Editorial: Globo do que? ….De Ouro? ….É o da música?

Ontem a noite aconteceu o Globo de Ouro 2015, e se você não ficou sabendo é porque, realmente a premiação nunca esteve tão relegada a um segundo plano quanto ela parece se encontrar nesse últimos tempos. Ok, os vencedores foram celebrados, e ele continua sendo chamado de “termômetro do Oscar”, mas a grande verdade é que o mundo andou e deixou a premiação dos Jornalistas Estrangeiros um pouco de lado.

E talvez o grande culpado disso sejam eles mesmos (os jornalistas e a própria premiação). Sua cerimônia é chata e burocrática, não tem glamour, não tem palcos enormes, palmas, números musicais e todo aquele mise-en-cene que separa o Oscar de todos prêmios dos sindicatos. Pior ainda é uma pressa que parece envolver todo a cerimônia, como se o teatro fosse alugado e tivesse hora para ser entregue. Nem em uma igreja entulhada de cerimônias no mesmo dia essa correria fica tão na cara.

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Isso, em uma cerimônia que não faz nada a não ser premiar. As apresentadoras Tina Fey e Amy Pohler, em seu terceiro ano seguido, até tiveram seu quase dez minutos de abertura, mas o que vem depois é uma série de inserções curtas demais e pouco inspiradas, muito provavelmente pela falta de tempo. Ou pela falta de graça.

É lógico que grande parte desse desinteresse geral pode ser que tenha vindo com as várias e várias acusações de (na melhor das palavras) suborno dos “jornalistas estrangeiros” pelos estúdios. Com todos presentinhos, jantares e mais um monte de situações pouco éticas da parte de quem vai votar nesse ou naquele filme. Mas talvez isso só tenha diminuído seu interesse para aqueles que estão “por dentro” das fofocas, o público geral simplesmente não se interessa mais pelo Globo de Ouro. Se é que um dia se interessou.

Talvez um dia tenha, ou a TNT não teria apostado na transmissão por tantos anos seguidos, mas talvez também seja um interesse passageiro e bem menos “interessado” do que parece. E esses, muito provavelmente, irão pegar no sono no meio da cerimônia. Afinal, depois do tapete vermelho e do discurso de abertura sobra bem pouco para se interessar.

Lógico, esse pouco é o cinema, mas é difícil se manter interessado com blocos inteiros de casais citando os indicados e vencedores subindo ao palco por uma escadinha anexa que mais parecia uma chegada pelos bastidores, para discursos apressados e desinteressantes. Falta a música, falta a subida pela frente do palco, falta uma direção de imagem mais habilidosa. Falta emoção.

E tudo fica pior ainda se você for um fã de séries de TV. Ainda que essas nunca estivessem em um momento tão importante em termos de qualidade, no Globo de Ouro elas continuam coadjuvante de luxo do cinema. Ali no cantinho entre uma categoria ou outra sobe alguém da TV. “Mas sejam rápidos”, ainda que seja o Kevin Spacey!

Nesse caso, fora ainda o desleixo cerimonia, o que sobra são reclamações das escolhas e uma necessidade desesperada de coroar uma nova série com o selo “Ganhadora do Globo de Ouro”. Então se você está em uma segunda, terceira ou sei lá qual temporada, aproveite o jantar enquanto vê aquele monte de gente que você não conhece subindo para receber os prêmios.

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Ok, isso foi um exagero, todo mundo conhece a maioria dos premiados, ainda que, muito provavelmente, não tenham visto sequer um episódio de suas séries.

No caso do cinema isso acaba sendo mais difícil de acontecer, mas nem por isso é bom esperar razão nas escolhas do Globo de Ouro. A começar pela sempre esquisita separação entre drama e “musical e comédia”. Será que em 2015 ainda há gente que separa bons filmes assim? E será que eles não percebem que musical e comédia são coisas distintas demais para serem comparadas?

“Isso dá chance de premiar comédias”, já que é fácil ver por ai gente ainda apontando que o gênero é relegado no Oscar (não é! Ainda mais com possibilidade de 10 indicações de Melhor Filme), mas a grande verdade é que com isso a única coisa que acontece é uma enorme diminuição de importância do gênero. Pensando em importância, ontem O Grande Hotel Budapeste levou “Melhor Comédia ou Musical” uns dois comerciais antes de Boyhood levar “Melhor Drama”. E para quem entende minimamente de TV sabe que a distância é enorme.

Pior ainda para Birdman, que mesmo com toda dinâmica e esforço narrativo do diretor Alexandro Gonzalez Iñárritu, viu seu filme perder após levar para a casa o Globo de Ouro de Melhor Diretor (e seu protagonista, Michael Keaton, o de Melhor Ator, mas como é “musical ou comédia”, então é segundo escalão….). Com isso, o filme do melhor diretor e do melhor ator não concorria na categoria mais importante da noite. Isso por que lá no final do programa são só os “filmes sérios”.

Birdman

Pior que o Oscar de Argo e a ausência de Ben Affleck a uns anos atrás, o que acontece no Globo de Ouro é uma repetição de um esquema que premia, mas não homenageia. Não celebra o cinema, mas sim só quer mostrar ao mundo que existe. Que tem seu lugar cativo na temporada de premiações. Que tem um tapete vermelho disputado. Mas também que se deixa expor em suas fraquezas, em sua falta de evolução de tentar entender melhor o que é o cinema e como celebrar essa arte do jeito mais correto possível.

Diferente dos sindicatos e associações, o Globo de Ouro já passou do tempo de perceber que precisa ser uma grande festa. Precisa voltar a colocar os pés nos chão e lembrar que não é um “termômetro do Oscar”, e nem pautam nada a não ser o seu dia-a-dia. Ninguém irá mais se surpreender se Boyhood, O Grande Hotel Budapeste ou Birdman nem sequer sejam lembrados no Oscar por eles terem “ganhado” o Globo de Ouro. O mesmo para seus muitos indicados em drama ou “musical ou comédia”. A surpresa vem, justamente, das diferenças nas premiações dos sindicatos e associações (onde os mesmos elegiveis votam neles e no Oscar).

Já passou da hora do Globo de Ouro lembrar que é um associação de jornalistas especializados em cinema, e se isso sempre quis dizer indicar e premiar o filme que achava melhor e não aquele que ganhará o Oscar, que volte então a esses bons tempos e, quem sabe, com isso volte o interesse.

PS: Em algum momento da cerimônia George Clooney foi homenageado com o prêmio Cecil B. DeMille por sua obra, uma tentativa óbvia de aproximar um público a mais para a festa. Mas ignorar completamente sua presença em A Volta dos Tomates Assassinos e seu sucesso de bilheteria Batman e Robin não me permite discutir muito mais que essas poucas linhas sobre esse assunto.