Dias Sem Fim | Não sabe o que quer


Não há foco em Dias Sem Fim, o que é uma pena, já que a nova produção da Netflix tinha absolutamente todas ferramentas para se tornar um daqueles momentos únicos dentro do gênero. Como um alinhamento de planetas onde ninguém está interessado em olhar para o céu.

O “gênero” em questão, nasceu nos anos 90 e nunca parou enquanto gente como o falecido John Singleton tinha o que dizer sobre como ser negro e viver na periferia dos Estados Unidos. Singleton dirigiu Os Donos da Rua, Spike Lee, Faça a Coisa Certa, mais recentemente o nascimento do N.W.A. serviu de inspiração para Straight Outta Compton, assim como Ponto Cego, de 2018, passou despercebido por muita gente, mas é um dos filmes mais interessantes dessa década.

Tudo isso, todos esses filmes citados para lembrar o quando Dias Sem Fim poderia ser lembrado assim como esses foram, bastava se manter simples e com a vontade de contar uma história mais concisa. O filme é escrito e dirigido por Joe Robert Cole, mas talvez tenha no cerne de seus problemas algo que vem sendo recorrente nas produções da Netflix: sua montagem.

O corte de Dias sem Fim é feito pela experiênte Mako Kamitsuna, que não deixou nunca de fazer grandes trabalho como em Mudbound, Hacker e Pariah, mas aqui, parece sem saber onde quer chegar. O que talvez não seja um defeito dela, mas sim de toda produção, já que, como está lá no primeiro parágrafo, falta foco.

Primeiro você acompanha Jahkor (Aston Sanders, de Moonlight), invadindo uma casa em um plano sequência urbano e poderoso que culmina com ele assassinando um casal na frente da filha deles. Mas essa parte da filha não tem muita importância para a trama, portanto, pode esquecer dela. Jahkor vai preso e com uma narração bem escrita começa a tentar entender sua vida.

O filme dá um salto para trás de 13 anos e depois para apenas 13 meses antes da prisão, tudo enquanto tenta entender como Jahkor chegou ali e por qual razão se recusa a dizer a razão dos assassinatos.

Portanto, o foco nesse suspense até serve de combustível para essa jornada pela vida do protagonista, mas as motivações, personagens, situações e essa vontade de mostrar a vida na periferia de Oakland vai se acumulando e nunca tem tempo de fechar tudo com a mesma força a que é apresentado.

A própria amizade de Jahkor com os dois amigos vividos por Isaiah John e Christopher Meyer, pouco faz diferença para o futuro do protagonista. O arco com seu amigo Lamark (Meyer), por exemplo, é um desperdício tão grande que chega a dar raiva. O jovem que quer “fugir” do bairro e acaba indo para o exército lutar pelo país, mas pagando caro por isso, nem arranha essa profundidade e se contenta com um “não sabemos nem que guerra era essa” dita pela irmã.

Falta uma “mão forte” para enxugar as diversas aparas soltas que fazem com que Dias sem Fim se torne um drama lento, que mesmo tendo um baita material em mãos, se arrasta por, pelo menos, uns 20 minutos a mais do que deveria ter.

Esses excessos não servem para nada, e se encaixam meio destrambelhados em uma trama que vai e volta muito no tempo, já que precisa separar para o final uma surpresa que costura tudo isso. A surpresa é realmente sensível e interessante, mas parece demorar demais, já que fica esperando um monte de outros arcos terem mais tempo de tela, mas muito menos importância.

A presença de nomes como Jeffrey Wright, como pai de Jahkor, e Yahya Abdul-Mateen II, como chefe do tráfico, ajudam a “passar o tempo”, já que ambos estão bem acima da média e se destacam, principalmente, em razão de um roteiro que cria ótimos diálogos, e surge como um pequeno presenta para ambos.

Do mesmo jeito, Ashton Sanders agarra o personagem com unhas e dentes e, mesmo não conseguindo trabalhar muito a sutileza das passagens de tempo, compensa isso com uma construção poderosa de um personagem que vive o tempo todo entre uma introspecção dolorosa e uma selvageria violenta. A decisão combina com o personagem, mas o roteiro explora pouco esse desequilíbrio e, quando o faz, pinta um cara machista, babaca e mimado.

Dias Sem Fim é então essa ideia que tem todas ferramentas e oportunidades para ser lembrado, mas não tem a coragem para encarar as necessidades de seus personagens e de sua trama, consequentemente, deixa com que tudo se transforme em uma experiência mais lenta do que deveria, menos violenta do que poderia e muito mais desinteressante do que merecia.


“All Day and a Night” (EUA, 2020); escrito e dirigido por Joe Robert Cole; com Ashton Sanders, Jeffrey Wright, Isaiah John, Shakira Ja´nai Paye, Regina Taylor, Jalyn Hall e Christopher Meyer.


Trailer do Filme – Dias Sem Fim

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