Editorial | Honestamente, não é a hora de não dar a mínima


É uma pena que precisemos renegar o nosso passado para conseguirmos entende-lo. Em meio a uma situação de selvageria e violência, onde as vidas negras precisam sair às ruas para demonstrarem que importam, ver E O Vento Levou ser retirado do catálogo do novo serviço de streaming da Warner, o HBO Max, por falta de “contexto histórico” é aceitar a falência da sociedade.

O pior disso tudo é que, talvez, ela não esteja errada. Em um mundo de hoje, acreditar que uma grande e perigosa parte da população que consumiria o filme não entenderia o contexto histórico de E O Vendo Levou não é nada surpreendente. Mas talvez o problema possa não ser esse. Talvez a vergonha seja um combustível mais amargo.

O maior problema de E O Vento Levou não está em mostrar como era os Estados Unidos escravista em 1860 e poucos, mas sim esfregar na cara de mais uma geração que, quase 80 anos depois do fim da escravidão, ainda era normatizado celebrar um racismo nada velado em uma obra cinematográfica. O problema maior é E O Vento Levou mostrar 1939.

Umas das funções do cinema, além de contar uma história, é ser um reflexo da época onde ele foi produzido. Como um espelho onde a imagem, muitas vezes, não é a melhor de se enxergar. E O Vento Levou é um dos maiores filmes que o cinema já produziu, revolucionou o cinema, tanto em termo técnicos, quanto narrativos. Ignorar o tom menos adequado de encarar a guerra através dos olhos do Sul pode ser um perigo que coloca em risco tudo aquilo que foi feito depois.

É preciso entender o contexto histórico, não ignorar. Entender que os erros de E O Vento Levou não são reforçados pelo mundo ao seu redor, mas sim fazem parte desse mundo, é um detalhe importante para entender esse passado e todos outros que estiveram antes ou depois dele.

Não existia questionamento minimamente contundente do alto grau de segregacionismo nos Estados Unidos que lançaram nos cinemas E O Vento Levou. Qualquer mensagem contida ali não deve ter sido discutida na época por nenhuma voz em qualquer fatia da sociedade, pelo menos não naqueles relevantes. E se um negro gritasse aos quatro cantos sobre essa questão, com certeza não seria escutado, talvez sequer teria conseguido ver o filme, e se conseguido, o teria feito em um cinema “só para pessoas de cor”.

Talvez eu não tenha certeza e não deveria generalizar essa parte da segregação nos cinemas, mas se você levar em conta que somente em 1953 a Suprema Corte dos Estados Unidos deu um parecer favorável a uma questão que liberava a população negra a frequentar cinema, teatros e restaurantes na capital Washington, muito provavelmente não é um esforço tão grande imaginar que o cenário geral não é tão longe daquele que eu apontei no parágrafo interior.

Saber disso é importante para qualquer um que for ver qualquer filme da época, não só E O Vento Levou. Na verdade, a proximidade dessa segregação com os dias de hoje é algo que deveria ser de conhecimento de qualquer um que resolvesse ver qualquer tipo de filme de qualquer época.

O racismo do cinema de hoje é apenas um passo além nesse caminho que começou bem antes de E O Vento Levou. Se hoje é mais fácil enxergar um grande ator negro no topo de um cartaz ou um diretor negro sentado nas primeiras fileiras do Oscar, essa realidade é apenas uma distorção de um cinema que não está tão longe daquela segregação de 80 anos atrás

A distância entre o lançamento de E O Vento Levou e o fim da Guerra Civil americana é a mesma entre sua estreia e os dias de hoje. O Sul não é mais celebrado como um herói injustiçado no cinema, mas o preconceito, o bom e velho racismo, continua o mesmo, agora entranhado nos corredores de Hollywood, fugindo dos olhares que não estão acostumados a enxergar além do branco.

Em um momento tão delicado e importante para os Estados Unidos e para o mundo, tirar E O Vento Levou do catálogo beira o revisionismo. O filme ganhou oitos Oscars e até hoje é uma das maiores bilheterias da história, é impossível ignorá-lo. Melhor ainda, é perigoso ignorá-lo. Já que ninguém quer que os mesmos erros continuem sendo cometidos.

Os chefões da HBO Max assumem que o filme irá voltar ao catálogo, mas com uma “discussão de seu contexto histórico”. Oitenta anos depois ela ainda não aconteceu, e ao invés de correr para fazê-la agora, o melhor é tirar da vista das pessoas um dos maiores filmes que o cinema já produziu. Sua imensa popularidade seria o campo de batalha perfeito para que o assunto fosse prontamente discutido.

E O Vento Levou precisa ser discutido, tanto pela comunidade negra, quanto pelos especialistas e profissionais da área. De quaisquer cores que eles sejam, já que todos precisam entender muito bem não só o “contexto histórico”, mas o quanto ele próprio ajudou a construir nesse contexto histórico. O quanto ele ajudou a estruturar um pouquinho desse racismo que move as ruas dos Estados Unidos. E O Vento Levou não precisa de um contexto para ser entendido, ele faz parte dele, só talvez ainda estivesse sendo ignorado.

Vinte e quatro anos antes de E O Vento Levou, O Nascimento de um Nação, de D.W. Griffith mudou completamente a história do cinema. Se por um “segundo” o filme não teve seus detalhes pouco sutis discutidos, não demorou muito para ele se tornar, não só um dos maiores clássicos da Sétima Arte, como também “aquele filme onde a Ku Klux Klan era a heroína do filme”. Seu lado “pouco simpático” sempre foi discutido e exposto, sua estreia foi cercada de polêmica e protestos. Ignorar isso tudo seria o mesmo que deixar com que todo esse esforço fosse esquecido.

E O Vento Levou não deveria estar fora do catálogo, qualquer obra de arte precisa ser revista e rediscutida, o tempo deve ser sempre um argumento forte o suficiente para mudar visões a abrir novas portas. Tirar o filme do alcance das pessoas é o mesmo que impedir que tudo isso seja feito. Que a HBO Max bancasse um documentário esmiuçando E O Vento Levou através da visão de profissionais negros, ou até um simples disclaimer antes da exibição.

Muito provavelmente, só o anuncio oficial desse esforço já levasse os profissionais da área a escreverem textos e gravarem vídeos e podcasts falando sobre o assunto. E O Vento Levou e toda sua polêmica ganharia a atenção necessária. Aceitar a falência da sociedade é mais fácil do que parece, basta parar de discutir seus erros do passado e aceitar o presente do jeito que ele é, mesmo falho, selvagem e violento.

Se “honestamente, querida” Rhett Butler “não deu a mínima”, oitenta anos depois, hoje, ninguém pode se dar a esse luxo e encarar os problemas é o único jeito de entendermos o mundo e voltarmos a descobrir o cinema como reflexo de cada realidade, por mais amarga que ela seja.

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