Espiões

por Vinicius Carlos Vieira em 23 de Janeiro de 2011

É lógico que existem algumas certezas que um filme com o título de “Espiões” precisa levar em conta em sua trama, porém, só o esforço do diretor e roteirista Nicolas Saada de fugir (em parte) desse lugar comum, já trás a sua produção um frescor que lhe dá certa vida, ainda que não por muito tempo.

O irônico disso tudo, é que é justamente enquanto passeia pelo clichê, que seu filme se dá melhor. Nele, dois caras comuns trabalham em um aeroporto francês, enquanto tem como “passatempo”, pequenos furtos de bagagens, até que um deles resolve abrir uma mala diplomática, mas acaba tendo um acidente com o que parecia ser um frasco de perfume, mas na verdade era nitroglicerina. A trama tem início então com esse outro cara, que acaba se metendo em uma conspiração internacional que o leva para Londres, justamente, como um espião.

Enquanto aquele personagem frágil e desorientado dá as caras, perdido sem saber o que fazer, pego no meio desse redemoinha existe, “Espiões” é um thriller de espionagem eficaz que não perde tempo nem ritmo. É fácil seguir de perto esse quase desajustado que é obrigado a se transformar em um espião à lá James Bond, com jantares charmosos e smokings, reticente com tudo isso, mas vendo nisso sua única saída. O problema de tudo começa realmente quando isso é colocado de lado.

De uma hora para outra, “Espiões” parece preferir largar esse personagem pego no meio de uma tormenta e dar-lhe status de agente de verdade, com uma personalidade fria, calculista e apaixonada. Como se, a partir de um momento, o espectador fosse obrigado a engolir uma mudança de caráter enorme demais para o que quer que tenha acontecido até ali, sai do palco alguém carregado pela situação e entre em cena alguém forte demais para ele mesmo, charmoso demais, e independente demais (ainda que o roteiro tente forçar uma formação acadêmica no passado do personagem). O que causa estranheza e desconforto demais.

O problema maior é que tudo acaba rumando para um pequeno romance entre o protagonista e a mulher de um dos vilões, o qual ele foi à Londres para provar, junto com a Interpol, sua ligação com o incidente da mala e muitos outros. Não que um filme de espionagem não possa ter uma história de amor, a maioria tem, o problema de “Espiões” é não conseguir ser verdadeiro o bastante com esses dois momentos (a espionagem e o romance) e acabar sem conseguir ser forte o bastante em nenhum deles.

Por outro lado, “Espiões” só não é um desastre, pois parece perceber seus erros a tempo de salvar todo resultado, já que no fim parece optar pela conclusão de um filme de espionagem e não de um romance, o que faz com que o filme termine com ritmo. Aos poucos a trama se descobre indo na direção de um ataque terrorista, enquanto o protagonista volta à sua fragilidade (agora tomado pela paixão) e fecha tudo com algumas perseguições, um par de explosões e alguns tiros, o que devolve o filme ao seu título e faz com que no final das contas valha a pena uma conferida

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Espio(s) (Fra, 2009), escrito e dirigido por Nicolas Saada, com Guillaume Canet, Géraldine Pailhas, Stephen Rea, Vincent Regan, Alexander Sidding e Archie Panjabi.

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