Editorial de segunda #07 (People´s Choice Awards)

Por Vinicius Carlos Vieira em 06 de Janeiro de 2011

Não que se deva acreditar cegamente no que a crítica especializada tem a dizer sobre esse ou aquele filme, tentar olhá-la como a formadora de opinião que ela é, sim, mas nunca como essa dona de uma verdade indefectível. Talvez o melhor seja aproveitar dela para ganhar conteúdo para sua próxima experiência naquela sala escura de frente para aquela tela enorme.

E enquanto essa fantasia enviada por um projetor às suas costas é o resultado do trabalho de um monte de profissionais que, por bem ou por mal, se esforçaram nesse objetivo comum, analisar esse trabalho pode se tornar uma tarefa pouco prazerosa, tanto para a parte que o faz (que tem que perceber a responsabilidade de seus atos) quanto para a parte analisada (que se faz obrigada a ver seus defeitos esfregados na cara do mundo). Mas esse é um preço que deve ser pago.

Tudo fica mais à flor da pele ainda quando um festival qualquer anuncia seus vencedores, por meio de seu júri (de profissionais convidados). Aqueles filmes que poderão carregar os louros daquela marca por toda sua eternidade, “Premiado com o Urso de Ouro em Berlim”, “Palma de Ouro em Cannes”. Nesse mesmo momento os “defensores do cinema” apontam suas armas para esse ou aquele filme que deveria ter levado o prêmio, mas ainda sim nada se compara às grandes premiações, e todo ano é a mesma coisa.

Os prêmios da Academia (Oscars) são escolhidos (obviamente), pelos membros dessa mesma, pessoas que (de modo igualmente óbvio) tem sua ligação com os sindicatos de suas profissões (todos Guildes que tanto aparecem por esses tempos), que por sua vez distribuem seus prêmios para os melhores do ano e, conseqüentemente, são sim, um termômetro para quem vai levar aquele careca dourado para casa no final da festa no Kodak Theatre em Los Angeles. Uma verdadeira festa entre amigos.

Do outro lado da moeda, os “temíveis críticos” se juntam em seus momentos de glória para presentear os melhores do ano por meio de suas “Associações de Críticos” espalhadas pelos Estados Unidos e culminando no Globo de Ouro, onde a crítica estrangeira de Los Angeles deixa seus homenageados terem uma última oportunidade de brincar de “tapete vermelho” antes do Oscar.

Falem o que quiser, em nenhum desses três momentos quem está do lado de cá sai perdendo ao se deixarem usar esses “rótulos” na hora de escolher o próximo filme a ser visto. É lógico que muita gente pode torcer o nariz para essa ou aquela escolha, mas quase nunca conseguem negar suas qualidades. Mas toda essa minha enrolação era para chegar aqui, na verdade, na noite de ontem no famoso Shrine Auditorium na mesma Los Angeles citada logo acima. No People´s Choice Awards.

A premiação, que nasceu em 1975 no canal de TV americano CBS, e a partir dos anos 80 foi comprada pela Procter & Gamble (corporação dona de marcas como Gillete, Oral B, Duracell e Pringles entre outras)* e pelo criador do “Survivor” (nosso “No Limite”)** Mark Burnett, sempre teve o objetivo principal de dar ao público aquilo que ele quer: premiar os melhores da indústria do entretenimento por uma votação de seus fãs. E é ai que começa a ressaca.

Não que essas escolhas influenciem em algo toda temporada de premiações do cinema, não o fazendo nem de perto disso (por sorte da sétima arte), mas ainda assim é difícil digerir os noticiários do dia seguinte ilustrando essas pessoas sorridentes com pequenas estátuas levantadas ao céu por trabalhos que, muitas vezes (mas muitas mesmo), não são absolutamente nada dignos desses momentos de homenagens. A opinião daquele que faz, realmente, toda essa indústria funcionar de forma azeitada e milionária (seu público), quase sempre acaba mostrando que o discernimento não é uma de suas qualidades.

É lógico que, como o assunto aqui não é nada a não ser o cinema em si, discutir todas outras premiações musicais e de TV (séries) do People´s Choice Award, que essas mesmas pessoas elegeram por votação aberta na internet, seria um despropósito irresponsável. Pois então vamos aos fatos, sem precisar nem ir muito longe.

