lugares lúgubres, abandonados e acinzentados. Mortos. Somente os três amigos parecem receber luz natural, o resto dos personagens e situações são obrigados a conviver com esse peso sem luz.

Mas talvez nada impressione mais que o Ministério da Magia, agora também sob a asa de Voldemort, tanto de relance logo no começo, com o ministro sendo entrevistado por uma turba de jornalistas e seus flashs piscando (em uma composição de cenas belíssima) quanto na sequencia inteira em que Harry e os dois amigos precisam invadir o local tempos depois. Com Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1 um visual riquíssimo, Yates se diverte criando uma espécie de repartição pública caótica, que tem um pé (na verdade ambos) na magia que permeia a série, mas precisa compartilhar da coesão desse mundo com cara de velho e ultrapassado que impôs por todos filmes. Tantos nos uniformes das funcionárias, imprimindo folhetos propagandistas com cara de soviéticos, quanto no jeito amontoado das salas e do tribunal.

E do mesmo jeito que essa ausência de peso nas costas, de não precisar correr atrás de um fechamento para tudo no pouco tempo que o tem, permite que o visual seja, por que não, apreciado com mais calma, faz mais ainda para os personagens. Não só por deixar Yates se divertir com um elenco épico de atores britânicos de maior qualidade em mãos, como o faz deixando um espaço carinhoso para praticamente todos darem seu pequeno show. Talvez John Hurt até seja o único que acabe não aproveitando muito, mas no resto do tempo, o que se vê é um desfile de caras conhecidas e cheias de talento, que foram sendo arrebanhadas pelos outros filmes e agora voltam para a festa de despedida.

Mas quem ganha mais com isso são os três protagonistas, já que pela primeira vez, o filme lhes permite contracenar entre eles mesmo, sem escolas, professores, monstros e outros alunos, só Harry, Rony e Hermione. É verdade também que quem leva a melhor é o ruivo Rubert Grint, não só por se mostrar a cada capítulo um ator muito mais dinâmico, com mais nuances e uma propriedade maior, mas, ganhando ainda, provavelmente diante da própria obra, os melhores conflitos a serem geridos, seu amor, seu ataque de ciúmes, as muitas tiradas cômicas e até um momento heróico. Yates percebe isso e, claramente, toma um cuidado ímpar para não deixá-lo se tornar nem o centro das atenções (assim como o faz com o romance entre Rony e Hermione), nem o alívio cômico, mas sim o fazendo sempre depender da presença dos outros dois em cena, completando um tripé que segura perfeitamente o filme.

Do outro lado, Yates pode até não ter em mãos o material para tal, mas consegue, em poucas mais precisas sequencias, criar uma dinâmica entre esse lado negro que até agora não existia. Pela primeira vez deixa exposta uma ferida, tanto nos olhos pouco confortáveis de Alan Rickman e seu Prof. Severus quanto, lá para o fim, na atitude hesitante, do até agora vilão, Draco Malfoy, vivido por Tom Felton, que se vê às voltas com a possibilidade de fazer o mal para Harry (haja vista a unidade comentada acima, esses dois momentos são dicas para a derradeira batalha, assim como, quem leu o livro deve estar dando risada da minha inocência ou ignorância).

E por mais que o diretor ainda precise conviver com alguns atalhos pueris do livro (me corrijam se eu estiver equivocado), como a própria ausência de Rony, para voltar como um herói, ou até o casamento em um momento mais que irresponsável de ser realizado, apenas para deixar Harry encontrar o pai de sua colega Luna, que depois tem uma certa importância na trama, assim como para descobrir um pouco mais sobre o passado de Dumbledore, Yates não tem vergonha de fazer isso com precisão e força, não se preocupando com a desculpa da situação, mas sim com o que pode adicionar à sua trama.Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1

Mais que um filme sobre um bruxo adolescente, Yates faz dessa primeira parte quase um suspense de investigação, onde o trio precisa fugir do vilão ao mesmo tempo que tenta desvendar um mistério para acabar com o próprio. É lógico que as tais Relíquias da Morte dão as caras para serem achadas, mas Yates é tão seguro que pouco se importa de só colocá-las em cena para lá do meio do filme e, ainda por cima, se permitindo contar suas histórias por meio de uma animação deslumbrante, que mescla um tipo de teatro de sombras com bonecos e tem um resultando narrativa e visualmente inesquecíveis e que só abrilhantam mais ainda um filme irretocável, muito por não ter pressa de contar sua história, mas, mais ainda, por ter uma história para contar. Que venha sua “Parte 2”, que, pela lógica da série, deve deixar esse no chinelo.


Harry Potter ande de Death Hallows – Part 1 (EUA/GB, 2010), escrito por Steve Kloves, a partir do livro de J. K. Rwoling, dirigido por David Yates, com Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Helena Bonham Carter, Bill Nighy, Alan Rickman, Jason Isaacs, Tom Felton, Brendan Gleeson, Rhys Ifans e Imelda Stauton


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