Dois Papas | Muito mais que dois caras falando sobre religião


Você tem realmente a opção de assistir Dois Papas com a visão mais simplista de acompanhar esses dois caras falando sobre religião. Sim “os caras” são dois altos pontífices do Vaticano, o anterior e o novo, justamente no momento de transição entre eles. E só isso já pode fazer você se apaixonar pelo filme.

Mas ainda existe um jeito diferente, um que decide conversar, não só sobre religião, um Deus e seus ensinamentos, mas ainda sobre o mundo ao nosso redor e como isso pode influenciar nossas ações. O que nos leva ainda à culpa, um dos pilares do catolicismo. Sim, Dois Papas não é um filme simples, e se você achou isso, perdeu grande parte da diversão.

O filme é dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, meio sumidão das telas desde 2011 com o filme 360, que talvez você nem lembre. Ao seu lado, Anthony McCarten assina o roteiro depois de seu nome ter aparecido nos créditos dos textos de A Teoria de Tudo, O Destino de Uma Nação e Bohemian Rapshody. E isso quer dizer, um resultado que funciona, mas tropeça um pouco nas próprias pernas.

Dois Papas também faz isso, mas é um erro justificável e que fica pequeno perto do resto do material interessante e da experiência de poder acompanhar esses dois atores gigantes em um embate intelectual que vale o filme.

Anthony Hopkins vive o Cardeal Joseph Ratzinger, mais tarde conhecido como Papa Bento XVI. Homem que, em um momento de tensão social e mudanças, teve que assumir a o posto de Papa após a morte de João Paulo II, um dos Papas mais populares e responsável por uma transformação enorme na igreja. Mas Ratzinger é a cara do conservadorismo, de uma igreja que não está preocupada com o novo século, mas sim com sua força e poder.

Do outro lado da equação, Jonathan Price vive o Cardeal Jorge Bergólio, argentino, franciscano e representando para muitos o real legado de Jão Paulo II, mesmo que sua força à época de sua morte não tenha sido suficiente elege-lo Papa. Mas o tempo passa e Bergólio acaba se desiludindo com sua função, o que o leva a uma viagem para o Vaticano onde encontra o atual Papa à época e vê o inicio de uma amizade improvável, porém importante.

Dois Papas então é uma grande conversas entre esses dois personagens, Hopkins e Price no topo de suas capacidades de atuação se permitindo trabalhar nas nuances e detalhes desses dois personagens incríveis, complexos e apaixonantes.

É lógico que grande parte do filme acaba sendo sobre o quanto a visão de ambos é diferente, mesmo diante de um mesmo assunto. Cada fé é uma fé, a vontade de cada um em seguir as palavras de Jesus, Deus e a Bíblia, quase sempre são atropeladas pela impressão de que não existe certo e errado, mas as verdades de cada um. E em um mundo cada vez mais dividido entre ideias opostas, é cada vez mais fácil entender que Dois Papas é só esse mundo.

Sobre uma igreja que não quer mudar, mas está se afogando em seus erros e decisões, uma igreja que não entende que as respostas estão no futuro e não no passado. Uma igreja que tem novamente a oportunidade de encontrar a velocidade com que anda o mundo e aceitar que ser firme não quer dizer ser estagnado.

Mas sobre isso, Dois Papas é sobre culpa. Por mais que tenha essa vontade de entender o mundo e se renda ao espetáculo de ver esses dois monstros do cinema conversando, o filme aceita muito bem ser sobre esses dois “homens santos” deixando toda essa santidade de lado para confessarem seus pecados e uma culpa que os moveu em suas carreiras.

Ratzinger ficou conhecido por sua relação com a ideia de manter em segredo as acusações de abuso na Igreja Católica, seu mandato como Bento XVI no Vaticano ainda foi marcado pelo estouro de casos de abuso envolvendo padres. Meirelles e McCarten sabem disso, do peso disso, e optam por deixar tudo em uma camada mais profunda do personagem. Em uma confissão muda que fala mais do que qualquer culpa.

Quem escuta essa confissão é justamente o ainda Cardial Bergólio, movido pelas decisões que o fizeram ser encarado por muito argentinos como um padre pró-ditadura. Meirelles apela até para um flashback meio brega para mostrar as razões dessas “decisões” e defender o novo papa, mas não sem antes expurgar essa culpa através dessa confissão. Afinal, para a igreja católica pode até parecer que é só contar o que fez e se arrepender que você irá ganhar o “Reino dos Céus”, mas acredite, isso não irá sair tão facilmente de sua consciência.

Nada é tão simples quanto parece, Dois caras falando sobre religião, quase sempre não é só isso, muito menos Fernando Meirelles está apenas apontando sua câmera para eles enquanto eles falam. Nada é fácil e nem raso quando se tem a possibilidade de discutir o mundo ao nosso redor através de uma história que não se importa de ser uma deliciosa ficção sobre a realidade.


“The Two Popes”, (UK/Ita), escrito por Anthony McCarten, dirigido por Fernando Meirelles, com Anthony Hopkins, Jonathan Pryce, Juan Minujín, Luis Gnecco e Cristina Banegas.


Trailer do Filme – Dois Papos

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