Greta | Nanini exposto


Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá foi uma peça escrita e encenada pela primeira vez em 1972, em plena ditadura militar. Tendo inúmeras versões pelas décadas, o pano de fundo sempre foi uma comédia que lida com a relação conturbada entre um enfermeiro idoso gay que traz para sua casa um imigrante inocente que não tem onde morar. Aparentemente incomodado pelo modo como os gays foram retratados na versão de 2008, o diretor Armando Praça vê, dez anos depois, nascer Greta, um filme livremente inspirado no texto de Fernando Mello.

Agora esqueça a comédia. Esta é uma adaptação melancólica, um drama que atinge a todos, independente do gênero e orientação sexual. A existência humana depende de termos o outro, e essa busca do outro pode ser dolorosa quando se é uma figura marginalizada pela sociedade. Mas todos podem ser marginalizados, independente de preconceitos. Pode ser algo na própria mente da pessoa, inclusive.

Este não é um filme que trata da sexualidade de seu protagonista como quem manipula nas mãos um cristal frágil, delicado, especial e que deve ser posto em um pedestal como símbolo de resistência. Armando Praça sabe bem o que quer, e com certeza não é destacar o homossexual como um caso a ser tratado de maneira especial, mas sim apenas mais um ser humano lutando pelos seus sonhos. O fato do sonho de Pedro ser inalcançável de maneira literal em nada o torna especial.

Pedro é um enfermeiro de um hospital em uma cidade que quase nunca é vista de fora, mas que é Fortaleza. Ele tem mais de 70 anos, é gay e tem uma amiga trans com uma doença que lhe dá pouco tempo de vida. O novo amor de Pedro começa quando ele ajuda um paciente culpado por um assassinato fugir. O enfermeiro tem apenas um desejo fixo para seus amantes: que lhe chamem de Greta Garbo.

Greta Garbo foi uma atriz sueca que fez enorme sucesso no cinema entre os anos 20 e 30, praticamente se aposentando prematuramente. Escolhendo péssimos projetos para trabalhar, não era incomum que a melhor coisa do filme fosse sua performance. Sua forma de atuar foi precursora do método de Marlon Brando, pois ela, de fato, vivia seus papéis, pois em vez de decorar falas e dizê-las mecanicamente Greta conseguia dizer muito mais com seus olhares e expressões, que não dependiam de cortes.

Quem vive Pedro e seu desejo de ser Greta Garbo é ninguém menos que Marco Nanini, um dos gigantes da TV e cinema brasileiros, mas que atuou pela última vez em 2010, no divisor de opiniões A Suprema Felicidade, de Arnaldo Jabor. Nanini escolhe bem seus papéis, e o roteiro de Praça o conquistou, mesmo ou até por causa do seu teor sexual cru, naturalista e muitas vezes explícito. Deve ter sido a notícia mais positiva do projeto de dez anos, pois apenas Nanini para conseguir alcançar as sutilezas de uma Greta Garbo alternativa no corpo de um senhor no final de sua vida.

Quando o Pedro de Nanini aparece em cena o desejo é que olhemos melhor para esta figura, e o tom melancólico da película de Praça prejudica esse desejo. Filmado quase todo em lugares escuros com iluminação que gera mais sombras do que luz, esta é uma história que tenta mesclar uma certa metáfora sobre pessoas marginalizadas com o desafio íntimo de Pedro de conseguir suportar a perda da amiga e as inconstâncias de seus casos. Porém, o que ele suporta no filme para conseguir um pouco de conforto talvez fosse demais de ser visto às claras. E digo isso não pelo teor sexual, mas principalmente porque, ao gostarmos de Pedro, não queremos vê-lo ser humilhado. Se for assim, que pelo menos o seja nas sombras.

Este é um filme com nus frontais masculinos e cenas de sexo realistas, embora não filmadas até as últimas consequências. Pode assustar alguns espectadores que terão receio do conteúdo, mas aos que se arriscarem descobrirão que Marco Nanini consegue transformar momentos que deveriam ser tristes em algo mais. As cenas picantes não são feitas para provocar, mas a entrega do ator é tão autêntica que a troca entre corpos, sejam eles de quaisquer gêneros, se transformam em uma espécie de carícia que ultrapassa nossas percepções de atração.

Mas a história não é apenas romance e sexo. Há um pano de fundo social que alguns na coletiva de imprensa inflaram para nosso momento político, que diz respeito ao descaso com a violência cotidiana contra qualquer expressão de amor que não seja heteronormativa. E na maioria das vezes não é sequer a expressão, como um beijo ou abraço, mas a mera existência de pessoas que não se comportam conforme a norma moral supostamente vigente.

No caso de Greta é um discurso válido, mas muito superficial para tomar forma de manifesto. São as circunstâncias da vida de Pedro e sabemos que de muitos como ele, mas ao mesmo tempo não é a vida de muitos gays que possuem vidas infinitamente mais libertadoras do que na época da ditadura quando a peça original foi criada.

Mas uma coisa é certa: não se pode ficar impassível a Greta. O espectador deve sentir algo, bom ou ruim, e mesmo que não tenha condições psicológicas de assimilar as diferenças, poderá refletir a respeito de sua atitude em relação ao diferente na vida real. Daí então a escalação do “Lineu da Grande Família” tenha sido uma escolha mais acertada ainda.


“Greta” (Brasil, 2019), escrito e dirigido por Armando Praça, com Marco Nanini, Denise Weinberg e Demick Lopes.


Trailer do filme – Greta

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