A Grande Vitória

A Grande Vitória

Em sua estreia em um longa-metragem, o diretor e roteirista Stefano Capuzzi Lapietra acompanha a vida do judoca Max Trombini, que, ao contrário de nomes conhecidos do esporte como Aurélio Miguel e Rogério Sampaio, nunca participou das Olimpíadas ou A Grande Vitóriaalcançou a fama. Baseado na autobiografia de Trombini, A Grande Vitória estabelece-se, portanto, não como o retrato de um campeão, mas sobre a importância que o esporte teve na vida de um garoto.

Vivido na infância por Felipe Falanga e quando adulto por Caio Castro, Max foi, desde pequeno, um garoto humilde, alegre e impulsivo, com frequentes explosões de raiva que resultavam em brigas na escola. Quando a diretora se cansa de dar chances ao aluno, seu professor de educação física (vivido pelo verdadeiro Trombini) sugere que o judô pode ser uma boa forma de canalizar a raiva de Max e de ensinar-lhe disciplina. O garoto se apaixona pelo esporte, que continua praticando durante a infância e a adolescência – e, quando surge a oportunidade de treinar com um sensei japonês que tem a reputação de ser caminho certo para as Olimpíadas, Max passa a perseguir esse sonho enquanto lida com o retorno do pai que abandonou a família quando ele era pequeno e com a nova namorada, Alice (Sabrina Sato).

Lapietra e o montador investem então em rimas visuais que garantem a A Grande Vitória belos momentos como o movimento da água da piscina transformando-se no azul do lápis do pequeno Max logo no primeiro corte entre cenas do filme, ou a cúpula de uma arena sendo substituído pela água começando a sair do chuveiro (o que ainda tem a função de externalizar as emoções do protagonista). A ótima montagem também eleva as cenas de luta e de treino, capturando bem a tensão sentida por Max quando enfrenta seus adversários e da dedicação do garoto ao esporte. Menos eficiente é a dramaticidade exagerada do momento em que, do nada, uma chuva forte começa quando Max e seu pai finalmente se veem. Mesmo assim, no geral, o longa é conduzido com segurança pelo cineasta.

Já do lado dos atores enquanto Falanga mostra-se um ator-mirim carismático e expressivo, capturando bem o misto de docilidade e agressividade de Max, a performance de Castro tem menos nuances, mas o ator é dedicado ao papel e consegue fazer um trabalho que funcione. Suzana Pires, como a mãe do jovem, mostra uma presença forte em seu pouco tempo de tela, e cria uma personagem multifaceta, uma mãe que, enfrentando muitas dificuldades na criação do filho, claramente ama muito o menino e dquer o melhor para ele. Moacyr Franco também faz um bom trabalho como o avô. Do lado das celebridades e não-atores, Sabrina Sato Carlos Roberto “Ratinho” Massa  têm participações pequenas e, enquanto ele participa de apenas uma cena, ela também tem poucos minutos de presença, apesar de interpretar uma personagem importante. Assim, mesmo não impressionando, Sato está longe de estragar o filme. No momento dramático de Alice, ela se sai bem até que sua personagem começa a se entregar ao desespero, o que não é de forma alguma um insulto à capacidade de Sato – qualquer atriz teria dificuldade em pedir desculpas ao namorado por ter engravidado.

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Fechando o elenco, quem se sai melhor é, sem dúvidas, Tato Gabus Mendes, que cria o sensei Josino de forma sensível e divertida. Mesmo preso às frequentes filosofias baratas típicas de filmes de esporte como “O verdadeiro campeão é o que vence fora do tatame. É o que vence a si mesmo.”, a sinceridade de Mendes ajuda a diminuir o ridículo das frases feitas de auto-ajuda do sensei.

Afinal, A Grande Vitória discute os sonhos que abandonamos e a tomada de novos rumos – dá para perdoar um pouco o teor filósofico quando, como aqui, elas parecem mais características de um personagem do que espalhadas por todo o longa. Infelizmente, não dá para dizer o mesmo da trilha sonora, que é constante, exagerada e sempre chamando atenção para si, tentando ditar as emoções do espectador ao invés de simplesmente acompanhar o que já está na tela.

