Editorial de segunda #09

por Vinicius carlos Vieira em 23 de maio de 2011

Se existe um plano astral onde os gênios daqui ganham um lugar especial quando passam para o outro lado, provavelmente exista uma sessão só para a Sétima Arte, como uma Academia de Imortais (nesse caso, mais do que nunca). Lá sentando está, com certeza, um senhor inglês baixinho e bonachão, sempre de terno escuro, talvez ainda tratando seu elenco “como gado” (já que muitos deles devam estar fazendo companhia para ele).

Esse mesmo senhor, quando em vida, sempre defendeu duas coisas (entre muitas outras, mas vamos nos ater a essas): o absurdo e o bom humor. Segundo ele, sem essas duas pitadas, o cinema se tornaria um exercício chato.

Sem o absurdo, mais da metade de seus filmes simplesmente não funcionariam, suas tramas cairiam por terra em seus inícios, e todas coincidências que criam o suspense perderiam o sentido. O bom humor, por sua vez, não está lá para arrancar risadas, mas para criar esse laço irônico com que certos momentos do cinema deliciam o espectador.

Psicose
impossível medir as probabilidades desse encontro

O “bom humor e o absurdo” é o que levam a coitada da Janet Leigh ao Bates Motel, contra todas expectativas do público (o mesmo bom humor que brinca com a existência da mãe no andar de cima da mansão). Assim como toda imensa maioria de personagens que, nas mãos desse senhor, foram confundidos com espiões, deram de cara com vilões em momentos errados, escutaram confissões do assassinato da única pessoa no mundo que ele tinha razões para matar e assim por diante. Por mais absurdo que tudo isso possa parecer.

É lógico que esse senhor não está lá nesse Olimpo de graça, muito disso é resultado do modo de embrulhar tudo em uma embalagem que não deixasse ninguém perceber o quanto aquilo tudo era uma enorme e divertida brincadeira.

No outro lado da equação, os defensores do real (profissão que parece mais do que nunca em voga nos últimos tempos) continuam não só preocupados com isso, mas ainda com o relógio na corrida de bigas, a gravata que muda de cor, o copo que esvazia e enche ou o cigarro que acaba antes da hora, assim como acabam perdendo a oportunidade de se divertir.

Que seja legal que esse ou aquele filme siga à risca toda realidade geográfica, geopolítica, econômica, lingüística (e qualquer outra que venha no pacote), na hora de contar sua história, mas realmente, até onde isso importa de verdade? Até onde, no cinema, não é permitido uma ou outra liberdade poética para o “bem geral da nação”? Até onde o espectador está preparado para relaxar e apenas curtir aquilo, por mais absurdas que sejam suas coincidências, ou mais mentirosas sejam suas conclusões?

O ser humano acaba então se privando de se divertir com aquilo que está sendo proposto, dado de presente para ele, para procurar problemas, erros e discussões bobas que só servem para levantar outras discussões sem a mínima razão de ser (que fique claro que eu só estou falando de cinema).

No Brasil, isso ainda toma proporções estratosfericamente ufanistas quando o país citado em sequer uma linha de diálogo, quanto mais quando e a ação se passa inteiramente por aqui.

Nevasca 1887
Nevasca de 1887 que atingiu NY, já cheia de prédios.

Seria fácil, porém, imaginar o quanto esses mesmos detratores do absurdo ficariam decepcionados se descobrissem que, por exemplo, nos Estados Unidos, durante o fim do século IXX metade do país não era velho oeste (justamente, o leste) e que, enquanto Clint Eastwood sacava seu revólver, Nova York (leia-se a ilha de Manhattan) já pulsava com prédios, trânsito de pessoas, política e, diga-mos assim, um mundo moderno. Uma contrapartida que, sem dúvida nenhuma, sempre foi muito menos emocionante que aqueles duelos sob o sol.

Assim como na Rússia, nem todo mundo é comunista, ex-agente da KGB ou mercador de armas.

A realidade já existe, quem estiver a sua procura, dê um passo para fora de sua casa sente em um banco de alguma praça e fique esperando pela ação. Com sorte, talvez, você veja uma emocionante perseguição de carros entre policiais e bandidos, só não se decepcione se, caso ela acontecer, seja com dois carros flex, que o policial no volante seja barrigudo e o bandido pareça desnutrido sob a camisa de seu time do coração.

Se por definição o cinema é uma janela para um outro mundo, o que adiantaria (caso a idéia do filme fosse extrapolar esse real!) abrir essa janela e dar de cara com esses carros andando a 90 km/h? Ou desperdiçar um inventivo roubo a um trem, com um final visualmente interessante envolvendo um enorme precipício, só por que “não existe um deserto lá”? O cinema está lá para isso, para dar de presente ao seu espectador esse deserto, esses carros turbinados e esses policiais e bandidos fortões e cheios de marra (ou alguém também acha que o famigerado Billy “The Kid” era simpático como o Emilio Estevez ou o Jesse James era boa pinta como o Brad Pitt, e alguém se vestia como o John Wayne no velho oeste?).

Jesse James, "The Kid"
2 Jesse James e 2 Billys

Em um mundo chato, o cinema tem a função de distorcer essa realidade para contar sua história, moldar esse mundo ao seu bel prazer, não ligar para o absurdo da situação, dar as costas quando precisar rasgar com essas convicções e não olhar para trás.

Independence Day não é menos divertido por todos uniformes militares do filme terem sido criados completamente errados (cores, insígnias etc.), nem Cidade de Deus em algum momento foi criticado por verticalizar o conjunto habitacional carioca assim que ele se torna a favela do título (já que seria impossível aquelas casas do começo subirem um morro na segunda parte do filme). Do mesmo jeito, a horrorosa representação do carnaval em Rio (assim como aquele aeroporto de filme de ação envolvendo traficante) tire qualquer mérito lúdico da animação.

Reclamar que Velozes e Furiosos 5 deu de presente ao Rio de Janeiro, um deserto e um monte de carros cheios de estilo para a polícia, é, talvez, um mecanismo de defesa que impede certas pessoas de, simplesmente, falarem em público que gostaram de um filme como esse: bobo, raso, cheio de clichês, embrulhado por um monte de mentiras, mas que, em momento algum (tanto nesse como em todos outros quatro) quis tentar ser algo que não só isso mesmo.

Então fica a pergunta: esbarraria na hipocrisia criticar Michael Bay  por trazer robôs do espaço em Transformers, ou esperar carros 1.0 em um filme da franquia Velozes e Furiosos, onde quer que a ação se passe?

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