Deixe-me Entrar

Existem duas coisas que americano odeia: ver filmes com legendas e lucrar menos do que poderia. Junte isso e fica fácil entender por que Hollywood se afoga tanto em refilmagens de filmes estrangeiros, Deixe-me Entrar é um desses exemplos. Felizmente, um desses bons exemplos.

Não que chegue perto do original, o sueco (e maravilhoso) Deixe Ela Entrar, de 2008, mas fica bem longe de ser algum tipo de desastre (como essas refilmagens parecem se acostumaram a ser). Na verdade, quem sequer teve contato com a obra dirigida por Tomas Alfredson (que ainda não aportou em Hollywood, mas já está dirigindo o inglês O Espião que Sabia Demais, adaptação do livro de Lohn Le Carré) provavelmente vai até se empolgar com Deixe-me Entrar. Já quem viu (e se apaixonou) pelo original, vai ficar com aquela impressão de vazio, que não atrapalha, mas tampouco deixa o filme decolar.

O problema maior disso é perceber que o maior dos equívocos dessa nova visão é, justamente, a mania de Hollywood de mastigar seus próprios erros ao invés de tentar copiar os acertos dos outros. Talvez pela necessidade de se mostrar original ou, mais provavelmente, por se sentir temerário de não dar ao seu público pasteurizado um produto com sua cara.

Deixe-me Entrar se sente na necessidade de começar o filme por um acidente misterioso onde um homem acaba com parte de seu corpo desfigurada por algum tipo de ácido, mas que, já no hospital, acaba tirando a própria vida ao se jogar pela janela. Na porta do mesmo prédio, enquanto fora dele as autoridades rodeiam aquele corpo afundado na neve, o presidente Reagan faz um discurso, refletido no vidro, citando o cristianismo. Com isso, o que o diretor e roteirista Matt Reeves (de Cloverfield – Monstro) faz, é não confiar em sua própria história.

Ao invés de apostar na sensível dinâmica entre o menino solitário de 12 anos (Kodi Smith-McPhee, o menino de “A Estrada” em mais uma atuação sensível), humilhado na escola e às portas da separação dos pais, que acaba se aproximando da nova vizinha (a talentosíssima e segura Chloe Moretz, vulgo Hit-girl de “Kick-ass – Quebrando Tudo”), que na verdade é uma vampira. Ele então cria com com ela uma espécie de amor platônico que lhe faz ver o mundo sob uma nova ótica, Reeves faz seu espectador cair em um melodrama sem a mínima necessidade. Um que convida à história a se mover em uma espécie de flashback que só existe para responder às duvidas daquela sequencia. Quem é aquele Homem? Por que ele se matou? Quem é a filha dele que veio vista-lo?

O erro acaba se mostrando tão óbvio, que tais respostas são dadas não muito tempo depois, e a cena inicial acaba vista mais tarde por um lado muito mais objetivo e atraente. Pior, talvez esse começo seja até esquecido logo, já que, obviamente, o filme não é, nem tenta, e nem conseguiria ser sobre esse mistério. Mas sim sobre o menino.

Um ponto interessante é que, mesmo com essa necessidade de mastigar tudo e não confiar no próprio taco, Reeves acaba conseguindo acertar a maioria do tempo ao não copiar o original, procurar reler aquilo tudo e fazer, quase, um novo filme para um público diferente. É lógico que isso passa por uma montagem muito menos lenta, que não parece confortável em deixar alguns planos serem maiores, ou um visual muito menos asséptico, escurecendo tudo um pouco demais até (a fim de caracterizar mais o filme como um terror), assim como se deixando levar por uma trilha sonora rebuscada e dramática (além da necessidade de apostar em um certo gore e em uma maquiagem vampiresca para a menina). Mudanças que não parecem estar ali por opção do diretor, mas por um alto conhecimento do público que quer atingir, um público que, dificilmente, se empolgaria com um filme de terror lento, sensível e com pouco gore, que quase aposta em ser observado como uma obra de arte e não como uma simples diversão. Bem diferente dessa refilmagem.

Por outro lado, é preciso dar o braço a torcer para Reeves e uma certa vontade de alcançar um resultado visual plasticamente cheio de estilo, preciso em todo uso de computação gráfica (principalmente nos ataques da personagem) e com uma vontade toda sua de fazer algo menos usual, como quando prefere capotar o carro olhando pelo lado de dentro em uma câmera fixa, ao invés de se deixar levar por algo muito mais usual, como um plano aberto e o carro voando pelos ares. Como se, no fundo (bem no fundo mesmo) Reeves até estivesse tentando sair dessas obrigatoriedades “hollywoodianas”, mas sendo impedido por seu próprio roteiro, que não deslancha, e por uma montagem picotada demais.

E não se enganem, a sequencia final da piscina (que aqui já vale à pena), é uma visão um pouco mais escura e menos sutil da (essa sim maravilhosa), original. Um retrato que, talvez sem querer, dite exatamente o quanto as duas versões se separam em termos visuais e narrativos, já que ali, enquanto o primeiro aposta em águas claras e (praticamente) no único gore do filme inteiro, sem som, cortes e um braço salvando o menino, Hollywood escurece a água, exagera no som, não consegue chocar com nada (já que se cansou de planos detalhes em ferimentos) e, no final deixa o próprio personagem sair sozinho da água. Diferenças que parecem poucas, mas demonstram exatamente até onde cada um quer chegar como cinema (independente das bilheterias).

Mas isso tudo talvez só vá chatear quem for ao cinema atrás de uma refilmagem (chato e pronto para criticar todas essas mudanças, como eu), mas o resto do público (bem verdade a maioria, já que o original não foi lançado aqui em DVD e passou correndo pelos circuitos alternativos) vai dar de cara com um baita filme de terror sensível, que surpreende por uma ideia e conquista por sua vontade se ser verdadeiro e emocionante. E que, ainda por cima, em tempos de vampiros que brilham a luz do dia, tem uma história de amor clássica que vem mais calhar para os amantes (e órfãos) do gênero.


Let Me In (EUA, 2010), escrito e dirigido por Matt Reeves, a partir do filme “Deixe Ela Entrar” de Thomas Alfredson, com Kodi Smith McPhee, Chloe Moretz, Richard Jenkins e Elias Koteas.


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