Creed II | Ganha nos pontos em uma luta com poucos golpes e muito clinch


Impossível dizer que Creed II não funciona. Funciona. Não como um belo filme e muito menos do mesmo jeito que o primeiro, mas funciona perfeitamente como uma daquelas continuações burocráticas e desinteressantes do Rocky (e de qualquer outra “franquia de luta” do cinema).

Ruim para quem viu em Creed a oportunidade de vivenciar algo diferente mesmo dentro de um gênero desgastado, justamente, pela generalização institucionalizada. Bom para quem só quer isso mesmo, três sequências de luta, duas montagens de treino e um monte de bobagem machona enchendo o resto dos espaços.

Creed II é só isso mesmo. Não um filme com jeitão de independente, com personagens profundos e motivações delicadas que tinha o boxe como pano de fundo, mas sim um filme de boxe simplesinho.

O filme não abre com Adonis Creed (Michael B. Jordan), mas sim com Viktor Drago (Florian Munteanu) e seu pai, Ivan Drago (Dolph Lundgren), em um gelado e pesado treinamento na Ucrânia, alguns knockouts, muita raiva e olhos cerrados. Para quem não ligou o nome à pessoa, Drago matou o pai de Adonis, Apollo, e depois foi derrotado por Rocky (Silvester Stallone) no quarto filme da franquia.

Enquanto isso nos Estados Unidos, Adonis está sob os holofotes, tendo se tornado um lutador de sucesso e agora prestes a conquistar o cinturão de campeão dos peso-pesados. O que, obviamente, acaba fazendo com que ele aceite o desafio de Ivan… o resto você já imagina.

O roteiro escrito por mãos demais conta com Cheo Hodari Coker, Sacha Penn, Juel Taylor e o próprio Stallone por trás de uma história óbvia e batida. Mesmo com todo esforço para acompanhar a vida do jovem Creed, nada parece interessante o suficiente para que o boxe fique em segundo plano, portanto, vira tudo apenas enrolação.

Pior ainda, Adonis simplesmente se torna um babaca que não escuta ninguém e vê tudo dar errado a cada decisão sua, mas sempre consegue distorcer tudo para se eximir da bobagem e responsabilizar alguém, no caso, Rocky, que quase não tem nada a ver com a história, mas está lá, servindo de treinandor/coach motivacional e ainda com a responsabilidade de criar um treinamento esquisitão e cheio de objetos incomuns, que deixa tudo com jeitão de “cross fit” enquanto ganha contornos de “momento incrível”.

A impressão que dá é que os grandes lutadores só ganham o cinturão se tiverem um treinamento com cara de pobre, enferrujado e excêntrico.

Voltando ao elenco, Tessa Thompson acaba tendo mais espaço no filme, talvez para não desperdiçar o talento da atriz, mas sua presença é tão esquecível que fica difícil não se irritar. Ela é a “mulher”, aquela que, de acordo com a sogra, deve “entender o marido, cuidar dele e lhe dar valor”, mesmo que ele esteja sendo um babaca porque perdeu uma luta que todos falaram para ele não lutar. Mas de todo jeito, ela engravida e isso dá para ele a motivação para dar a volta por cima, afinal, como ele próprio diz, “como minha filha poderá olhar para a minha cara se eu não lutar?”.

A coitada da personagem de Thompson ainda precisa sofrer com o drama exagerado que ele cria ao perceber a possibilidade da filha ter o mesmo problema auditivo da mãe. Se para ele isso parece o fim do mundo, para ela, não parece que atrapalhou sua carreira musical e sua vida feliz. Em um desespero para encontrar uma doença que faça Adonis ganhar mais força, assim como o câncer do Rocky no primeiro, ninguém do roteiro percebe que a preocupação com o problema auditivo da criança ofende não só a personagem de Tessa Thompson, como, provavelmente, também o faça a todo mundo que tenha problema semelhante. Assim como, é claro, ofende a inteligência do espectador, que percebe claramente um exagero melodramático que não presta para nada e prova pouquíssimo.

Do outro lado do Pacífico, na fotografia azulada e gelada da Ucrânia e da Russia, Vicktor, mesmo tendo apenas duas ou três linhas de diálogo, tem um arco muito mais interessante e emocional. Lutando pela aceitação do pai, da mãe e de uma nação inteira, vê em uma possível derrota muito mais que orgulho ferido, mas sim aquilo que ele entende como honra ser quebrado. No final, o hesitante abraço no pai Ivan fecha essa história que deveria ter sido contada no lugar da do seu adversário Adonis Creed.

Mas talvez a maior certeza de Creed II é que Ryan Googler (do primeiro Creed) seja quem faz a maior falta. Esteticamente, o antigo diretor entregava um filme que valorizava cada luta como um evento, enquanto Steven Caple Jr. só consegue fazer um trabalho genérico e sem paixão, somente uma câmera que olha para a ação. Não erra, faz aquilo necessário para chegar ao final da história, mas não estrega nada minimamente inesquecível.

Creed II ganha nos pontos em uma luta com poucos golpes e muito clinch. Conta a história de um moleque mimado que quer bater no grandão porque ele pisou no território dele, mas que, como no final escuta a musica tema original do Rocky, pode se considerar parte dessa série, mesmo sempre muito mais próximo daqueles episódios que você nem lembra que existam, com Tommy “Machine” Gunn ou Mason “The Line” Dixon… pois é, você não lembra deles.


“Creed II” (EUA, 2018), escrito por Cheo Hodaru Coker, Sacha Penn, Sylvester Stallone e Juel Taylor, dirigido por Steven Caple Jr., com Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Dolph Lundgren, Florian Munteanu, Russel Hornsby e Wood Harris.


Trailer do Filme – Creed II

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