Demônio

Se o nome de M. Night Shyamalan há algum tempo não é mais garantia daqueles suspenses do começo de sua carreira pode ser que isso mude, mesmo que indiretamente. Primeiro filme da produtora Night Chronicles, que não só leva o nome de seu idealizador, como coloca em prática idéias suas que resolveu dar na mão de novos cineastas, Demônio faz bonito e não decepciona.

Os novos realizadores, no caso, são John Erick Dowdle (do chupinhado Quarentena) na direção e Brian Nelson no roteiro (mesmo do ótimo Menina Má.com). Os dois se juntam para contarem a história de cinco pessoas que ficam presas dentro de um elevador que, misteriosamente, pára de funcionar, o problema é que, aos poucos, tudo vai levando a crer que um daqueles é ninguém menos que o personagem título (que no inglês Devil seria algo mais perto do Diabo em pessoa).

O legal disso é que, em nenhum momento, Demônio finge ser outra coisa a não ser isso mesmo: um filme meio de suspense meio de terror com influência direta de seu produtor Shyamalan. Desde a ação passada em Filadélfia, até um visual tremendamente caprichado, passando por um terceiro ato cheio de reviravoltas e um final surpresa. Aquele tipo de filme que seus fãs estão esperando de sua parte assim que descobriram que o Bruce Willis estava morto o tempo todo (isso foi um spoiler?).

Demônio começa com uma câmera passeando pelos prédios altos da cidade, só que esses de cabeça para baixo, pendurados, apontando em direção ao céu, talvez até invertendo o bem e o mal. O céu e o inferno. E é justamente esse o ponto de partida do filme, como um dos vigias do prédio lembra enquanto vê os cinco por uma câmera de segurança, de que o Diabo está ali por uma razão e nada acontece por acaso enquanto ele está presente. Ao lado do vigia, um policial descrente, ainda “mastigando” a morte de sua família e uma sobriedade recente, tem que ligar os pontos do lado de fora para entender o que está acontecendo, principalmente quando as pessoas dentro do elevador começam a morrer.

E por mais que tenha um pé no terror, tanto pelo assunto demoníaco, quanto por um ou outro gore, Demônio não se envergonha de ser muito mais um suspense competente, que opta por mortes fora da tela, mas sabe que esse seria o único jeito de manter o interesse até o final. O filme não só pergunta quem é o assassino/capeta dentro daquele elevador, como dá a chance de seu público, até o ultimo segundo apontar para todos lados. Não por trapaça, mas sim por esse ser o único modo de fazer seu espectador não conseguir ter certeza de quem está fazendo aquilo, portanto usar o subterfúgio das luzes se apagando pode parecer covardia, mas na verdade é um modo competente de pontuar sua trama e criar mais ainda um ritmo que carrega muitíssimo bem o filme.

Isso talvez não se aplique para os “acidentes” fora do elevador, que também são off-screen, o que muito provavelmente aponte para uma certa economia de efeitos especiais, mas que, mais importante, acaba não parecendo estarem fora do âmbito geral. Esse cuidado com a unidade do filme também fica claro durante todo resto da produção, já que tudo parece bem costurado, apontando para um mesmo lugar, que talvez não surpreenda com quem é o cramunhão, mas com certeza vale por tudo que rodeia esse final.

E esse capricho todo não se aplica só ao roteiro conciso, mas transborda pela câmera segura de Dowdle. Mesmo com pouquíssimas opções quando entra no elevador, faz escolhas fortíssimas no resto do tempo, principalmente no início, tanto com a plasticidade dos prédios invertidos que se transformam em um plano sequencia até o hall do prédio, culminando com um suicídio, quanto, logo depois com outro belíssimo plano sem corte passeando pelo mesmo lugar, só que agora lotado, onde o espectador é apresentado aos cinco personagens enquanto acompanha-os até dentro do elevador, conseguindo ainda com sutileza, “rabiscar” uma ou outra personalidade. Um modo delicado e preciso de fazer uma sequencia que, dentro do próprio gênero, é sempre feita de modo automático e pouco inspirado.

Dowdles ainda se demonstra à vontade com o suspense de suas cenas ao sempre esperar o momento certo para aquele corte para o acidente off-screen, como se deixasse a cargo do espectador preencher aquela última lacuna que, nesse caso, não dá as caras. Por outro lado, olha para o óbvio, para o poço de elevadores a espera de chegada de um deles, que esmagará o funcionário à procura do problema, e quebra bem a chegada do óbvio, assim, como faz o cinema inteiro acompanhar o boné voando do topo do prédio, só não deixando o personagem ir junto. Dowdles se esforça para fazer um filme diferente, dentro das poucas possibilidades e consegue.

E por mais que, no fim do filme, ele se prolongue demais ao sentir uma necessidade de redimir o policial, e talvez deixar seu público estafado de respostas, principalmente para aqueles que não sabem conviver sem elas, ainda assim Demônio é uma ótima primeira empreitada dessa nova Night Chronicles, e talvez uma chance de salvar o nome de M. Night Shyamalan, que pode mais uma vez ser atrelado a um belíssimo suspense.


Devil (EUA, 2010), escrito por Brian Nelson, a partir de uma idéia de M. Night Shyamalan, dirigido por John Erick Dowdle, com Chris Messina, Logan Marshall-Green, Jenny O´Hara, Bojana Novakovic, Bokeem Woodbine, Geoffrey Arend, Matt Craven e Jacob Vargas


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