Demolidor – Segunda Temporada | As Duas Faces do Demolidor

Mais inevitável que um Star Wars por ano, é chegado a hora do CinemAqui discutir um pouco do que talvez seja o maior sucesso da cultura moderna atual: as séries de TV. Cada vez maiores, mais corajosas, mais caras e com muito gente boa por trás delas. Não existe hoje quem não acompanhe uma meia dúzia delas, e muito mais gente que até desiste do cinema para ficar em casa com o controle remoto na mão.

Ironicamente, o melhor jeito de começar essa coluna é, justamente, falando de uma série que você não vai encontrar na TV, mas sim na Netflix: Demolidor, mais precisamente sua segunda temporada.

A série estreou no serviço de streaming em abril de 2015 e foi o pontapé inicial de uma parceria com a Marvel, já que depois disso o público já pode conhecer a detetive particular Jessica Jones e agora, em março, dar continuidade à história do advogado cego da Cozinha do Inferno. A segunda temporada estreou então seus 13 capítulos em março passado, e a impressão que deixa é que ainda teremos muita (mas muita coisa boa mesmo!) nascendo desse universo.

Uma impressão que nasce tanto do quanto a primeira temporada foi um sucesso, quanto de Jessica Jones ter elevado o nível tão lá no alto, é que ambos obrigam agora essa segunda temporada a ser, mais que uma continuação, uma evolução. E talvez essa seja a ideia principal, não continuar, mais sim evoluir. Tanto técnica, quanto narrativamente.

O culpado disso tudo parece mesmo ser o showrunner Drew Goddard, que você pode até não ligar o nome à pessoa, mas com certeza conhece o trabalho dele. Goddard é um velho companheiro do diretor Joss Whedon (sim, aquele dos dois Vingadores), tendo trabalhado com ele desde Buffy – A Caça Vampiros e Angel. Depois disso, Goddard se aproximou de um certo estúdio Bad Robot e de um rapaz chamado J.J. Abrams. Com a Bad Robot, Goddard não só escreveu alguns episódios de Alias, como também de Lost, e na sequencia ainda escreveu o roteiro do filme Cloverfield, Monstro enquanto dirigiu o ótimo terror O Segredo da Cabana e mais recentemente adaptou o texto de Perdido em Marte para os cinemas.

Enfim, Drew Goddard está ai mandando bem já faz um tempão, e seu nome em Demolidor é um alívios para os fãs do personagem. E como a função do Showrunner é dar unidade a todo essa série, o que não falta aqui é unidade.
Com uma primeira temporada robusta em mãos, o que se segue então é uma história que começa do jeito que todos gostariam que começasse, com o personagem “limpando” as ruas da Cozinha do Inferno. Uma sequencia de ação que mantém a qualidade do que ja foi visto e termina dentro de uma igreja, umas daquele tipo de referência aos quadrinhos que fará os fãs delirarem, já que a ligação do personagem na páginas da Marvel com a religião católica é algo que faz parte de sua profundidade.

E ai que está grande parte da força dessa segunda temporada de Demolidor: tentar aprofundar esse personagem, e não só através de uma nova trama e mais um monte de easter eggs, mas sim através de dois personagens que extraem do personagem tudo aquilo que ele mais precisa entender.

Pode então parecer que esse segundo momento do personagem “na TV” o tenha feito se tornar um coadjuvante em sua própria série, e engana-se quem pensa nisso. Justiceiro e Elektra estão lá muito mais para que o Demolidor entende quem ele precisará se tornar antes de dar um próximo passo em sua vida de vigilante. É lógico que desenvolver a fundo esses personagens é o jeito mais inteligente de renovar uma expectativa que todos poderiam ter. É impossível então adivinhar o que vem nessa segunda temporada a não ser que você a veja.

