Filhas do Sol | Até um herói precisa de provações


O objetivo de Filhas do Sol é ser algo grandioso e poético como os filmes de Terrence Malick (Árvore da Vida, você conhece o sujeito), ou a adaptação de um romance épico, que exalte as verdadeiras heroínas que essas mulheres são, arriscando suas próprias vidas em uma guerra. Que mártires!

O primeiro grande problema para nós comprarmos essa ideia é que homens, mulheres e crianças morrem em uma guerra contra civis, mas é impossível comparar a quantidade de cada um dos grupos. Isso porque homens morrem absurdamente mais, por motivos óbvios, pois são obrigados moralmente e legalmente a se alistarem e lutarem na frente armada. Isso já é um fato documentado depois de muitas e muitas guerras travadas pela humanidade. O Oriente Médio não é exceção.

O segundo grande problema é que temas grandiosos pedem histórias grandiosas, e uma história chega nesse patamar graças ao seu protagonista, o que ele viveu, o que ele fez e o que precisa fazer. As mulheres da pequena guerrilha deste filme são vítimas das circunstâncias. A líder é uma mulher ex-classe média que teve os homens de sua família executados no muro da frente de sua casa, só que eles aparecem por tão pouco tempo que você nem ligaria se no lugar de levar bala eles fossem queimados, por exemplo.

A líder é a nossa protagonista. Seu nome é Bahar, interpretada por Golshifteh Farahani com um eterno olhar de dor. Já disse que ela perdeu seu marido, mas também perdeu contato com seu filho, que ficou em uma escola de uma cidade controlada pelo Estado Islâmico. Ela sabe que seu filho está sendo treinado para ser uma máquina de guerra e, por isso, planeja resgatá-lo custe o que custar. Nem que tenha que sacrificar todo seu pelotão.

Teoricamente e ironicamente nossos olhos nessa história é uma fotógrafa da imprensa, Mathilde, uma mulher que teve o namorado “explodido” e seu olho esquerdo perfurado por uma granada, situação que ela contorna com um tapa-olho, que acrescenta à poesia ao momento. Ela tem uma filha, mas ela está em segurança, e o que a move é mostrar a verdade através de suas fotos. É mais uma vez pouco para nos envolvermos, e ela sabe disso. “As pessoas fazem de tudo para ignorar a verdade.”, diz ela. Mathilde não poderia estar mais próxima da verdade.

A história de fundo dessas mulheres começa a cair em um padrão que as generaliza, e portanto as desvaloriza como seres humanos. Seria importantíssimo que nos primeiros quinze minutos estivéssemos prontos para invadir o front inimigo junto com elas, mas isso não acontece em nenhum momento do longa. Esperamos, sim, que tudo dê certo. Mas não conte conosco, pois essa missão é suicida.

Nenhuma dessas histórias é grandiosa como o filme é ou pretende ser, com tomadas cinematográficas belíssimas, fotografadas com o melhor filtro, o filtro triste, com tons frios em uma terra quente, e uma música que evoca através de seus acordes tortos a eterna dissonância e insanidade dos tempos de guerra. A fotografia nos mostra um horizonte apocalíptico, e no momento da ação nuvens de fumaça negra e cinza não se misturam: se colaboram. Para a foto ficar bonita.

Há “ótimas” sequências em Filhas do Sol, como a passagem pelos túneis que podem estar infestados de minas enterradas, ou uma sequência de fuga de um cativeiro de mulheres que poderia render muita tensão, mas este nunca se transforma em um filme tenso porque não há preocupação com as pessoas que vemos. Muito menos se transforma em um filme de guerra porque já conhecemos essas cenas de outros filmes melhores.

O conflito armado é cru, sem motivo. Sem paixão. O resultado são cenas corretas em meio a uma narrativa que nunca nos empolga ou nos conquista.

Este é um filme que procura por uma mártir e que fará de tudo para que ela permaneça assim, mas até heróis (ou principalmente heróis) precisam passar por alguma provação para entendermos seu valor. Aqui não há testes de coragem, pois estas mulheres já estão mortas. Morreriam em paz em combate se assim fosse necessário. Então o que vale seguir em frente?

É comum quem vê muito filmes encontrar algumas atuações ruins por causa da afetação que os atores empregam. As atuações desse filme não conseguem se afetar com nada. Quero dizer verdadeiramente se afetar. Vemos rostos de susto, de tristeza, de solidão e desesperança, mas todas essas expressões nos lembram ser de um filme, pois é isso o que se espera nos filmes. Mas com isso esquecemos dos personagens como pessoas de carne e osso, que se assustam de verdade, entristecem de verdade. Perdem as esperanças de verdade.

Muito se tem falado ultimamente sobre o abuso de alguns cineastas que torturam o psicológico dos seus atores para que tenham um resultado em frente às câmeras mais realista. Este é um assunto polêmico porque o problema é que realmente alguns resultados são notáveis, embora o elenco saia do projeto traumatizado. Me pergunto se o cinema não voltará mais a ter esses momentos, agora que está crescendo uma consciência contra esses abusos. Este filme parece ser um exemplo de ambiente salutar para se fazer filmes. Pena que quando vemos filmes de guerra pedimos pela insanidade temporária de seus astros.

Torço para que a diretora Eva Husson não esteja se fazendo de desentendida e aplicada a direção a la Tom Hooper (O Discurso do Rei), com cortes bruscos, movimentos de câmera involuntários e um imenso vazio temático no ar. Pior do que fazer isso com filmes engraçadinhos como sobre um rei gago é aplicar a mesma fórmula em filmes que retratam a crueldade humana em lentes de alta definição.

Existe um pacto não-dito entre cineastas e espectadores, ou pelo menos eu gostaria que houvesse, de que na guerra vista pelo cinema a beleza só deve existir para exaltar a dor de seus participantes ou a esperança de que um dia isso acabe. E eu não vejo nenhum dos dois em Filhas do Sol.


“Les Filles du Soleil” (Fra/Bel/Geo, 2018), escrito por Eva Husson e Jacques Akchoti, dirigido por Eva Husson, com Golshifteh Farahani, Emmanuelle Bercot e Zübeyde Bulut.


Trailer – Filhas do Sol

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