Frans Krajcberg: Manifesto | Profético


Coisa mais linda no mundo o timing de Frans Krajcberg: Manifesto, documentário sobre o artista-militante naturalista polonês que veio morar na floresta amazônica aqui no Brasil após a guerra e que foi um ser revoltado com o descaso dos brasileiros até seus últimos dias de vida ano passado, aos 96 anos.

Profético no filme, Frans estaria mais revoltado ainda hoje, quando as políticas federais afrouxam o controle do desmatamento e temos novos recordes de queimadas em uma floresta que pouco a pouco vai sendo consumida pela ganância econômica.

Para sermos justos, essa destruição está longe de ser algo recente, e o filme vem justamente resgatar um pouco dessa História. Desde o regime militar desenvolvimentista e seus delírios destrutivos com o projeto transamazônica a floresta não tem sossego. A nova Constituição de 88, que o polonês torcia para ser mais rígida, apenas entregou o poder para os antigos donos no Mato Grosso e intermediações, e um estado inteiro em menos de três décadas foi transformado em pasto.

Mais tarde a loucura nacionalista daria lugar para governos populistas de esquerda que tomaram sua vez de sambar na cabeça da mãe-natureza, com o projeto e construção de obras megalomaníacas como Belo Monte, uma nova hidrelétrica gigantesca sem razão de existir no meio da floresta.

Há muito material já divulgado sobre Frans e seus dois amigos, Sepp Baendereck e Pierre Restany, que vieram fazer uma viagem ecológica pela região do Alto Rio Negro por menos de um mês. Frans veio morar por aqui, se conectar com a natureza e sua arte. Anos depois o polonês continua vivendo próximo da casa na árvore no meio da floresta que construiu para si, e a diretora Regina Jehá realiza um fechamento atual e necessário para esta história sobre a vida deste artista que nos últimos anos incomodou muita gente simplesmente falando, mostrando que nada mudou nos últimos cinquenta anos.

Jehá coletou material já divulgado e arquivado sobre o artista polonês, alguns deles nas mãos do cineasta Walter Salles, mas também realizou uma última visita a Frans com quem já teve contato na época da ditadura. Debilitado depois de algumas cirurgias por conta de câncer de pele, sua fala continua lúcida, mas fraca e ainda sem o domínio do português, o que pouco importa no filme, já que suas ações demonstram muito mais do que as palavras.

Ele é um artista com convicções fortes. Realiza sua arte vivendo e observando a natureza e dela nada cobra. Ele não vende suas obras, apenas para sobreviver, e vivendo na floresta precisa de muito pouco. E em um momento único, acaba falando um pouco sobre a guerra e o que os poloneses fizeram com sua família. Ele carrega uma mágoa imensa dentro de si, mas a natureza amazônica trouxe um conforto que não teria em mais nenhum lugar do mundo.

O documentário que tinha a ambição inicial de falar também do movimento artístico acaba tendendo pesadamente para o ativismo, mas trechos dos manifestos desses artistas da época e um manifesto e da própria diretora criam uma coesão entre o movimento artístico e a necessidade imediata dos movimentos ecológicos. São trechos lindos lidos pela diretora que ampliam nossa visão sobre a realidade.

Porém, o filme corre o sério risco de parecer chato para a maioria das pessoas que vivem nas cidades. Desconectados de nós mesmos, escondidos nessa selva de pedra caótica e impessoal, pode ser difícil enxergar a essência do que está sendo dito, sobre a elevação da consciência através na natureza. E não é tarefa fácil para o filme fazer isso.

No entanto, uma vez que você abra sua mente o mínimo possível e deixe as imagens captadas e montadas pela diretora falarem mais alto, você estará dando um passo não apenas em direção a compreender quem foi Frans e seu movimento, mas também a compreensão de si mesmo. É que na correria do dia-a-dia nos esquecemos de nós mesmos, e nem todos vivem na floresta, podendo se nutrir da essência de quem somos, da beleza oculta na água, nas plantas, nos animais e no por do sol.

Este é um filme difícil para a maioria, mas que recompensa no final. Você pode sair mais leve da sala de cinema. E quem sabe disposto a entrar nessa luta e fazer algo pelo meio ambiente. Pelo nosso ambiente.


“Frans Krajcberg: Manifesto” (Bra, 2019), escrito e dirigido por Regina Jehá, com Frans Krajcberg.