Enola Holmes | A Holmes certa para o século 21


Talvez o Sherlock Holmes para o século 21 não precise de muitas mudanças e transformações, afinal, um cara sozinho e paranoico (e viciado em “drogas leves”), sem traquejos sociais e que fica por aí observando as pessoas como se fosse um maluco, funciona sempre. Mas talvez o pessoal do novo século também mereça uma versão mais “light” do personagem criado por Arthur Conan Doyle. A solução talvez esteja na própria família do detetive, sua irmã, Enola Holmes.

Na verdade, Enola Holmes não existia antes de 2006, quando estreou na série de livros de Nancy Springer. O filme que estreia na Netflix é a adaptação do primeiro deles, Enola Holmes: O Caso do Marquês Desaparecido. Depois desse já foram lançados mais cinco outros, todos com as mesmas intenções “Young Adult”. Um tom teen que aponta também os rumos do filme.

A adaptação é comandada por Harry Bradbeer, um diretor que construiu uma carreira na TV e tem seu nome atrelada a centenas de episódios em umas duas dezenas de séries não muito lembradas, mas que recentemente esteve no sucesso Killing Eve e também em Fleabag, que parece ser a inspiração para cada vez que a simpática Enola Holmes olha para a câmera e conversa com o espectador.

Tudo bem, pode parecer repetição, mas funciona, principalmente, pois a personagem principal é vivida pela ultra simpática Millie Bobby Brown (de Stranger Things). Enola é uma garota de 16 anos criada longe dos irmãos, Mycroft e Sherlock (vividos por Sam Claflin e Henry Cavill), mas muito bem criada/treinada pela mãe, Mrs. Holmes (Helena Bonham Carter). O problema é que a matriarca na família Holmes some misteriosamente e a solução dos irmãos é colocar Enola em um internato que a transforme na esposa perfeita.

Mas estamos falando de uma personagem em sintonia com o século 21 e com todo empoderamento que ela merece. Enola então parte em uma jornada para encontrar a mãe sem o auxílio dos dois irmãos, mas acaba cruzando o caminho do jovem Lord Tewksbury (Louis Partridge), tentando fugir das imposições da família, mas que acaba se tornando o alvo de um assassino misterioso. Enola Holmes tem então que desvendar seu primeiro caso para se tornar essa detetive e seguir o caminho do irmão.

Enola Holmes é uma personagem extremamente simpática, convida o espectador para seguir esse caminho com ela, não como uma testemunha, mas sim como um parceiro ou parceira. Bredbeer valoriza essa ferramenta até não poder mais, desde grandes conversas, até sutis olhares (esse saídos diretamente da série Fleabag). Essa dinâmica se mostra divertida e interessante, o que facilita o ritmo do filme, mesmo em um segundo ato um pouco cumprido demais e que acaba sendo um pouco mais lento do que devia.

Esse segundo momento menos ágil é também em razão de uma estrutura que aposta nos mistérios e dicas dessa aventura da nova detetive e não na ação. Há até uma sequência de luta empolgante envolvendo a personagem, mas no resto do tempo sobram apenas algumas pistas sem graça e uma relação que fica perto demais de uma necessidade de par romântico que não combina com a personagem e sua independência.

Talvez falte até um vilão ou impedimento mais reforçado para atrapalhar Enola, que não parece ter muitas dificuldades para alcançar seus objetivos e desvendar qualquer mistério que surja. Enquanto isso enfraquece essa dinâmica em um segundo momento, por outro, não atrapalha as óbvias intenções políticas do filme. Enola Holmes quer discutir o mundo de modo amplo, e consegue.

O roteiro escrito por Jack Thorne busca sempre desenvolver, não só a independência das personagens femininas, como estrutura ambos mistérios (do jovem Lorde e da mãe desaparecida) ao redor dessa reforma no sistema inglês que abrirá a possibilidade de votos para uma série de minorias não representadas. Mycroft Holmes, por exemplo, enxerga a mudança como dar a possibilidade de votos para gente inferior, assim como a motivação de um vilão surpresa é impedir a votação “pela Inglaterra”.

Em outro momento, o próprio Sherlock Holmes precisa tomar um choque de realidade e colocar em questão seus privilégios ao repetir sua máxima de “não ligar para política”. Falando no detetive, Cavill pouco se esforça para compor o personagem, então, definitivamente esse não será um daqueles seus trabalhos a serem lembrados longe do Superman (como no último Missão Impossível ou em O Agente da UNCLE).

Por outro lado, Millie Bobby Brown acerta em uma personagem que tem pouco a oferecer como construção, mas que sua simpatia e leveza são mais que suficientes para fazerem a personagem funcionar e o filme ganhar uma protagonista à altura de seus esforços.

Esse esforço é claramente o de se tornar o primeiro capítulo de uma franquia que, com certeza, ainda tem muita a oferecer. Principalmente, pois esse primeiro Enola Holmes é um passatempo teen que funciona, tanto no mistério simples de acompanhar, quanto nas referências às obras de Conan Doyle, como, obviamente, na vontade de discutir a luta entre quem defende “o que é”, mesmo que isso ignore “o que pode ser”.

E Enola Holmes pode ser sim uma versão para o século 21 do maior detetive da história da cultura mundial, se não para quem já está acostumado com o personagem, com certeza para quem entender que novas gerações também precisam de uma garota forte para servir de inspiração, e não só um cara sozinho, paranoico (e viciado em “drogas leves”), sem traquejos sociais e que fica por aí observando as pessoas como se fosse um maluco.


“Enola Holmes” (UK, 2020); escrito por Jack Thorne, a partir do livro de Nancy Springer; dirigido por Harry Bradbeer; com Millie Bobby Brown, Henry Cavill, Sam Claflin, Helena Bonham Carter e Louis Partridge


Trailer do Filme: Enola Holmes

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