A estrutura funciona principalmente no primeiro ato, durante a infância de Max. Na juventude do judoca, o ritmo é mais acelerado, e muitos eventos e subtramas são corridos ou mesmo esquecidos. A mãe de Max some quando o garoto cresce; enquanto isso, o namoro com Alice é apresentado através da cena em que eles se conhecem e de uma montagem romântica. Isso diminui a força da conclusão do longa – afinal, o que exatamente ele está abandonando ou escolhendo? Ao abrir o filme com Alice revelando estar grávida (em uma desnecessária tentativa de criar expectativa), Falanga parece dizer que aquele foi o momento H da vida de Max. O sonho olímpico foi abandonado depois de um único fracasso (pelo menos, de acordo com o filme). Mesmo a ideia de dar aulas em Los Angeles não parece um objetivo muito forte; portanto, a possibilidade de não se concretizar não é algo dramático.

Mas isso também é, em parte, resultado da personalidade impulsiva de Max – que o filme, acertadamente, não mostra como sendo “consertada” pelo judô: mesmo quando adulto, o protagonista tende a ceder à agressividade quando triste ou irritado. A Grande Vitória é, em sua essência, sobre o poder transformador do esporte, e da importância de que um jovem como Max encontre seu caminho, e tenha a oportunidade de segui-lo.


A Grande Vitória (Brasil, 2014), escrito e dirigido por Stefano Capuzzi Lapietra, com Caio Castro, Tato Gabus Mendes, Sabrina Sato, Suzana Pires, Moacyr Franco, Max Trombini e Carlos Roberto Massa.


Trailer do filme A Grande Vitória

1 Comment

  1. Filmes como A Grande Vitória, cujo percurso deve ser composto por dificuldades, quedas, desilusões e uma consequente volta por cima, exigem um clímax envolvente, protagonistas dedicados e um conflito que realmente faça o espectador torcer pelo futuro dos personagens. Elementos esses que, infelizmente, inexistem no longa de estreia de Stefano Capuzzi Lapietra. É de se questionar até mesmo quais os verdadeiros motivos por trás de uma realização como essa, que não apresenta absolutamente nada de novo e, se como história individual é merecedor de reconhecimento, enquanto destaque nacional está longe de alcançar tal dimensão.
    Fala-se aqui não de um Pelé, de um Ayrton Senna, ou de um Aurélio Miguel ou Rogério Sampaio – os únicos judocas brasileiros a conquistarem ouro nos Jogos Olímpicos. Temos, no lugar, um jovem sofrido que, felizmente, superou as dificuldades de sua vida através do esporte. É um bom exemplo.

    E quantos como ele não existem por aí? O que o diferencia a ponto de merecer ter sua história contada, portanto?
    Pra começar, o desenrolar das ações é por demais linear, sem surpresas nem reviravoltas, e mesmo quando há uma frustração, esta é anunciada com tamanha antecedência que ninguém chega a se surpreender.

    Caio Castro e Sabrina Sato são celebridades, artistas que se renderam ao estrelato e ao brilhar dos holofotes, e justamente por isso não podem ser vistos como intérpretes de respeito. Ela, ao menos, possui uma simpatia natural, e passa tão pouco tempo em cena – toda sua participação no filme deve se reduzir a menos de 10 minutos (5 no começo, e outros 5 no final) – que não chega a ameaçar o resultado, ao contrário dele, que possui um único tom de atuação, o mesmo que exibe em novelas genéricas e em entrevistas de programas de fofocas.

    Por fim, nota-se a ausência de um verdadeiro conflito para o filme: todos os propostos – a falta de dinheiro, o pai negligente, uma gravidez inesperada – são tão episódicos e facilmente solucionados que nem mesmo permitem que o espectador chegue a se importar com eles.

    No entanto, nem tudo são desilusões em A Grande Vitória (o título, é bom deixar claro, é uma referência ao contexto, e não a uma situação específica). Tem-se mais uma rara oportunidade de conferir o grande Moacyr Franco (após uma premiada e efêmera participação em O Palhaço, 2011) em cena, numa atuação novamente mínima, porém marcante. Domingos Montagner, Suzana Pires e Tato Gabus Mendes são outros bons coadjuvantes, que pontuam a trama de forma competente. E em relação aos aspectos técnicos, há pouco o que se comentar, tanto para o bem quanto para o mal. Se o visual é televisivo, com muitos closes, uma luz chapada e uma trilha sonora persistente e sem nuances, ao mesmo tempo está longe de ser amador ou feito às pressas. É uma opção clara o formato assumido, e gostando-se ou não é preciso respeitá-lo e entender seus motivos. O que não dá mesmo é para encontrar motivos de orgulho em um filme chapa branca, que oferece pouco e exige menos ainda.

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