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Encontros, Sonhos e Realizações

É interessante que muitas vezes o cinema (no sentido de sétima arte mesmo) nem precise ser propriamente bom em termos técnicos para fazer a diferença. Não que isso permita que algum filme ruim por ai mude a vida de alguém, mas que exemplos como Encontros, Sonhos e Realizações nem precisem ser cinema para mostrar à que veio ao mundo.

Em poucos palavras Encontros, Sonhos e Realizações nem parece realmente um documentário, mas sim um vídeo institucional grande demais para ser um curta (ou um comercial, ou um vídeo institucional comum), mas com olhar desviado demais da sétima arte para ser um filme propriamente dito. Pouco menos de uma hora, sem cara de ter um roteiro anterior ao começo de suas filmagens, sem entrevistas com fontes (só personagens) e sem a preocupação estética de quem poderia sobreviver a uma sala de exibição.

E se isso o descarecteriza de ser um filme, por outro lado (um que talvez seja mais importante, até) resulta em um exercício sensível e um retrato verdadeiro de que fora desse mundo que está diante de seus olhos, existe não só um cenário que precisa se equilibrar sobre palafitas, ruas sem asfalto e um sistema de água que percorre um punhado de mangueiras à vista, como pessoas que só precisam de uma coisa para que suas vidas se transformem: um sonho.

Encontros, Sonhos e Realizações é na verdade um relato subjetivo sobre um programa chamado Guerreiro sem Armas (que faz parte do Instituto Elos, e nesse caso, uma ótima dica é dar uma visitado no site deles). O “GSA” (como o site se recorre a ele) faz um lindíssimo trabalho em comunidades carentes da Baixada Santista com a ajuda de jovens de vários países do mundo que, apoiados por essa Filosofia Elos, fazem os próprios moradores desses locais descobrirem que podem mudar suas próprias vidas e cenários.

A “matemática” é simples: descobrir as qualidades e habilidades desses moradores e então empurrá-los na direção certa para que um sonho em comum da comunidade possa se realizar. E ai entra em cena o grande acerto de Encontros, Sonhos e Realizações, já que o espectador tem a oportunidade de ver esse sonho acontecer. E sim, isso vale a experiência, ainda que pouco cinematográfica.

Por trás da câmera de Eliza Capai e Patrick Vanier, é fácil sentir a emoção desses jovens, e mesmo que não pare muito para enumerar “a tal filosofia” (o que tornaria o filme “menos filme” ainda), faz questão de passar por todos esses estágios (de modo atrapalhado e meio complicado, mas tremendamente honesto e verdadeiro) e, no final das contas, fazer o espectador entender perfeitamente tudo que viu. Uma lição de vida que passa por cima de qualquer escorregão.

E por mais que Capai e Vanier tentem criar um diálogo com uma linguagem de montagem (nesse caso edição), colocando de lado o começo pobre que olha para as mazelas enquanto aos poucos encontra a esperança e a impressão de que é preciso fechar os olhos e pensar nas qualidades do próximo para encontrar o “tal sonho”, nem percebe que seu filme pouco precisa disso para ser o que realmente é: Inspiração pura e simples.

Justamente por isso que no parágrafo anterior a palavra “filme” vinha sem aspas, por que se em algum momento Encontros, Sonhos e Realizações não se decide entre cinema ou institucional, também deixa soar a certeza de que tem um potencial enorme não só para convencer as pessoas próximas do que podem fazer para ajudar o próximo, mas, mais ainda do que isso, fazer a mesma diferença para um público maior. Basta um ou outro ajuste, meia dúzia de cenas mais estendidas e a mesma veracidade e honestidade que marca esse corte inicial, e o que vier em seguida continuará marcando profundamente cada um que der de frente com ele.


Idem (Bra, 2012) escrito e dirigido por Eliza Capai e Patrick Vanier


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