Gigantes de Aço

O tempo é um negócio esquisito, principalmente no cinema, ele passa, os filmes são feitos, todo mundo chora e, quando você menos espera, já está chorando das mesmas coisas. É menos novidade ainda que, na hora de fazer um filme, o diretor que tem isso gigantes-de-aço-poster em mente, não há dúvida, vai fazer todos saírem do cinema satisfeitos com o que viram. Shawn Levy (pela primeira vez!) enxergou isso, e Gigantes de Aço é a prova viva.

Na verdade, o que Levy faz agora é colocar em ação tudo que aprendeu fazendo comédias rasas (Recém-Casados, Uma Noite do Museu e Uma Noite Fora de Série) em um gênero muito menos engessado, que permite muito mais manipulação e depende muito menos de um roteiro, ou diálogos, bem escritos. Gigantes de Aço é um filme sobre robôs lutadores e pronto, o resto é brinde.

O que sobra, no caso, é justamente o que já foi visto milhões de vezes e que, sem vergonha nenhuma, Levy esfrega na cara de todos enquanto esses robozões não estão na tela. Nele, Hugh Jackman é um ex-boxeador que nesse futuro próximo (2020) tem que sobreviver de lutas de terceiro escalão, não ele na verdade, mas sim seu robô. Sua sorte muda quando acaba descobrindo que uma ex-namorada morreu e ele é obrigado a comparecer na mudança de guarda de seu filho de 11 anos, dos quais dez foram vividos sem sua presença.

E o roteiro de John Gatins (acostumado a todo esse melodrama esportivo de Hollywood, tendo escrito Hardball e Coach Carter), a partir da história de Dan Gilroy e Jeremy Leven, mais até que Levy, parece preocupado em manipular seu espectador. Jackman começa como esse cara solitário, dirigindo seu caminhão pelo meio do deserto, logo se transforma nesse tremendo perdedor e acaba tendo a oportunidade dar a volta por cima ao ter que ficar algumas semanas com o filho e redescobrir que ainda pode ser aquele lutador que ficou no passado, ao mesmo tempo em que aprende a ser pai.

E Hollywood adora anti-heróis se redimindo com a ajuda de seus filhos, ainda mais com uma disputa esportiva qualquer para os dois superarem juntos, e é ai que entra o ás na manga de Gigantes de Aço, ao entregar ao seu público exatamente o que eles estão à espera. Pai e filho então encontram um robô abandonado em um lixão e, juntos, têm a oportunidade de fazer com que esse pedaço de ferro (pejorativamente mesmo, já que o robô é ultrapassado) se torne uma sensação no circuito de lutas “clandestinas” e, no final, ganhe a oportunidade de fazer sua grande batalha contra o campeão mundial da categoria.

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É lógico que todos já viram isso (só que sai o Apollo e entra o Zeus, não coincidentemente dois personagens negros e maus), mas quem se importa e se incomoda? Ninguém, já que Levy, mesmo repetindo toda fórmula (e não se esqueçam ainda de um acerto “lutador” de queda-de-braço caminhoneiro), não a faz de modo forçado, tudo está lá desde o começo, e ele não tenta, nem por um segundo, inventar mais do que se espera. Gigante de Aço faz então que seu espectador saia da sessão de cinema satisfeito (como eu já falei) e com uma impressão enorme de que nada está fora do lugar, já que tudo correu exatamente como ele esperava.

Ainda tentando manipular (no bom sentido, se é que isso existe) Levy entrega um filme visualmente redondo, que sabe exatamente onde está pisando e que, acertadamente, se coloca em um futuro próximo, onde tudo parece meio parecido com os dias de hoje, mas com meia dúzia de “cotonetes laser” (aqueles tipos de traquitanas com cara de vindas do futuro, só para desviar a atenção do público. E sim, eu inventei essa expressão) para que seu público se sinta à vontade naquele mundo, mas, ao mesmo tempo, se divirta com essas parafernálias.

O visual do robô segue então a mesma lógica, o que se mostra uma preocupação maior ainda com esse lado simpático do filme. Atom (o robô), criado em um CGI impecável (ainda mais com captura de movimentos) é, logo de cara, claramente, a única maquina do filme completamente humanóide (talvez Zeus siga esse mesmo pensamento, mas, como é apresentado como vilão desde o começo, não precisa dessa preocupação). E mais, de modo preciso Atom exala esse ar frágil, estabanado e, acima de tudo, do clássico underdog (algo como uma zebra, mas mais profundo), já que foi criado para ser sparring de outros robôs lutadores (alguém se lembrou do Rocky?).

No final das contas então, Gigantes de Aço é essa diversão meio escapista (tem lá sua liçãozinha, mas é tão batida que é melhor nem levar em conta) e, por que não, brega, ainda mais quando Levy faz questão de montar sequências enormes com personagens estampando olhos lacrimejados de emoção ao verem a dupla (pai e maquina) na luta final, com muitos robôs se digladiando, música alta e (sem perigo de se repetir, e enfatizando isso) muita diversão. Um filme de ação que faz todos terem aquela impressão de “Yes, you can!”, do jeitinho que Hollywood adora, e o público vai no embalo.


Real Steel (EUA, 2011), escrito por John Gatis, dirigido por Shawn Levy, com Hugh Jackman, Dakota Goyo, Evangeline Lilly, Hope Davis,Kevin Durand e Anthony Mackie


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