Editorial – Feliz Aniversário Mr. Brown!

Lembro como hoje do dia que entrei em uma locadora em algum momento do ano de 1993 e o dono me estendeu uma pasta com um monte de capas de filme dentro de plásticos, como o fichário de um cinéfilo. Duas décadas atrás isso se chamava pirataria, a locadora, muito provavelmente, poderia até ser fechada por isso, mas era o único jeito de não ficar esperando anos e anos pela chegada oficial de um ou outro filme.

Na capa daquele filme um homem apontava uma arma para um outro deitado no chão. O que estava em pé eu reconhecia de algum lugar (era Harvey Keitel, e hoje acho que essa lembrança vinha de Thelma & Louise), o nome do filme também, Cães de Aluguel, tinha visto o trailer antes de um outro filme, e o estalo que tinha dado era o que aquele nome teria a ver com aquele monte de gente vestida de terno preto, atirando um nos outros e conversando.

A fita (isso mesmo criançada, fita!) foi então para minha casa em meio a mais um monte de outras que não faço a mínima ideia quais fossem (e talvez invente um dia uma história para cada uma deles, assim como estou fazendo com essa…). Mais um fim de semana cheio de filmes, mas que se tornou naquele em que descobri que um filme não precisava ser só um filme.

Muito provavelmente antes daquilo eu até tivesse visto um batalhão de filmes que já poderia ser considerados obras primas, mas era só ali, com aquele roubo de uma joalheria dando completamente errado que eu percebia que nada tinha a necessidade de ser apenas uma coisa. Um filme de ação não precisava ser só de ação, assim como um policial não precisava ser apenas sobre mocinhos e bandidos e muito menos like a Virgin, da Madonna, poderia ser entendida de um único jeito.

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Tudo em Cães de Aluguel era pop e novo. Tudo ali ficava para a posteridade de uma geração que já se arrastava por meio de um monte de filmes de ação vazios e suas continuações. Tudo ali era violentamente real demais, com personagens morrendo se ferindo e discutindo como se não houvesse ordem em um caos magneticamente delicioso. Era impossível tirar os olhos do primeiro filme desse tal de Quentin Tarantino.

Era impossível acreditar que todas aquelas reviravoltas e surpresas aconteciam em um único filme de 99 minutos. Nada era linear, ninguém era mocinho ou bandido, ninguém parecia estar “dentro de um filme”. Ninguém acabava vivo. Na mente de um garoto de 13 anos, um mundo onde nada precisava fazer sentido dentro daqueles clichês que cresceu vendo no cinema. Um muno que, mais importante que tudo isso, fazia sentido na cabeça desse Quentin Tarantino (que nos créditos finais descobri ser o próprio Mr. Brown, e lógico, depois disso devo ter contado para todo mundo como se fosse uma descoberta científica).

No final, rebobinei a fita, mas até hoje chamo Michael Madsen de Mr. Blonde, tenho pavor e aflição quando escuto Stuck in The Middle With You (do Steelers Wheel … “K-billy Super sounds of the 70’s”), torço para não encontrar uma dupla de policiais e um cachorro dentro de um banheiro qualquer, acho que o Mr. Pink conseguiu fugir no final das contas e não tenho dúvidas que Mr. White (Keitel) é um dos maiores heróis da filmografia desse tal de Tarantino.

Meu caso de amor do Quentin Tarantino continuo ainda nesse mesmo ano quanto vi Amor a Queima-roupa (nesse momento já sabia que o filme tinha sido escrito por ele) em uma outra ida à locadora, e logo depois quando entrei no cinema para ver Pulp Fiction. Mas isso pode ficar para um outro texto, talvez ano que vem, quando o diretor fizer 51 anos.

Por enquanto, parabéns Mr. Brown, feliz aniversário!

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