E ainda que igreja e a religião acabem ficando de lado no resto dos 13 episódios, é a culpa (um sentimento bem católico) que parece mover o Demolidor. Enquanto ele precisa lidar com o surgimento de um outro vigilante, muito mais violento e que pretende “resolver o problema” bem longe dos olhos de qualquer juíz, se vê sendo colocado em prova todo a ética que ele pareceu formar na primeira temporada. Até onde o Demolidor estaria disposto a chegar para realmente limpar a Cozinha do Inferno.

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Um lado violento que o apavora, mas que surge de seu passado na presença de sua ex-namoras Elektra. Hipnotizado por sua presença, o personagem então precisa colocar em prova tudo que acredita para conseguir ajudar seu grande amor enquanto luta para que essa relação destrutiva não acabe, tanto com o Demolidor, quanto com Matt Murdock.

Essa segunda temporada de Demolidor vai então beber nas próprias páginas dos quadrinhos para se estruturar e diante disso manter um ritmo incrível. Não seria uma surpresas se os 13 episódios então fossem agrupados em encadernados com arcos nomeados “Justiceiro”, “O Julgamento de Frank Castle” e “Elektra”. E se diante isso, isso soar como se um certo anti-herói com uma caveira no peito estivesse roubando a cena, é porque realmente ele está.

Justiceiro e o Julgamento de Frank Castle

O “tiro na mosca” (não, ainda não é dessa vez que veremos o Mercenário!) dessa segunda temporada é mesmo Frank Castle. Sim, Castle, e não o Justiceiro. E ainda que ele acabe até se destacando mais que o Demolidor, isso se dá, justamente, pois as opções de seu arco se permitem ser muito mais simples e objetivas, o que facilita enquanto o protagonista da série precisa provar sua profundidade.

Um Justiceiro que a série faz questão de apresentar com a calma e segurança de um uma gangue inteira de irlandeses massacrados e de corpos pendurados como carne em uma açougue. Um esforço de criar uma imagem tão violenta e incrível que seria fácil se perder na hora de apresentar o personagem. Para a sorte do Demolidor, isso não acontece e sua serie ganha um coadjuvante de gala.

E não só pelo trabalho competente de Jon Bernthal, mais sim pelo modo silencioso e contemplativo com que o personagem é montado. Um justiceiro que que fala muito menos do que age (e agir, entenda-se matar). É ele o primeiro reflexo distorcido da visão do Demolidor. Aquele momento em que ele não consegue lidar com o quanto acredita no que faz, mas luta para não se permitir ser o que “enxerga”.

O Justiceiro então é essa força da natureza que é discutida durante todos episódios, já que sua presença se dá durante toda segunda temporada. Uma profundidade que se dá mais ainda diante desse segundo momento onde o personagem é preso e julgado, fazendo então que suas ações reverberem não só no mundo coberto pelo uniforme vermelho do Demolidor, mas também naquele onde a gravata e os óculos escuros escondem sua real personalidade. Um crescimento que culmina ainda no que talvez seja o grande momento visual da temporada, uma sequencia de ação tão incrível quanto a “do corredor” na primeira temporada e “da escada” nessa segunda. Melhor ainda, é diante dela que a série consegue trazer, de modo inteligente e delicioso, a presença de volta de um certo cara que adora uma parede.

Enfim, o Justiceiro não rouba a série, mas faz tão bem para ela que é fácil sentir o quanto ela perde rendimento nos últimos episódios enquanto sua presença é diminuída. Mas também, é impossível não acreditar que todo esse esforço não seja uma tentativa da Marvel/Netflix de emplacar uma espécie de “temporada zero” do personagem enquanto traça planos para uma futura série do personagem.

A Escada e a Prisão

E falando nessa incrível sequência de ação envolvendo o Justiceiro, é incrível o quanto, mesmo estando falando de uma série de TV, que geralmente tem pouco (ou no mínimo, muito menos) dinheiro para grandes estripulias visuais, Goddard e seu Demolidor parecem preocupados em criar sempre um punhado de momentos marcantes o suficiente para que os fãs passem dias discutindo-os.

