Disforia | Um grito óbvio e vazio


Não se pode negar que Disforia é um trabalho tenso e esteticamente chamativo. Contudo, ambientando naquele mundo revisitado tantas e tantas vezes pelo gênero do terror, habitado por psicólogos, casais traumatizados (aqui o filme tem ambos) e crianças amaldiçoadas, desde o começo sabemos que não se pode esperar muita coisa de ideias tão desgastadas e que aqui não fazem questão de serem contadas de outra forma. Até as frases parecem recicladas de algo já visto.

Se a tensão existe e é boa, o que é questionável, portanto, nesse primeiro longa metragem do cineasta Luca Cassales, é até que ponto tensão por si só é válida. Este é um filme que habita o mundo dos roteiros “lado B”, onde os diálogos são tão falsos que começamos a pensar que tudo não passa de um sonho. E mesmo assim ele insiste, como um enlatado de fim de noite esquecido na prateleira de alguma vídeo-locadora dos anos 90, a ser levado a sério. Se pelo menos fosse engraçado observar aquelas pessoas revivendo uma combinação de trash aleatório sem ter noção de que suas vidas não as pertencem, seria uma experiência menos anestesiante. Este, porém, não é o caso, e a cada minuto de projeção se torna mais óbvio que estamos apenas aguardando o momento da reviravolta final.

Mas há um senso estético sendo trabalhado, com sons afiados, cortes no momento certo, sequências que existem quando necessárias (destaque para uma cena de suicídio). O trabalho de produção prova que existe sensibilidade para lidar com temas delicados, mas seguindo as lições (erradas) de cineastas que tentaram estar por trás da direção e do roteiro. Lucas Cassales então não demonstra a mesma habilidade por detrás das câmeras na escrita de diálogos que nos permita entender qual a novidade por trás de conceitos batidos como crianças com sérios problemas de convívio social e traumas do passado de pessoas de classe média que não possuem problemas reais.

Sem saber o que fazer com a história, este filme bem produzido apenas alimenta um mistério sem sentido, um Babadook sem pé nem cabeça. É bonito de se ver e ouvir, mas não é adequado para se pensar. Falta aquele algo a mais para nos capturar a atenção do que um psicólogo traumatizado (e sua esposa) e uma criança que desperta sensações ruins com todos que com ela convivem. A única característica que se destaca o regionalismo, algo completamente descartável para a história, mas que por algum motivo surge a todo momento. São coisas bestas, como o uso do “tu” porto-alegrense ou um anfitrião oferecendo chimarrão, a bebida local, mas esses detalhes chama a atenção justamente porque o desenvolvimento da história principal não está fazendo seu dever de casa de ser relevante.

O máximo de atenção que Disforia consegue chamar, além do seu título chamativo que nos faz buscar no dicionário o significado da palavra (“mudança repentina e transitória do estado de ânimo”) é saber se haverá alguma revelação no final que tornará o desfecho menos previsível. E, adivinhem: (spoiler) não há. E mesmo que houvesse, nem deve ser considerado spoiler, pois não faz parte desse filme. Esta é uma viagem de autor que não é comunicável. Os elementos vão sendo jogados como se apenas isso fosse fazer o espectador ligar os pontos. Mas há tantas peças faltando nesse quebra-cabeças que a única palavra que melhor descreve o terceiro ato é… bobo.

O elenco do filme não se sente à vontade em fazer teatro em um filme de cinema, e dizer aquelas falas soa particularmente doloroso para os personagens de Vinícius Ferreira e Isabela Lima, que fazem pai e filha na história. Se Ferreira desde sua introdução já soa canastrão ao ouvir música clássica e ter peças de estofado em sua sala de estar obviamente cafonas e antiquadas, Isabela Lima possui as feições certas para uma “creepy girl”, mas suas falas são ditas da maneira mais terrivelmente artificial possível. Se o objetivo era aterrorizar o espectador, conseguiu. Não me senti à vontade em nenhum momento vendo Isabela atuar. O preparo do elenco-mirim pecou em nos enganar de que aquela pode ser uma criança de verdade, e não um robô demoníaco (com defeito) disfarçado.

Ultimamente o que o Brasil mais faz de filme de gênero acaba sendo o terror, e eventualmente surgem trabalhos de destaque por estarem situados dentro da brasilidade esperada por uma obra local, que resgata o gênero, mas não perde sua identidade. Filmes bons dessa fase provam a máxima de que copiar Hollywood não é o caminho, como o mais antigo Trabalhar Cansa (da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas), e os mais recentes A Sombra do Pai e O Animal Cordial (estes dois da escritora e roteirista Gabriela Amaral). São filmes de temática mais rebuscada que demonstram sua força na sutileza de suas ideias. Disforia por comparação é um grito de obviedades em um vazio de signficados. Mas um grito bonito. Bem feitinho.

A música dos créditos finais é um exemplo, e um charme à parte. Composta de maneira gutural, que evoca os efeitos sonoros que estamos acostumados a ouvir nos filmes do gênero, adoraria ver no próprio filme a cantora que executou estar performance, que é fascinante na mesma medida que angustiante. Fica a dica para cenas extras ou making off. Apontem os holofotes para quem realmente merece e cortem o cordão umbilical que realmente nos asfixia: os enlatados norte-americanos.


“Disforia” (Bra, 2019), escrito e dirigido por Lucas Cassales, com Isabela Lima, Rafael Sieg, Vinícius Ferreira e Janaína Kremer.


Trailer do Filme – Disforia

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