Desculpe o Transtorno | Falta um pouco de humor na ponte aérea Rio-São Paulo

Desculpe o Transtorno

Nem toda comédia é genial, nem toda trama do gênero precisa ser incrível e, muito menos, precisa fugir completamente dos clichês e lugares comuns. Desculpe o Transtorno é então um daqueles exemplos medianos, que cumprem o que prometem, mas sem em nenhum momento nem ao menos se preocupar com nada além disso.

E enquanto isso pode ser um problema para diversos outro gêneros, aqui é mais que suficiente para agradar os fãs. Melhor ainda quando consegue fazer isso e ainda ser um filme romântico bonitinho e com uma liçãozinha que tenta observar com mais profundidade um assunto tão contemporâneo quanto a obrigação de se tornar aquilo que os outros esperam, e não o que quer realmente ser.

Nesse caso, Gregório Duvivier vive Eduardo, um executivo de uma empresa de patentes que tomou esse rumo na vida quando seus pais se separaram e ele deixou para trás os passeios de bicicleta, bombas em latas e o clima do Rio de janeiro para ir para São Paulo com o pai. Dezesseis anos depois da separação, Eduardo recebe então a notícia de que sua mãe faleceu, e em uma viagem para o Rio, acaba despertando Duca, uma segunda personalidade que coloca em risco todo status quo de sua vida.

Duca então se apaixona pela livre, inteligente e carioca, Bárbara (Clarice Falcão), o que faz com que Eduardo entre em crise com sua noiva paulista opressora, dondoca e mimada, Viviane (Dani Calabresa).

E talvez esteja ai o grande problema de Desculpe o Transtorno e que impede que a comédia alce voos maiores: não existe a menor vergonha em diminuir São Paulo a um nível que extrapola o caricato e se perde em um incomodo. Não que não seja verdade, já que sim, os cariocas são mais legais que o paulistas, mas o roteiro e o diretor esquecem completamente de usarem o Rio como motivo de qualquer tipo de piada.

Duvivier e seus amigos paulistas são sempre carregados de um sotaque que ultrapassa o engraçado e se torna meio bobo, já que no Rio de Janeiro ninguém parece morar por lá. Nem parece trabalhar também e nem fazer nada a não ser serem felizes, baterem palma para o pôr do sol e serem mais um pouco felizes enquanto tomam cerveja no meio da tarde na Lapa.

Desculpe o Transtorno Crítica

Mas tirando esse escorregão, o texto de Tatiana Maciel e Célia Porto até acerta em algumas piadas, com um roteiro ágil e que sobrevive por meio de algumas piadas que parecem nascer com uma naturalidade que as fazer soar improvisadas. Principalmente nos momentos em que os humoristas Daniel Duncan e Rafael Infante têm a oportunidade de entrar em cena.

No resto do elenco, ainda que Duvivier se esforce para criar uma linguagem corporal e um sotaque diferente para Eduardo e Duda, é o cabelo desarrumado que mais diferencia suas duas personalidades, o que se deixa ser pouco inspirado. Isso, enquanto Clarice Falcão não parece ser mais do que ela mesma na vida real (e sua personalidade meiga e bonitinha acabam se encaixando na personagem). Um problema que não surge para Calabresa, que vai tão longe em sua personagem que soa exagerada e caricata demais.

Na frente disso tudo, a direção de Tomas Portella também faz pouco, na maioria do tempo então se deixando levar por um esquema engessado de plano e contra-plano, o que não permite que o filme tenha qualquer tipo de personalidade estética. Mas como o que tem em mão é uma comédia simples, isso nem de perto atrapalha em nada, já que o principal ele consegue: contar essa história de modo limpo e minimamente divertido.

Um filme prático em seu tamanho, simples, com personagens que funcionam, que consegue encontrar um romance bonitinho e quem tem o objetivo claro e óbvio de provocar os paulistas. Ou como os cariocas diriam “os paulixxtaxx”.


“Desculpe o Transtorno” (Bra, 2016), escrito por Pedro Carvalhaes, Tatiana Maciel e Célia Porto, dirigido por Tomas Portella, com Gregório Duvivier, Dani Calabresa, Clarice Falcão, Marcos Caruso, Júlia Rabello, Rafael Infante e Daniel Duncan


Trailer – Desculpe o Transtorno

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