Primeiro de tudo, os indicados. Depois de uma matemática esquisita entre os produtores do evento e alguns fãs selecionados chegasse então a um número de indicados que quase sempre já antecedem a dor de cabeça.

Em 2007, “Piratas do Caribe: O Baú da Morte” levou ao prêmio (de drama) ao ter mais votos que o horroroso “Código da Vinci” e o terceiro “X-Men” (claramente o mais fraco da franquia). Coincidentemente, ou não, três das cinco maiores bilheterias do ano pregresso. Das outras duas, “Carros” ainda foi lembrado como Melhor Filme Família e “Noite no Museu”, que é tão ruim quanto “Click”, que ganhou de comédia (coisa que já faria merecedor de menção), não foi nem lembrado.

Não que isso coloque em prova a discussão bilheteria Vs qualidade (até por que “Carros” é um ótimo filme, ainda levou o Globo de Ouro e foi indicado ao Oscar), mas sim, mostra que talvez possibilitar que o público em geral premie seus filmes preferidos apenas serve como masturbação ideológica dos números das bilheterias (como aconteceu no Brasil na “escolha aberta” para indicado ao Oscar). Nesse mesmo ano a imprensa estrangeira deu seu prêmio de drama para “Babel”, que tinha fechado o ano a oito lugares da centésima maior bilheteria (isso mesmo, número 92), enquanto a Academia deu sua estatueta para “Os Infiltrados”, que vendeu mais, mas ainda assim, só ficou em décimo quinto.

É lógico que ninguém do People´s Choice é bobo nem nada e suas categorias premiam “os favoritos”, se eximindo de qualquer peso em relação às suas qualidades, mas ainda assim apontam quase sempre reflexos errôneos do afã desses momentos cinematográficos. Em 2008 tudo fica mais “carta branca” ainda quando os mesmos prêmios passam esquartejar tudo em filmes favoritos de drama, ação, comédia, família, trilogia e independente. Espaço suficiente para todas grandes bilheterias serem lembradas.

Por outro lado, porém, 2009 faz jus a “Batman – Cavaleiro das Trevas”, ignorado pelas “premiações sérias”. Talvez aí a exceção à regra, que a faz tão cruel.

E por fim chegamos em 2011, ontem, que, do mesmo jeito que no ano passado, fez então suas homenagens à “Saga Crepúsculo” com até a heroína Kirsten Stewart ganhando por sua atuação (melhor atriz?) em “Eclipse”. No mesmo ritmo, o People´s Choice, ainda deu seus prêmios para os “favoritos” Johnny Depp (que parece dar as caras todo ano, dessa vez como melhor ator, mesmo em um ano fraco e caricato com sua interpretação do Chapeleiro Maluco) e “Homem de Ferro 2” (Filme de Ação), assim como Jackie Chan (Ator de Ação, “Karate Kid”) e “Toy Story 3” (no tal Filme Família, esse sim um acerto indiscutível).

Por fim, e completamente menos importante, Adam Sandler inda levou como Estrela de Comédia e seu filme, fraco e sem graça, “Gente Grande”, como Comédia. E, se e é que dá para ficar pior ainda, Zac Effron foi lembrado como Estrela Favorita com Menos de 25 Anos (categoria digna de MTV Movie Awards) e o remake de “A Hora do Pesadelo” como Terror.

Entre trancos e barrancos, uma noite de premiações que, com certeza, não agrada nem o mais otimista dos cinéfilos e que serve (com mais certeza ainda) para mostrar que, às vezes, reclamar das escolhas do Globo de Ouro desse ano, do Oscar para “Guerra ao Terror”, de “Lugar Qualquer”, de Sofia Coppola, ganhando em Veneza o Leão de Ouro das mãos de seu ex-namorado (e presidente júri) Quentin Tarantino e de todas essas inúmeras outras “injustiças” que dão as caras todo ano, seja bem exagerado diante de onde tudo poderia chegar em mãos erradas.

*todas essas marcas são de propriedade da Procoter & Gamble e ninguém está me pagando nada par ser citado nesse artigo, por mais que eu não negasse caso elas achassem interessante.

**também não recebi nada de nenhum dos dois.

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