Druk – Mais Uma Rodada | O Dogman 95 continua vivo


Bem no meio dos anos 90 dois cineastas dinamarqueses resolveram que era a hora de enfrentar o “cinema comercial” e sua artificialidade através da pureza de seus filmes. Nascia o famoso/infame Dogma 95. O primeiro dos cineastas, Lars Von Trier, não demorou muito a cair no liquidificador do “cinemão” (mesmo com toda polêmica), já o segundo, Thomas Vinterberg, continua por ai, firme e forte, e seu novo filme, Druk – Mais Uma Rodada, é o resultado disso.

O movimento buscava um “novo extremo”, um que saia dos grandes orçamentos, fincava os pés no chão e tentava usar a realidade como combustível e cenário para seus filmes. A dupla criou dez leis que iriam ter que ser seguidas à risca como parte desse manifesto. Como é fácil de imaginar, quando a liberdade é regulada pelas próprias leis, mais cedo ou mais tarde as ideias começam a cair. Mas certas intenções não.

Vinterberg continua à vontade com o melhor do Dogma 95, deixando para o passado aquilo que era bobagem (e aparente “egotrip” de jovens cineastas tentando provar seu valor técnico) e se estabeleceu em um cinema com cara de verdadeiro. Druk tem isso a seu favor: a verdade.

Uma impressão de personagens reais em situações comuns, mas onde precisam entender o mundo aos seus redores. A câmera de Vinterberg continua em sua mão (uma das leis) e a impressão é de um uma proximidade angustiante desse grupo de professores que resolve testar uma teoria sobre um déficit de 0,05% de álcool no sangue, o que impede as pessoas de “serem elas mesmas”.

A ideia não é deles, mas sim de um professor de Psicologia da Universidade de Oslo, Finn Skarderud. A ideia provoca nos quatro amigos a provocação de um experimento onde eles deverão manter esse nível de álcool compensado. É lógico que, logo de cara, o resultado é fenomenal, mas a jornada toma rumos mais sombrios para cada um dos quatro e mostra o quanto não existe um certo ou errado, mas sim tudo é muito mais complexo.

Isso, porque Druk não é sobre alcoolismo, mas sim sobre liberdade. Os quatros professores precisavam enfrentar suas frustrações e dores enquanto se arrastavam por uma apatia completa pelos seus trabalhos, famílias e por si próprios. Vinterberg acompanha os dias desses homens enquanto olha para um mundo ao redor deles que não faz questão nenhuma de celebrá-los ou se preocupar com seus problemas. Não existe protagonismo em suas vidas e eles sabem disso.

O foco central da história acaba sendo no professor de história vivido pelo sempre incrível Mads Mikkelsen. Martin está tão diminuído por sua vida e suas escolhas que seu olhar não parece encarar nada, é alguém destruído pela vida. Sua transformação é completa, não pela quantidade de álcool no sangue, mas sim pela impressão de, pela primeira vez, ter as rédeas de sua vida. Mas esse novo homem não existe sem o experimento, o que, por outro lado é uma liberdade que beira o artificial.

Ainda que Martin esteja na ponta da história, Druk se importa com os outros amigos, de jeito mais contido, obviamente, mas com a mesma vontade de entender o quanto esse experimento, na verdade, fez com que cada um deles respondesse de um jeito completamente diferente ao álcool. Por mais que juntos eles entrem em harmonia, separados continuam levando para essa “nova realidade”, os mesmos erros da velha realidade. E talvez seja isso que Vinterberg mais esteja interessado em mostrar.

Portanto, Druk não é um filme de sentimentos simples ou de uma vontade de contar uma história com todos elementos e reviravoltas mais comuns (como ele faz no estupendo A Caça, por exemplo). Seu filme busca o incômodo do final trágico anunciado, ao mesmo tempo que se exime do julgamento e da culpa. Se o álcool nessas pequenas doses fez bem ou mal para seus personagens, é você quem deve decidir, assim como ele não te responderá se é uma boa ou má ideia a teoria do Professor Skarderud.

Druk te desafiará a entender que o caminho pode não ter volta e foge de qualquer paradoxo envolvendo alcoolismo ou excessos. É lógico que eles estão lá, mas são um meio de entender o quanto o filme está falando de liberdade e do quanto ela pode ser um vício perigoso quando você esquece das pessoas ao seu redor apenas para valorizar a sua independência.

O lugar onde os quatro amigos chegam é escuro, doloroso, sem som e passa por eles como um pesadelo onde perambulam pela cidade como se não tivessem destino. E não tem. Foram longe demais, ficaram viciados nessa liberdade e ela mesma os colocou em uma outra prisão.

Vinterberg não desvia o olhar da alma de seus personagens, mesmo quando se encontram esmagados pelo óbvio final trágico. Mas há ali uma isenção, uma compreensão com cada um. Entende as decisões dos amigos e mostra a todos eles o quanto eles podem ser o que quiserem. Um trabalho que não aponta a história para onde ele quer, mas sim para onde é necessário. Como se entendesse que cada um deles entenderá o que significa liberdade para eles, seja a morte, a possibilidade de ajudar um aluno ou apenas um número musical.

O Dogma 95 pode ter acabado, mas o resultado desse esforço e o legado daquilo que é não era bobagem ficou para o cinema. Vinterberg é um dos cineastas que mantém essa chama acesa e Druk é um exemplo de aquilo deu e ainda pode dar bons frutos.


“Druk” (Din/Sue/Hol, 2020); escrito e dirigido por Thomas Vinterberg; com Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang, Lars Ranthe e Maria Bonnevie