Filha do Mal

Para quem não é católico, o Vaticano nunca foi lá flor que se cheire e de vez em quando ainda adora inventar um punhado de dogmas pouco sincronizados com a sociedade moderna (não use camisinha etc.), mas, de acordo com os momentos iniciais de Filha do Mal, ele nunca esteve tão certo em negar qualquer relação com esse filme dirigido por Willian Brent Bell, afinal até aqueles padres lá de Roma devem ter percebido que não haveria jeito de sair algo que presta dali.

Para começo de conversa, Filha do Mal não percebe que todo hype em volta de filmagens achadas em algum canto de algum lugar qualquer já passou, e até o repetitivo Atividade Paranormal teve que descobrir um meio de renovar a franquia em seu terceiro filme (o mesmo pode-se dizer do espanhol [REC], que agora deve apostar também em sair do ambiente dos dois primeiros), portanto, quando “Filha do Mal” finge ser um documentário real, grande parte da platéia dentro do cinema já deve pensar “de novo não!”.

Pior ainda, nem sequer acha que precisa de uma história coerente, já que “com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, Filha do Mal não se incomoda em só colocar essa moça (a brasileira Fernanda Andrade) tentando fazer um documentário sobre ela mesma e a história de sua mãe, internada em um hospício em Roma após ter matado três pessoas durante uma sessão de exorcismo nos Estados Unidos (não… não tente entender como ela chega à Europa sem nenhuma burocracia).

Enfim, Filha do Mal só se preocupa com meia dúzia de sustos, algumas articulações estalando (como os novos filmes sobre exorcismo já começaram a se obrigar) e a impressão de que tudo ali corre meio embaralhado e sem objetivo, com os personagens aparecendo em frente à câmera sem serem algo importante para a história em si, já que ela pouco existe.

Filha do Mal é narrativamente sustentado por desculpas como “para ajudar sua mãe você precisa ver um exorcismo” e até ameaças como “e se fosse sua mãe, o que você faria!”, o que, para uma direção medíocre parece bastar para aparecer no lugar de qualquer diálogo explanatório que o filme precise. Se durante uma aula sobre exorcismo (aquela mesma que o protagonista de O Ritual frequentou) o professor cita um par de “sintomas” de possessão, esses mesmos são exaustivamente repetidos durante todo resto do tempo, talvez para lembrá-los àquele espectador que cochilou na primeira metade do filme, onde não acontece nada.

Mas talvez Filha do Mal tente sim ser diferente, e não só por não ter, sequer, uma história a ser seguida, mas sim por, pela primeira vez, focar boa parte desse arremedo narrativo nesses dois padres rebeldes que acabam fazendo justiça (contra o cramunhão) com as próprias mãos, já que praticam exorcismos clandestinos, e isso nunca foi usado, ei de convir.

Filha do Mal é então esse exemplo sem graça de filme de terror, que acha que só por fingir ser um documentário não necessita de mais nada a não ser tremer sua imagem e arrumar uma desculpa infundada para apagar as luzes do recinto e usar apenas a da câmera, como milhões de outros filmes já fizeram (e, infelizmente, ainda irão fazer). Uma enganação presunçosa o suficiente para achar que não precisa sequer de um final minimamente climático, o que deixará muito gente ao final da sessão tentado entender o que aconteceu.

Mas o Vaticano avisou, não foi?


The Devil Inside (EUA, 2012) escrito por William Brent Bell e Matthew Peterman, dirigido por William Brent Bell, com Fernanda Andrade, Simon Quateramn, Evan Helmuth, Eonut Grama e Suzan Crowley.


TRAILER