Crimes Ocultos

De alguma forma, os realizadores de Crimes Ocultos conseguiram reunir um excelente elenco para viver os personagens de seu filme medíocre – mas nem isso consegue salvar olonga de ser uma obra completamente descartável e que jamais explora alguns ricos elementos de sua história, preferindo investir em reviravoltas constantes do que em desenvolver seus personagens.

Depois de vermos como um jovem garoto perdeu a família e o lar na Rússia e, mais tarde, se tornou um herói na Segunda Guerra Mundial, acompanhamos Leo Demidov (Tom Hardy, de Mad Max) como policial na União Soviética comandada por Stalin. Quando o filho de um colega de trabalho morre de forma misteriosa, Leo tem que enfrentar as normas políticas da época (“não há assassinatos no paraíso”) para descobrir a verdade e desvendar as mortes de diversos garotos.

Adaptado do livro de Tom Rob Smith, o primeiro de uma trilogia, Crimes Ocultos erra aos incluir várias subtramas desnecessárias para a história central, o que ainda resulta no desenvolvimento raso dos personagens e de tramas importantes: logo no início do filme, por exemplo, uma troca de olhares entre Raisa (Noomi Rapace, de Prometheus) e Vasili (Joel Kinnaman, o Robocop) parece sugerir um passado entre os eles, mas isso jamais é retomado ao longo das mais de duas horas de projeção. Da mesma forma, os realizadores gastam pouco ou nenhum tempo estabelecendo as motivações de seus personagens e, assim, os relacionamentos entre eles também são enfraquecidos – assim como as constantes revelações de que uma pessoa ou outra está trabalhando para o lado oposto.

Comandado de forma pouco inspirada, a fotografia de Oliver Wood investe no cinza típico de filmes do gênero. Enquanto isso, a direção de Daniel Espinosa é problemática especialmente nas (frequentes) cenas de ação – e juntando isso ao fato de que estas quase sempre trazem os personagens envoltos em poeira, neblina ou mesmo lama, tornam as sequências praticamente impossíveis de acompanhar.

Por outro lado, o elenco é dedicado, mesmo sendo obrigado a fingir um sotaque russo que, como de costume em filmes falados em inglês mas ambientados em países que falam outro idioma, é completamente descartável. Mesmo assim, são Tom Hardy, Noomi Rapace, Gary Oldman, Joel Kinnaman e os demais atores que tornam a produção minimamente assístivel – mesmo coadjuvantes de luxo como Vincent Cassel e Jason Clarke se esforçam, o que é especialmente necessário considerando a falta de importância que o roteiro dá à construção dos personagens. Assim, quando Leo pergunta a Raisa “Eu sou um monstro?”, tanto a indagação dele quanto a resposta dela carregam peso apenas na interpretação de Hardy e Rapace, já que o filme não trabalhou para chegar àquele ponto. Enquanto isso, Joel Kinnaman fica com um personagem cuja única função é ficar no caminho de Leo, e sua personalidade e objetivos mudam constantemente de acordo com as necessidades da narrativa.

Em uma sociedade sobrecarregada com o peso de ter que idolatrar Stalin – cujo retrato deve adornar até mesmo os orfanatos habitados pelas crianças cujas famílias ele é responsável por destruir -, os realizadores desperdiçam constantes oportunidades de estudar o comportamento daquelas pessoas. Por mais que o crime do assassinato seja visto como “impossível”, as claras evidências deveriam resultar em, pelo menos, uma investigação oficial discreta – e, em um roteiro mais inteligente, o envio de Leo a uma cidade repleta de pistas seria uma estratégia política e não, como acontece, uma coincidência forçada. Da mesma forma, a rápida aceitação das claramente ensaiadas palavras de Leo pelo major vivido por Charles Dance é ingênua.

Deixando de explorar uma situação complexa e uma série de crimes terríveis para, ao invés disso, investir em reviravoltas e revelações constantes e pouco significativas, Crimes Ocultos não alcança as ambições de ser um estudo de personagem ou de analisar como uma investigação clandestina como a aqui retratada pesa sobre os envolvidos – para isso seria necessário que o filme se importasse com seus personagens e suas motivações. Assim, ao acompanhar o ótimo elenco desta produção mais adequada para a televisão de sábado à noite, o espectador vai apenas desejar que estivesse assistindo aqueles atores em outros filmes.


“Child 44” (EUA/CZ/RU/Rom, 2015), escrito e dirigido por Richard Price, com  Tom Hardy, Noomi Rapace, Gary Oldman, Joel Kinnaman, Vincent Cassel, Fares Fares, Jason Clarke e Charles Dance.


Trailer – Crimes Ocultos