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O primeiro foi lá na primeira temporada, na sequência onde o Demolidor dava cabo de uma quantidade enorme de capangas enquanto se deslocava através de um corredor. Uma câmera que fugia do corte (um plano longo, já que “plano sequencia” a ação teria que mudar de local) e que na segunda temporada tenta ainda ser mais inventiva enquanto acompanha o Demolidor descendo as escadas de um prédio e enfrenta uma quantidade maior ainda de bandidos. Um apuro técnico impressionante e digno da grande produções de cinema.

E ainda que a temporada prime por um cuidado com todas pequenas sequências de luta, o outro grande momento da série fica mesmo nas mãos do Justiceiro em um embate contra detentos que, enquanto vão caindo aos seus pés, vão mais e mais transformado seu uniforme prisional branco em uma violenta tela de pintura de sangue.

No fim das contas

E um dos grande problemas da série acaba sendo justamente esse: uma primeira metade tão incrível e empolgante que seria impossível que o resto da temporada mantivesse a mesma grandiosidade, já que precisa baixar o ritmo para fechar todos os arcos. E grande parte desse problema nem vem da presença de Elektra, que faz bem sua parte e funciona como contrapartida do Demolidor, mas muito mais por uma falta de interesse de um “grande vilão”.

Fugindo dos spoilers, ainda que surja então uma figura já conhecida da primeira temporada, ela nem de perto provoca o interesse e o desafio (e muito menos o desenvolvimento) que Wilson Fisk. Todos os rumos para o fechamento dos arcos se tornam muito menos empolgante, ainda que sobrem pilhas e pilhas de ninjas.

E isso também se estende para todo o caminho que sobra para o Justiceiro e, consequentemente, para Karen Page (Deborah Ann Woll), que continua forte e marcante, mas não tem um arco tão complexo quanto o da primeira temporada, ainda que continue a funcionar.

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E falando em “coadjuvantes”, a outra ponta desse triângulo, Foggy (Elden Henson), também faz por merecer o destaque que ganha, principalmente enquanto “segura a onda” do lado tribunal da série, que ganha destaque no “segundo arco” e em muitos momentos mostra o quanto não é refém do herói cego para que a série funcione. Como se não tivesse medo de desenvolver outro tipo de ação, menos violenta, e ainda assim manter o interesse dos espectadores.

Para os nerds de plantão

E mesmo que a série seja feita e produzida para um grande público, muito maior do que aqueles que conheceram o personagem nas página dos quadrinhos, são eles que acabam ganhando o melhor dos dois mundos, já que essa segunda temporada do Demolidor é uma desfile de referências e easter eggs.

Os fãs de plantão irão delirar com a troca do bastão por um novo, agora com aquela famosa cordinha que tantos desenhistas adoram fazê-la passear por fora dos quadrinhos, ou com as referências ao vilão Gladiador, com o CD que Frank Castle resgata de sua casa e até com a roupa de Elektra. E ainda que isso possa até fugir da maioria dos espectadores, fará muita gente ir em busca desses detalhes nas páginas das revistas, e quem o fizer nas páginas do Justiceiro escrito por Garth Ennis e desenhado por Steve Dillon (em 2001), vai encontrar lá toda cena do “telhado e do revólver”.

Quem for atrás das HQs ainda acabará ainda dando de cara com o arco clássico do personagem, “A Queda de Murdock”, de 1986 de Frank Miller e David Mazzuchelli, que muito provavelmente deve servir de inspiração para a próxima temporada.

Mas de qualquer jeito, para quem reconhece os nomes de todos coadjuvantes que também estão nos quadrinhos ou viu a armadura do Metanóide em um cantinho e morreu de medo que aquelas pernonas surgissem na série, ou simplesmente para quem acha que o personagem é uma refilmagem de um filme do Ben Affleck, essa segunda temporada acaba se mostrando umas das melhores e mais corajosas coisas que a TV está produzindo nesse momento. E o mais importante é que, assim como Star Wars e carnaval, todo ano agora a Netflix e a Marvel excedam nossas expectativas.

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