Harriet | Não um grande filme, mas uma história obrigatória


Certas histórias precisam ser contadas, mesmo que o resultado fique aquém do esperado, algumas personalidades da história da humanidade precisam ganhar as telas e expandir seu nome para o maior número de gerações possível. Harriet é um desses exemplos.

Harriet Tubman nasceu Misty, escrava no meio do século 19 em Maryland. Não só conheceu a liberdade quando fugiu, como se tornou uma das maiores abolicionistas da história da escravidão. Talvez “abolicionista” não seja a melhor das definições, já que Harriet (seu nome de mulher livre) libertou algumas centenas de escravos, se tornou uma lenda, virou espiã na Guerra Civil americana e até comandou um batalhão. Nas décadas que sucederam o fim da escravidão nos Estados Unidos, ainda lutou pelos direitos das mulheres até morrer, já no século 20, com mais de 90 anos.

Contar toda essa história em apenas um filme é um trabalho corajoso da experiente diretora Kasi Lemmons, que também escreve o roteiro com Gregory Allen Howard. Se o resultado não é maravilhoso, a intenção é tão forte que vale todo esforço. Lemmons é uma diretora militante, negra e sempre ligada a projetos que tentam valorizar esse lado muitas vezes ignorado por Hollywood. Portanto, Harriet se torna então uma espécie de projeto responsável, que tenta levar para as telas uma heroína que para muitos é desconhecida e esquecida.

No filme ela é vivida por Cynhia Erivo em um trabalho impecável, sensível, forte e que foi celebrado com a indicação ao Oscar. O filme é de Erivo e toda irregularidade do filme acaba meio esquecida diante de seu trabalho. A trama acompanha boa parte de sua escapada, ganha um pouco de ritmo em um segundo momento, enquanto ela começa esse trabalho de libertação de escravos e fecha o terceiro ato acompanhando Harriet enquanto ela liberta sua família e enfrenta seu “ex-dono”.

Nada disso é spoiler, e nem Harriet é construído para dar essa impressão, o objetivo do filme é apenas contar essa história e, quem sabe, fazer com que mais gente procure saber mais sobre a incrível história dessa personagem que parece saída da mente de algum escritor, mas que era de pele, osso e coragem.

Talvez o começo lento não faça jus ao filme, faltando um pouco de desenvolvimento dos personagens ao redor da protagonista, assim como tentar entender melhor o que passa na cabeça dessa personagem. O apelo narrativo à sua religiosidade como solução de certas incertezas surge de lugar nenhum e passa a ser importante demais no resto do tempo, o que soa como desculpa. Por mais que funcione em certos momentos mais para frente, quando você se acostuma com ele. Entender a fé dela em uma passagem por um rio funciona, mas as soluções anteriores parecem estar lá só para isso, não como um meio de completar a sequência.

Esse começo atrapalhado parece não conseguir criar um ritmo que fuja da estrutura “acontecimento sobre acontecimento”, falta desenvolvimento e um aproveitamento melhor do clima. No exato momento quando ela decide fugir ela já está fugindo e entrando em um filme de perseguição sem emoção e que não tem muito para onde ir a não ser “pular fora”. A direção de Lemmons também não ajuda, quadradinha e sem valorizar muito os cenários e o ótimo trabalho de recriação de época. Falta uma vontade de ser mais épico e visual. Isso tudo ainda fica menos interessante com o trabalho pouco inspirado e exagerado da trilha de Terence Blanchard, parceiro de Spike Lee e com uma carreira incrível, mas que aqui erra feio com o tom e a vontade de ser presente demais.

Entretanto, por mais que tecnicamente o filme esbarre em um monte de obstáculos, sua vontade de contar essa história e a obrigação de ser ouvida torna Harriet uma daquelas cinebiografias que estão muito mais preocupadas com a importância de seu relato. De mostrar para uma geração que ainda falha em entender o próprio passado, que existiram heróis que ainda devem servir de inspiração para uma luta que está bem longe de ter fim.

Harriet não parece preocupado em ser lembrado como um grande filme, mas sim em ser aquele canto que soa pelas plantações e fizeram centenas de negros partirem para suas libertações. Um canto que os lembrava que não eram escravos, mas sim estavam em situação de escravidão, já que, na verdade, eles eram pessoas livres. Harriet é sobre lutar por essa liberdade. E isso basta para o filme ser obrigatório.


“Harriet” (Chn/EUA, 2019); escrito por Gregory Allen Howard e Kasi Lemmons; dirigido por Kasi Lemmons; com Cynthia Erivo, Leslio Odom Jr., Jow Alwyn, Charke Peters e Henry Hunter Hall


Trailer do Filme: Harriet

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.