Esposa de Mentirinha

O que um jogador de golfe maluco, um solteirão que tem que criar uma criança, um bombeiro que se casa com o melhor amigo e um produtor de Hollywood que se reencontra com os companheiros de infância do time de basquete tem em comum? A resposta poderia ser Adam Sandler, mas não é, a resposta mesmo é que todos esses personagens (nas mãos do mesmo comediante é verdade) são uma pessoa só, pelo menos é o que o diretor Dennis Dugan parece achar (e Sandler ter certeza). Esposa de Mentirinha repete a parceria e, como era de se esperar, repete o resto também.

Talvez, o mais apropriado fosse até ignorar essa semelhança em favor do gênero e da falta de amarras que as comédias podem ter, mas é impossível não se irritar com a dupla Dugan e Sandler em um piloto automático monótono que mais ofende a inteligência de seus espectadores do que faz o mínimo esforço para entretê-los. Durante todo tempo é como se a dupla pedisse para sua platéia rir de situações exageradas, bobas e sem graça, em uma trama apressada e sem a mínima vontade de desenvolver bem nada à sua volta.

Nela, Sandler é um cirurgião plástico bem sucedido que, vinte anos antes, depois de largar sua noiva no altar ao descobrir ter sido traído (e com isso percebendo a força do anel de casamento na mão esquerda, que parece conquistar todas mulheres), acaba então se apaixonando de verdade, mas para não perder essa “mulher de seus sonhos” tem que convencê-la de que aquela aliança é em razão de um divórcio. A trama se desenrola então diante desse acordo do protagonista com sua assistente (Jennifer Aniston) para que ela finja ser sua ex-esposa (e com isso ainda ganhando a presença, também “de mentirinha”, de dois filhos). No fim das contas, todos vão para o Havaí e mais tarde os dois acabam percebendo que se amam.

Não que esse parágrafo acima acabe com nenhuma surpresa, já que é impossível não achar que todos no cinema não sabem disso mesmo antes de entrar na sala, o problema de Esposa de Mentirinha é não conseguir perceber que, para tudo isso dar certo, é necessário mais que meia dúzia de gags visuais (personagens caindo com as pernas abertas em uma ponte, com um “ouch” e um zoom em sua cara de dor, ou até um outro despencando do alto de uma cachoeira… e isso é só a ponta do iceberg) que pouco contam com a inteligência de alguém.

Porém, diante de um montaréu de piadas sobre exageros físicos, mulheres viciadas em crack e espancamentos (por incrível que pareça algumas delas como desculpas do protagonista para conquistar suas namoradas), até sobram algumas boas (na verdade uma) sobre um personagem com botox e a entrada em cena dos dois filhos de Aniston, que dão uma certa sobrevida no resultado geral, e até ajudam o filme a não se tornar bem pior do que poderia, mas ainda assim faltando muito para que deixe de ser um pouco irritante.

No resto do tempo, o diretor só consegue mostrar o quanto não tem controle sobre seu filme, com uma obsessão por entradas em slow motion (e uma mixagem ruim de músicas do Sting) e um poder enorme de conseguir fazer com que, sem exceção, todos que não sejam o casal principal acabem se mostrando muito mais interessantes e divertidos (e talentosos) que eles. Bem verdade, diante de Adam Sandler, Jennifer Aniston faz um trabalho divino, Nicole Kidman e o música Dave Matthews (no papel de um casal coadjuvante) acabam sendo extraordinários e o espectador ainda ganha o prêmio de não ver Sandler receber a visita de alguns de seus companheiros como Rob Schneider e David Spade (que adoram dar as caras em seus filmes).

Mas uma coisa é fato, sempre que antes de começar um filme uma bola de golfe atingir a tela (da produtora de Sandler “Happy Gilmore”), o melhor é se preparar para o pior.


Just Go With It (EUA, 2011), escrito Allan Loeb e Timothy Dowling (a partir do roteiro do filme “Flor de Cactus”), dirigido por Dennis Dugan, com Adam Sandler, Jennifer Aniston, Nicole Kidman, Nick Sawrdson, Brooklyn Decker, Dave Matthews, Griffin Gluck e Bailee Madison.