A Grande Beleza | A arte


Logo na sequência de abertura de A Grande Beleza, o diretor italiano Paolo Sorrentino estabelece os temas que tratará nesta excelente obra: enquanto o público acompanha o performático disparo de canhão, um turista morre depois de parar excitado para fotografar a bela vista do local (como se aquela beleza tivesse literalmente o matado). A clássica canção que embala a cena é diegética, ou seja, provém do próprio filme – no caso, um coro de mulheres. Aqui, até mesmo a trilha sonora faz parte da “vida real” – é a vida fornecendo a Arte.

O roteiro de Sorrentino e Umberto Contarello não tem uma narrativa muito definida, mas é a partir do personagem central, Jep Gambardella (o ótimo Toni Servillo, em uma performance sarcástica e sensível) que desvendamos o universo da alta sociedade romana, um povo de meia-idade entediado, arrogante e cheio de dúvidas. Na primeira vez que vemos Jep, durante sua festa de 65 anos, ele fuma um cigarro enquanto todos os outros presentes seguem as instruções da música que toca. Depois de escrever um romance de sucesso há 40 anos, que foi seu passe de entrada para a classe alta, Jep escreve eventualmente como jornalista e busca inspiração para um possível segundo livro.

A Arte é presença constante, na tela e na vida dos personagens que acompanhamos: uma ex-atriz que abandonou a profissão porque “nessa porcaria de país nunca há bons papéis para mulheres” e agora quer escrever suas próprias histórias; um homem que se fotografou todos os dias para eternizar seu processo de envelhecimento; a artista performática que faz arte com o corpo como Marina Abramovic; uma garotinha que furiosamente lança a tinta na tela em branco; e a dançarina erótica que, ao passar dos 40 anos, não tem a menor intenção de abandonar a profissão, mesmo que o pai – dono do local em que ela trabalha – ache que esteja na hora de ela arrumar um marido. Em meio a essas diversas expressões, uma artista, ao ser entrevistada por Jep, esconde sua insegurança por trás da desculpa de que “arte não precisa de explicação”, enquanto o jornalista revela que seus leitores não serão enganados tão facilmente.

Além, claro, do casal que não parou de se beijar durante os dez dias em que se conhecem e os flamingos que, durante a migração, repousam no terraço de sua casa.

A Grande Beleza

O próprio escritor reconhece a vida como uma performance, onde cada um desempenha um papel diferente – como ele explica, o de um amigo ou conhecido em um funeral, por exemplo, é o de não distrair do sofrimento da família; portanto, não cabe chorar. Assim, mais do que apreciar a Arte e a Cultura, aparentar esse interesse é, para muitos, o que mais importa – uma das personagens declara ser fã de jazz etíope e que “não possui televisão” (ao que sua amiga complementa que ela fala isso o tempo todo), enquanto outra, após revelar que gosta de tirar fotos de si mesma para se conhecer melhor, menciona que suas fotos recebem muitos elogios no Facebook (como se aquela forma de auto-conhecimento precisasse da aprovação alheia).

Jep orgulha-se de “poder destruir qualquer festa” mais do que de ser convidado para as mesmas; o frustrado escritor tem dificuldade de reconhecer a beleza do cotidiano, da própria vida – seja na forma de Fanny Ardant, com quem esbarra em uma manhã, na vista do Coliseu que tem de sua casa ou simplesmente da deslumbrante beleza da cidade que, filmada por Luca Bigazzi com frequentes primeiros planos e com lentes grandes angulares, remete a Fellini. Ao começar a pensar no grande amor de sua vida – a mulher que, depois de viver sua vida ao lado de outro homem, faleceu – ele percebe, porém, que aquela beleza é constante.

A Arte é, afinal, uma maneira de transpor e de tentar explicar os sentimentos e sensações cotidianos, dando-lhes a grandiosidade e a amplitude que eles nos fazem sentir. Neste sentido, o sorriso sincero de uma criança ou um abraço da pessoa amada são tão capazes de causar admiração e de preencher coração e mente quanto a obra-prima do melhor pintor.


“La Grande Bellezza” (Itália/França, 2013), escrito por Paolo Sorrentino e Umberto Contarello, dirigido por Paolo Sorrentino, com Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Carlo Buccirosso, Iaia Forte e Pamela Villoresi.


Trailer do Filme – A Grande Beleza

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