Editorial de Segunda #02

Resenha X Crítica

por Vinicius Carlos Vieira

A não muito tempo atrás me perguntaram qual era a diferença entre a resenha e a crítica, sem pensar muito sobre o assunto, fui direto até o lugar comum da opinião, já que a primeira acaba servindo muito mais como uma espécie de resumo do que se viu na tela do que, como a segunda, um exercício de entendimento daquilo que foi visto, uma analise aprofundada daquilo. Isso em um primeiro momento.

Na verdade, uma pesquisa pela internet acabou me dizendo a mesma coisa, tanto no significado das palavras quando no sentido prático, as opiniões pareciam ser sempre as mesmas, o que acabou me deixando um pouco preocupado, já que, se toda unanimidade é burra, em termos virtuais isso alcança proporções estratosféricas, já que, geralmente, essa tal de unanimidade não parece caber nessa grande rede mundial. E mesmo tendo certeza das minhas convicções acabei tentando me embrenhar um pouco mais nesse mundo digital.

Logo de cara, acabei dando de cara mais uma vez com o óbvio, que em se tratando de crítica, a grande maioria do mundo segue aquela mesma escola jornalística que o Brasil parece fazer questão de se afastar: a literária. Aquele que a gente, por aqui, parece aprender na faculdade a não fazer, já que somos sempre cobrados de uma imparcialidade onipresente, que fica linda nas idéias, mas impossível no papel (ou tela do computador, para ser mais contemporâneo), e que tem que ser afastada instantaneamente quando se decide seguir para uma carreira de crítico de alguma coisa, já que um crítico imparcial é apenas um paradoxo ambulante.

O problema é que, no resto do mundo, principalmente nos Estados Unidos, a imprensa não só parece mais a vontade com suas opiniões, como ela está realmente livre dessas amarras da imparcialidade, justamente por isso que, na terra do cinema, resenha é coisa de Wikipédia e capinha de DVD. Para que ver aquele filme e contá-lo de cabo a rabo sem transmitir o que acha de tudo aquilo? É nesse momento que é preciso voltar ao Brasil e ver a situação com mais clareza.

Além do jornalismo estático e engessado por pirâmides invertidas e leads (nada contra, mas é preciso saber quando fugir dessas armadilhas), o que sobra, quando o assunto é cinema, são alguns poucos profissionais concretizados, mais uma pequena parcela de pessoas que galgam um espaço nesse meio e uma imensa maioria de “gênios” prontos a contarem suas experiências, não só na internet (que pode se considerado o caminha mais fácil), como em diversos outros meios.

É claro que focar esse resumo do que o filme trás não é nenhum crime e se torna uma ferramenta válida para o leitor na hora de escolher o que ver nos cinemas ou levar da locadora, uma idéia robótica. Um “Quem” e “Onde”, deixando o “Como”, “Quando” e “Porque” para ser descoberto durante o filme. Um texto que em hipótese alguma leva a assinatura de um crítico de cinema, mas sim de alguém equivocado com seu papel na sociedade.

“João e Maria, são dois irmãos que passeiam pela floresta, mas acabam sendo seqüestrados por uma bruxa má.”, não é uma crítica e nem deve ser assinado, a não ser que seja por um dos irmãos Grimm. Talvez seja uma resenha, resumo ou algo semelhante, que pode contar mais alguns detalhes da trama, ou não, mas sem, em nenhum momento, analisar nada daquilo.

Bem mais que apenas reproduzir em palavras aquilo que viu, o crítico tem por obrigação tomar tudo para si e tentar entender tudo aquilo, analisá-lo, confrontá-lo e, por fim, tentar mostrar para o resto do mundo aquelas razões que o fizeram gostar ou não do que viu. Não uma catequização, mas sim, um ponto de partida para ajudar seu público a concordar ou não com sua visão.

Em tempos de internet e preguiça mental, fazer alguém ler algumas linhas sobre um assunto é uma dádiva é por isso que, talvez, o “assinador de resenhas” saia na frente e o crítico tenha que sobreviver naquele limbo onde ele parece só “falar mal” de todos filmes, já que o outro, bem pelo contrário, não se preocupa em fazer isso. E se por um lado, a internet criou esse campo livre para o debate, criou também um grande espaço para que o mesmo seja esquecido.

Dar sua opinião sobre algo ficou fácil, fazer isso com o mínimo de propriedade tornou-se cansativo e trabalhoso, deixando exposto um mapa cheio de atalhos. Do mesmo jeito que essa grande rede mundial abriu todo esse espaço, acabou encorajando o nascimento de uma legião de gênios imparciais, com seus textos curtos, seus trailers, suas ficha técnicas e uma memória perfeita para guardar nomes de astros e seus filmes. Verdadeiras enciclopédias sem vida, que ganham vida graças a suas presenças volumosas, que ilustram essa falta de personalidade com seus nomes, que não poucas vezes entendem do que está sendo falado, mas que sabem o quanto teriam que se esforçar para ver por trás das migalhas de pão deixadas para trás pelo João.

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