Feels Good Man | Do meme ao racismo


Feels Good Man é hilário, e o motivo disso é, por essas ironias do destino, o próprio tema desenvolvido no filme: um personagem de cartoon vira meme na internet e, sendo usado como símbolo por grupos de extrema direita e supremacistas brancos, se torna o motivo principal pelo qual Donald Trump se tornou presidente dos EUA. Sim, isso mesmo que você leu. É ou não é para dar risada de pé, membros da Igreja do Santo Meme?

A guerra memética está no ar. O termo cunhado por Richard Dawkins em seu livro O Gene Egoísta é uma analogia ao conceito da biologia que diz que o gene mais adaptado sobrevive no tempo. Bom, memes são a contrapartida cultural, o que significa que os pedaços indivisíveis da memória coletiva da sociedade que se adaptarem melhor aos novos tempos permanecerão como nossos valores e formas de enxergar esse mundo que vem mudando a passos largos.

Por isso eu entendo por completo a frustração de Matt Furie, o cartunista criador de Pepe The Frog. Ele vive com sua família na “chapada”, hipster, politicamente correta e vegana São Francisco, e agora lamenta que a figura simpática de seu jovem sapo, que se inspirou em si próprio como lembrança dos tempos fáceis e simples dos amigos de faculdade, tenha caído na rede.

O filme se divide em dois. Na primeira parte o significado de Pepe The Frog foi deturpado ao virar um meme simpático usado por milhões de pessoas, algo que Matt até curtiu, pois passou a vender camisetas com o sapo pela internet e faturar uma grana. O que ele não gostou, fruto da segunda parte do filme, e a mais dispersa na narrativa do diretor Arthur Jones, foi quando o meme caiu nas graças do povo do 4chan, um fórum na internet conhecido pelos progressistas estadunidenses como esconderijo dos supremacistas brancos, da extrema direita, da direita alternativa, dos neonazistas ou de qualquer outro termo que define um grupo de pessoas muito más.

O resumo dessa história é que o povo da internet transformou esse sapo no símbolo de toda essa galera, que virou um fomentador dessas ideologias na rede, em formato de memes. De forma anônima, claro, pois há perseguição ativa desses grupos. Principalmente se alguém decide propagar teorias anti-semitas ou que sugira que o mundo é controlado por judeus. Aliás, esse detalhe em específico gerou mais um efeito hilário no documentário. Em determinado momento da escalada de Pepe The Frog em direção à Casa Branca é dito que o personagem foi inserido na lista da Liga Anti-Difamação. Essa Liga é um órgão não-governamental que “define” o que é bom e ruim na internet. O detalhe hilário é que se trata de uma organização judaica.

Feels Good Man flerta de maneira sublime com aqueles momentos em que a vida é maior do que a arte, e se torna material potencial para trabalhos do nível de Exit Through the Gift Shop, um documentário sensacional que foi fruto de um projeto que começou com o objetivo de mostrar a vida de um francês maluco e terminou da maneira mais inesperada possível vendendo arte estilo Bansky, o pixador anarquista de rua, da maneira mais capitalista possível. Imperdível para quem ainda não viu.

Infelizmente não houve ninguém para “hackear” o projeto Feels Good Man, e apesar de vibrante e frenético em sua edição ele se mantém medíocre no conteúdo do começo ao fim, ignorando a fina ironia nas críticas que faz aos membros do 4chan, como ao relacioná-los através das falácias mais baixas, fáceis de detectar, a jovens que ainda vivem no porão da casa dos pais, desajustados sociais, virgens involuntários ou qualquer outro estereótipo facilmente atacável (até por ser um estereótipo) pelos movimentos de esquerda da atualidade, os amantes da diversidade.

Por outro lado, ainda é um trabalho válido e que pode gerar prazeres frívolos da vida em família. Lembre-se de comentar sobre este filme com seu tio, aquele todo cheio de papos políticos, no dia de Natal. Diga que o meme do sapo foi o grande catalisador da campanha de Trump, e que você tem um documentário para provar. Transforme aquela discussão chata de todo final de ano em uma boa piada, para todos rirem juntos em como a oposição consegue criar um bicho-papão tão infantil e fazer todos defenderem essa teoria. Talvez esteja surgindo um novo meme.


“Feels Good Man” (EUA, 2020); escrito por Giorgio Angelini, Matt Furie e Arthur Jones, dirigido por Arthur Jones, com Robert Barnes, Samantha Bee e Jeremy Blackburn.


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