Entre Realidades | Abraça todas formas de enxergar o mundo


Entre Realidades tem cara de independente e hipster. Foi escrito pela atriz Alison Brie e pelo diretor Jeff Baena, que ficou conhecido pelo ótimo Vida Após Beth, com Aubrey Plaza. Filmado pela Netflix em Los Angeles, faz pensar em como qualquer tipo de espectador hoje em dia é um espectador de streaming. (Essa frase foi escrita antes da pandemia do Coronavírus, mas agora é sério e literal, já que, pelo menos nas próximas semanas, todo espectador será um espectador de streaming. Por favor, fiquem em casa!)

O conceito é vago, quase inexistente. Mexe com o consciente de uma pessoa cujo inconsciente navega por experiências que estão no imaginário popular, mas que nunca sobem à superfície como um discurso realista. Quem o faz é chamado de maluco, e este é um filme sob o ponto de vista de uma maluca.

Essa maluca é Alison Brie, que não usa quase nada do seu já esgotado charme da série Community. Brie protagonizou recentemente a série de luta livre GLOW (também pela Netflix) e anda perdendo uma espontaneidade meticulosa que a tornava, pelo exagero, uma persona única. Esta persona seria útil aqui.

Cores leves e um tema pesado acompanham a rotina de Sarah, que trabalha em uma loja de tecidos e não tem amigos. Ela tinha uma égua, mas algo aconteceu que a fez perdê-la. Ela tinha um namorado, mas já faz um tempo. E ela tinha uma mãe depressiva que se matou no ano passado. É… as coisas não andam muito boas para Sarah.

O plot acaba sendo que todos sabem que ela é maluca e isso é usado como a muleta para entendermos todo o filme de outra maneira, ou pelo menos sob outro prisma: o prisma dos insanos. Porém, essa insanidade, quando vem, chega atrasado, quando já estamos preparados para o inevitável: essa história não terá respostas fáceis. Mas pior que isso é não nos importarmos mais com o destino da heroína.

Lutando contra a “malucofobia” em tempos em que é necessário tolerância até para quem crê que o planeta é plano, Entre Realidades abraça todas as formas de enxergar o mundo. Inclusive em como os alienígenas estão envolvidos com a humanidade, desde a construção das pirâmides até o uso de clones como termômetros humanos.

Mas tanta tolerância tem um custo: este não é um filme engraçado, mesmo que em uma finada locadora fictícia ele possa ser colocado na prateleira de comédia. Filmes sobre pessoas que criam unicórnios não são mais engraçados a partir do momento que precisamos respeitar a maluquice alheia. Porém, veja pelo lado bom da vida: torcemos para que Sarah consiga finalmente o que quer, mesmo que saibamos de fato se o que ela quer é verdade, nem se vale a pena.


“Horse Girl” (EUA, 2020), escrito por Jeff Baena e Alison Brie, dirigido por Jeff Baena, com Alison Brie, Molly Shannon e Goldenite.


Trailer – Entre Realidades