Enterrado Vivo

Para que Enterrado Vivo conseguisse chegar até onde queria, o diretor espanhol Rodrigo Cortés e o roteirista Chris Sparling tinham dois grandes problemas, o primeiro era o mesmo que todos filmes de um ambiente só tem, que é conseguir levar seu espectador até o final daquela história (acordado). O segundo é justamente fazer com esses mesmos não só cheguem lá, como o façam junto com o protagonista. Por sorte a dupla é bem sucedida em ambos.

Por sorte, por que seria extremamente maçante ter que ver um filme sobre um cara que acorda dentro de um caixão, e pior, em nenhum momento sai dele. Nesse caso o protagonista é um caminhoneiro que faz um trabalho no Iraque e tem seu comboio atacado por insurgentes (ou terrorista) e, após desmaiar, acaba então acordando dentro de um caixão enterrado. E é ai que o filme tem início.

Cortés abre seu filme com uma tela escura e uma respiração afoita, por um segundo deixa seu público ali, privado de sua visão, tendo que usar sua audição para reconhecer o barulho do isqueiro se abrindo e nesse momento ter certeza que logo mais sua chama vai convidá-lo a voltar a enxergar. São esses primeiros segundos que carregam o escuro daquele cinema para dentro daquela caixa de madeira junto com o protagonista, já que o diretor te convida a ficar tão feliz (ou não) quanto seu caminhoneiro ao voltar a ver o que está a sua volta.

É lógico que Enterrado Vivo não sobrevive apenas com o protagonista dentro do caixão, logo ele descobre que aquilo é um seqüestro e que tem que pagar uma enorme quantia de dinheiro para sair dali vivo. O dinâmico roteiro de Sparling não sai disso, nem tenta, muito menos cria algum tipo de reviravolta, seu material está ali, deitado dentro daquele caixão com um celular (deixado pelos seqüestradores) e é com essas armas que ele tem que lutar até o final. Sentado na poltrona, o espectador irá odiar cada atendente “passando aquela ligação”, cada musiquinha de espera, cada burocracia e cada secretária eletrônica que o protagonista tem que escutar. Sofrendo em conjunto com ele.

E em nenhum momento seu roteiro se mostra a vontade com aquela situação e vai criando conflitos para mover aquela trama aflitiva, que ainda corre contra o relógio, contra a bateria do celular e só pensa em sobreviver. Enterrado Vivo é claustrofóbico, como ele não teria outro jeito de ser, mas mais que isso, faz o espectador torcer por aquele homem dentro daquele caixão até o último segundo de esperança. Por um segundo até dá de presente a todos um respiro de liberdade, mas nem nesse momento consegue deixar de ser pessimista e torturante, arrebatando o espectador como um soco doloroso no estômago.

No controle de tudo isso, Cortés não perde a mão um segundo sequer, se mostrando extremamente esforçado correndo atrás de soluções viáveis para aquelas poucas opções. Em um momento “quebra” uma das paredes e se afasta com sua câmera no escuro, em outro estende suas laterais infinitamente enquanto o mostra afundando naquele caixão, mas, a enorme maioria do tempo precisa se contentar com alguns planos detalhes e outros poucos ângulos, e faz isso com segurança. Em nenhum momento Cortés dá ao espectador a chance de achar que aquele lugar é nada a não ser uma apertada caixa de madeira e isso faz todos comprarem a idéia.

E o diretor espanhol não tem pena de seu espectador e o maltrata sem o mínimo perdão, mostra a luz no fim do túnel e a apaga assim que seu personagem chega perto dela, se permite, por fim, deixar a esperança andar paralela ao rangido da madeira cedendo e da areia soterrando-o. Mas dá, acima de tudo, a oportunidade de seu espectador sentir tudo aquilo e criar até um novo filme do outro lado daquele telefone, um conjunto completo para quem vai ao cinema à procura de uma experiência que afundará todos em suas poltronas.


Burried (EUA/Esp/Fra, 2010), escrito por Chris Sparling, dirigido por Rodrigo Cortés, com Ryan Reynolds