Gato de Botas

 

O Gato de Botas (essa versão animada) surgiu no cinema no segundo filme do ogro Shrek, e praticamente roubou a cena, o estrago foi ficando maior ainda com o passar das sequências, já que nenhuma delas prestava de verdade, e com toda aquela simpatia felina/latina não era surpresa que logo ele ganhasse seu próprio filme. Ainda que pouco se pudesse esperar, já que muitos desses “spin-offs” de animações de sucesso acabam virando produtos duvidosos descartados nos limbos das locadoras, aquele olhar vidrado do personagem não permitiria tal fracasso.

Gato de Botas pode ser então considerado um pequeno conto sobre o personagem, um epílogo, ou talvez um prólogo até, de suas aventuras com o Ogro e o Burro, mas sem que, em nenhum momento, precise deles para ser um passatempo divertido, ágil e muito melhor acabado que os últimos dois filmes do Shrek.

Nele, o herói felino encontra um velho amigo de seu passado, o ovo Humpty Dumpty e juntos tem a oportunidade de conseguir um sonho de criança da dupla, os famosos feijões mágicos do João, mas para isso têm que enfrentar o casal de ladrões Jack e Jill.

Como fica óbvio Gato de Botas continua vivendo naquela terra encantando de contos de fada politicamente incorretos, mas, bem diferente de Shrek (principalmente nos últimos dois), não parece refém dessas referências, seu principal objetivo parece mesmo contar essa história, se divertir com essas aventuras e apostar muito mais na personalidade, tanto do protagonista, quanto de seus coadjuvantes, para atingir seu objetivo narrativo.

Antônio Banderas continua ajudando demais na hora de emoldurar o Gato nessa latinidade charmosa, ao mesmo tempo em que a direção de Chris Miller (de Shrek 3) se diverte demais com todo lado “gato bonitinho” do personagem (ronronando e indo atrás da luz), o que é prato cheio para um monte de ótimas piadas e momentos hilários. Ao seu lado, Zach Galifianakis e Salma Hayek contribuem demais com a dinâmica de seus personagens, ela com uma gata ladra que ajuda a dupla e ele como o próprio Ovo.

É verdade ainda que, dessa despretensão narrativa, Gato de Botas resulta apenas em uma série de sequências de ação emendadas de modo pouco sutil, e parece ter a humildade de perceber a fraqueza de sua trama e não tentar inventar nela mais que o necessário, mas ainda assim, na grande maioria do tempo, Gato de Botas agrada e consegue arrancar algumas boas gargalhadas. Até quando percebe que está fora do ritmo, em um flashback que conta toda infância do Gato, ao voltar para o presente faz questão de mostrar a gata Kitty dormindo com o tédio.

Do mesmo jeito, também é preciso lembrar que é graças a essa estrutura, que pode até parecer meio engessada, que Gato de Botas quase não deve incomodar a maioria do público, já que seu resultado em termos de trama é bem costurado e fácil de mastigar, não surpreendendo ninguém, mas tampouco deixando alguém perdido dentro do que está acontecendo.

E é ainda a câmera de Miller que talvez mais dê valor a Gato de Botas, já que o visual, e as composições, são sempre inegavelmente interessantes e a quantidade de gags visuais é na medida, principalmente depois que Humpty Dumpty começa a ter mais espaço e cada uma de suas aparições é acompanhada de um momento estranhamente engraçado (principalmente ao dar risada de sua falta de mobilidade). Infelizmente, Gato de Botas é dividido entre esses dois momentos, no começo onde consegue dar risada do próprio personagem, de seu charme canastrão e até de várias piadas muito menos sutis, (como a reação dos gatos em seu covil, da trilha incidental sendo tocada pelos próprios personagens etc.) e, numa segunda parte, onde acaba tendo que dar ao protagonista um ar mais heróico e infalível para que o filme se firme nessa aventura. Um desequilíbrio que, no final das contas, até não atrapalha tanto assim o resultado final, mas que acaba entregando um filme dividido demais entre esses dois extremos.

Mas nada disso atrapalha essa aventura divertida e charmosa (com um 3D inspirado e que ajuda a passar o tempo), um ritmo dinâmico e força suficiente para, quem sabe, ser o primeiro de uma franquia, pelo menos até que algum de seus coadjuvantes roube a cena e ganhe um filme solo, mas isso são ossos do ofício.


Puss in Boots (EUA, 2011), dirigido por Chris Miller, escrito por Will Davies, Brian Lynch, David H. Steiberg, Tom Wheeler e Jon Zack, com vozes deAntonio Banderas, Salma Hayek, Zach Galifianakis, Billy Bob Thornton e Amy Sedaris

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